Kumaravadivelu (1994) sentiu-se motivado a propor uma nova visão de ensino por acreditar que os conceitos de métodos de ensino existentes eram não somente limitados em si mesmos como impunham limitações que muitas vezes resultavam em um clima desfavorável ao aprendizado. Na visão do autor, em um mundo ideal os professores de línguas deveriam ser pedagogicamente independentes, ou seja, terem algum conhecimento teórico de áreas diversas como a psicolingüística, a sócio-lingüística, a psicologia cognitiva, a aquisição de línguas e a pedagogia, sendo assim capazes de elaborar uma prática teórica sistemática, coerente e relevante. Tal prática teórica, baseada em simples observação e reflexão, possibilitaria ao professor ir além dos aspectos lingüísticos e, em conseqüência, trazer para a sala de aula um pouco do momento sócio-político-cultural vivenciado do lado de fora.
O professor ideal seria, portanto, “um pensador estratégico e um profissional estratégico” (Kumaravadivelu, 2003:2)57. Como pensador estratégico, o professor teria a capacidade de refletir sobre as necessidades, vontades, situações e processos de aprendizagem e ensino específicos a um determinado grupo de alunos. Como profissional estratégico, o professor estaria consciente da necessidade de adquirir conhecimento e habilidades de auto-observação, análise e avaliação sobre o seu modo de ensinar.
Para Kumaravadivelu (2003), “a pedagogia do Pós-Método busca direcionar professores e futuros-professores a migração de um modelo de transmissão de conhecimento para um modelo de geração de conhecimento; a migração da dependência pedagógica para a independência pedagógica”58.
57 “strategic thinkers as well as strategic practitioners.” (tradução minha)
58 “Postmethod pedagogy seeks to direct practicing and prospective language teachers away from knowledge transmission and towards knowledge generation; away from pedagogic dependence and towards pedagogic independence.” (idem)
47
Com o objetivo de melhor guiar o professor nessa jornada em busca da independência pedagógica, Kumaravadivelu inicialmente propôs um quadro conceptual baseado em dez (10) macro-estratégias derivadas do seu conhecimento teórico, empírico e experiencial sobre ensino, aprendizagem e capacitação como professor de línguas (p.40), a saber:
1. “Maximização das oportunidades de aprendizagem: vê o ensino como um processo que cria e utiliza oportunidades de aprendizagem; um processo onde os professores chegam a um meio-termo entre seus papéis de administradores de atos de ensino e de mediadores de atos de aprendizagem.
2. Minimização de diferenças perceptuais: enfatiza a necessidade de reconhecer as possíveis diferenças perceptuais entre as intenções e interpretações dos alunos, dos professores e daqueles responsáveis pela capacitação de professores.
3. Facilitação da interação negociada: refere-se à interação significativa em sala de aula entre alunos e entre alunos e professores. Durante a interação os alunos têm o direito de e são encorajados a iniciarem o tópico e a falar, não apenas a reagir e a responder.
4. Promoção da autonomia do aluno: visa ajudar os alunos a aprender como aprender, equipando-os com as ferramentas necessárias para auto-direcionar e auto-monitorar seu aprendizado.
5. Desenvolvimento de consciência lingüística: visa promover a conscientização dos alunos com relação às propriedades formais e funcionais da segunda língua, com a finalidade de aumentar o grau de explicitação necessária à aprendizagem desta. 6. Ativação da heurística intuitiva: enfatiza a importância de prover os alunos com
dados textuais ricos, de forma a poderem inferir e internalizar as regras fundamentais que governam o uso gramatical e comunicativo da língua.
7. Contextualização do input lingüístico: enfatiza como o uso da língua é influenciado por contextos lingüísticos, extralingüísticos, situacionais e extra-situacionais.
8. Integração de habilidades lingüísticas: tem relação com a necessidade de integração holística das habilidades lingüísticas que são normalmente tratadas separadamente e na seguinte seqüência: compreensão oral, conversação, leitura e escrita.
48
9. Garantia de relevância social: defende a necessidade de tornar os professores sensíveis ao ambiente social, político, econômico e educacional da aprendizagem de segunda língua.
10. Ativação da consciência cultural: enfatiza a necessidade de tratar os alunos como agentes de informação cultural, de modo a encorajá-los a se engajarem em um processo de participação em sala de aula que premia força e conhecimento prévio.” Em um segundo momento, as macro-estratégias aqui enumeradas levaram o autor a formular um quadro mais amplo, resultando no desenvolvimento do que ele chamou de ‘parâmetros da particularidade, praticalidade e possibilidade’.
O parâmetro da particularidade opõe-se à noção de que é possível que um único método, com um conjunto de princípios teóricos e práticas de sala de aula, adéqüe-se a todo e qualquer grupo de professores e alunos de língua estrangeira. Em outras palavras, isso significaria que seguir o parâmetro da particularidade é o mesmo que ser sensível aos contextos educacionais, sociais e institucionais locais.
O parâmetro da particularidade pode ser posto em prática por meio da auto- observação ou da observação da prática de ensino de colegas, com vistas à criação de um círculo virtuoso de observação, reflexão e ação que sirva de ajuda na identificação e correção de problemas locais. Como é inviável que esse círculo virtuoso se estabeleça sem a observação de práticas em sala de aula, este parâmetro está intimamente ligado ao parâmetro da praticalidade (Kumaravadivelu, 2003).
O parâmetro da praticalidade tem um impacto direto sobre o que acontece na sala de aula, uma vez que trata da relação entre teorias sobre ensino e práticas de ensino e o que efetivamente acontece em sala de aula. Representa o reconhecimento de que nenhuma teoria é útil e executável a não ser que tenha nascido da prática.
Para Kumaravadivelu (2003:35)59, “o exercício intelectual de tentar elaborar uma teoria sobre práticas de ensino habilita o professor a entender e identificar problemas, analisar e avaliar informações, considerar e avaliar alternativas para, somente então, escolher a melhor solução e, mais uma vez, submetê-la à observação crítica”.
59 “The intellectual exercise of attempting to derive a theory of practice enables teachers to understand and identify problems, analyze and assess information, consider and evaluate alternatives, and then choose the best available alternative that is then subjected to further critical appraisal.” (tradução minha)
49
O parâmetro da praticalidade é também composto por outros dois aspectos: intuição e perspicácia do professor, que se sedimentam e solidificam na medida em que o professor ganha experiência. Essa natureza aparentemente intuitiva e idiossincrática da conscientização do professor com relação ao seu ambiente de ensino é, na verdade, influenciada por fatores pedagógicos e sócio-políticos inerentes à realidade vivida por esse professor dentro e fora da sala de aula.
Dessa forma, o processo de conscientização passa a influenciar não só os aspectos pedagógicos ligados à maximização da possibilidade de aprendizado dentro da sala de aula, mas também fora dela; e é a influência dessa conscientização sobre o mundo fora da sala de aula que leva ao terceiro e último parâmetro definido por Kumaravadivelu: o da possibilidade.
O parâmetro da possibilidade baseia-se nas obras de pedagogos que seguem a linha Freiriana, ou seja, reconhece que a relação de poder e domínio existente em qualquer pedagogia gera e mantém desigualdades sociais. Assim, esse parâmetro se ocupa da identidade de cada um dos participantes (alunos e professores) de um determinado grupo em um dado local. Kumaravadivelu (p.37)60 coloca, ainda, que, “o parâmetro da possibilidade tem como objetivo utilizar a consciência sócio-política que os indivíduos trazem consigo para a sala de aula como um catalisador, na busca contínua pela formação de identidade e transformação social”.
Infere-se, a partir desse ponto, que a formação de identidade remete, mais uma vez, ao parâmetro da particularidade, associado ao caráter único de um determinado grupo; este, por sua vez, remete novamente ao parâmetro da praticalidade o qual, por meio da observação desse mesmo caráter único, propõe práticas para o grupo em questão. A conscientização gerada pelo caráter da praticalidade, ao levar professor e alunos ao parâmetro da possibilidade, pode fazer com que o círculo se feche.
Esses três parâmetros parecem, portanto, entrecortar-se e transparecer – em maior e menor grau – nas dez macro-estratégias previamente propostas. A tônica holística das macro- estratégias permite ao professor apresentar a língua para o aluno de modo a integrar todas as habilidades envolvidas na comunicação (compreensão oral, fala, leitura e escrita), levando-o
60 “The parameter of possibility seeks to tap the sociopolitical consciousness that participants bring with them to the classroom so that it can also function as a catalyst for a continual quest for identity formation and social transformation.” (tradução minha)
50
ao mesmo tempo a explorar o ambiente cultural, social e comunitário onde está inserido, de forma sensível e respeitosa.