Entre as profissionais do sexo, há uma constante referência à família com muito respeito, afastamento de sua vida de trabalho como prostituta e um medo constante de que as pessoas próximas descubram sua atividade. Mesmo que haja alguém na família que saiba a natureza de seu trabalho, geralmente trata-se de outras mulheres da casa. Os outros membros são poupados e até evita-se que tenham conhecimento, principalmente no caso dos homens (irmãos, pais, namorados).
A dificuldade de falar da família e de sua vida de infância já foi abordada; contudo, isso é verificado também em alguns comentários, como este, de Beatriz:
Beatriz: Minha família é uma família unida, que não é tão unida, mas é
unida (risos).
Nota-se uma dificuldade de lidar com a situação de encarar fatos que vão de encontro à sua formação familiar, ainda eivada de traços paternalistas.
5.2.1.1. A centralidade da figura paterna
Ao responder sobre sua infância e sua família, Cassandra foi a que mais falou espontaneamente, ainda que também muito pouco. Contudo, para ela o fato mais marcante foi a morte do pai. Sobre todo o restante (colegas, escola), ela utiliza o adjetivo normal. Isso não estabelece especificação de nenhuma espécie, caracterizando, também uma forma de silenciamento, conforme o trecho a seguir:
Cassandra: Olha, eu acho que fui uma criança normal... fiz tudo igual todo mundo. Só meu pai ter morrido muito cedo que me marcou muito,
né? Porque eu lembro dele brincando com a gente muito... sempre agradava a gente... então, quando eu tinha oito anos ele morreu... foi coração... mas era novo... minha mãe que ficou com a gente... mas tudo
foi normal... escola, brincadeiras, coleguinhas... normal.
Ágatha, também no pouco que fala de sua convivência familiar, utiliza o adjetivo normal. Todavia, soma-se a ele, para atribuir a escola onde estudou, o adjetivo simples, o qual também pode ser interpretado da mesma forma. Segue o trecho:
Ágatha: Muitas dificuldades financeiras... éh... mas muito carinho em
casa, muita (???) dos meus pais. Estudo normal. Escola simples. Uma vida normal.
Sobre a morte do pai, Cassandra deixa claro que ele era o esteio da família, o ponto de equilíbrio e o responsável por ela. Mesmo entendendo que antes da morte do
pai a família toda morava junta, ou seja, não era constituída por pais separados, ela afirma que após esse episódio a mãe ficou com os filhos. Isso significa dizer que a expectativa da família era ter um pai – a figura masculina – oferecendo cuidado e proteção.
Divina vai mais além, para ela é inconcebível que seu pai saiba de sua profissão, que sugere, mais uma vez, a importância da figura masculina na família, conforme vemos a seguir:
Divina: (...) Meu pai gostava que a gente estudava, sabe? Ele ficava feliz com nota boa... essas coisas.
Estão lá... moro com eles... éh... eu adoro meu pai... Meu Deus... se meu pai souber... acho que mato ele.
Os relatos mostram a prática familiar que ainda leva em consideração a centralidade paterna. A opinião do pai, seu controle e determinações ainda regem a direção dos filhos, especialmente, das filhas.
Segundo Talbot, essa também é uma construção de gênero relativa ao ambiente familiar (conforme o Cap. 3). Há uma preparação para que as mulheres se dediquem ao lar e à prole, especialmente nas brincadeiras com bonecas. Os discursos que se apresentam paralelamente a essa atitude põem a mulher em situação de cuidadora do lar, mas como auxiliar do homem, este sim visto como a cabeça que pensa e que, portanto, tem o direito de exercer controle e poder nessa célula central da sociedade.
A reprodução desse sistema no discurso das prostitutas mostra a dificuldade de assumir um caminho diferente daquele estabelecido pelo discurso tradicional de gênero construído na realidade das famílias (cf. Magalhães, 2000b).
5.2.1.2. A importância dos estudos
Como é também discurso recorrente no seio familiar, o reconhecimento da necessidade de formação escolar é igualmente encontrado nas afirmações das profissionais do sexo. Significa dizer que a opção por essa atividade não se deu por falta de orientação no sentido de uma educação tradicional.
A realização de estudos para satisfação da necessidade profissional ou até mesmo para contemplar os anseios da família pode ser reproduzida nos discursos das prostitutas. Divina, por exemplo, diz o seguinte:
Divina: Ah... por isso que falei da escola... a gente sempre teve... éh... meu pai gostava que a gente estudava, sabe? Ele ficava feliz com nota boa... essas coisas...
Todas as participantes selecionadas informaram ter terminado o ensino médio. Algumas chamam isso de terminar os estudos, como se pode verificar no relato de Beatriz: “Estudei em Taguatinga. Segundo Grau completo. Terminei...”.
Essa idéia de “terminar” os estudos ao fim do Ensino Médio (antigo Segundo Grau) também repete um discurso familiar. Contudo, esse discurso ainda remonta algumas décadas do século passado, em que o estudo técnico, oferecido no antigo científico, proporcionava uma formação básica profissional que possibilitava ao cidadão exercer uma profissão de técnico em áreas como contabilidade, administração e outras. Dessa forma, os filhos e filhas eram estimulados a realizar esses estudos e seguir uma carreira profissional.
O discurso de Ágatha também se aproxima dessa idéia ao afirmar o seguinte: Ágatha: Pedagogia. Terminei o curso de pedagogia. (Em faculdade?)
Segundo... não... antes quando eu estudava era só curso... (Aquele que
chamava de normal?) É, normal.
A aproximação do conceito de aquisição de cultura com uma formação escolar é recorrente na sociedade e que também é, conseqüentemente, repetida pela família. O discurso é feito da mesma forma por Ágatha ao criticar a profissional do sexo que não dá atenção a uma formação escolar, conforme este trecho:
Ágatha: Eu acho que a massagi... a... a... garota de programa, ela tem
que ter (.) raciocínio ela tem que ter cultura também. Ela tem que ter
estudo. Ela não tem que ser uma garota de programa... éh... como se
dizem... sem... sem nenhum tipo de cultura. Porque as pessoas também têm isso, que uma garota de programa é uma... uma mulher qualquer. E hoje não é. Hoj... hoje... as pessoas estão mais éh... éh...
desenvolvidas (.) mentalmente, né? Então eu acho que uma garota de
programa, ela tem todos os direitos como uma qualquer outra garota.
Para Ágatha, portanto, exercer a profissão de prostituta não significa dizer que a mulher deva se afastar da formação escolar. Para ela, essa formação traz uma preparação cultural necessária até mesmo para a relação da profissional com seus clientes.
Nos discursos das profissionais do sexo, a importância de buscar ascensão por meio da escolaridade ainda reflete a afirmação que se encontra no seio familiar. Contudo, para algumas, a falta de uma relação clara entre essa preparação e os resultados
profissionais dá a impressão de que é desnecessário estudar. O simples cumprimento da base escolar se mostra suficiente e um fator que já satisfaz à família e à sociedade. Daí decorre o discurso de que após o ensino médio já se tenha “terminado” os estudos.