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Pleie og omsorg

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Kap. 7 – Helse og sosial

7.3 Pleie og omsorg

O aumento das mobilizações sociais e políticas em torno da deterioração das condições e relações laborais viria também a constituir-se como a principal motivação para o primeira grande manifestação de rua que associamos commumente ao início do ciclo antiausteridade em Portugal: o protesto da ‘geração à rasca’.

6.3. O início dos protestos antiausteridade: a ‘geração à rasca’

O protesto da ‘geração à rasca’ realizado em 12 de Março de 2011 inaugura uma nova fase de contestação em Portugal. A sua importância é simultaneamente reconhecida quer pelas pesquisas desenvolvidas neste âmbito (Baumgarten, 2013; Soeiro, 2014), quer pelos ativistas que estiveram envolvidos, em algum momento, no ciclo antiausteridade, incluindo aqueles que não participaram ativamente na organização do evento. A ‘geração à rasca’ pode ser perspetivada como o marco da primeira fase dos protestos antiausteridade (Baumgarten, 2016). Muitos ativistas classificam o 12 de Março como “um processo e um momento histórico únicos” (Sandra), de “ter despertado a consciência cívica de muita gente” (Susana), ou que “há um pré e pós 12 de Março, assumindo que todos os outros protestos foram filhos do 12 de Março” (Miguel), ou ainda que “a palavra precariedade não existia antes” (Teresa)44.

Um dos jovens que teve a ideia de lançar o protesto, afirma que “a geração à rasca surge de um sentimento de frustração, da frustração tanto com as relações laborais, como com a situação de desemprego” (Frederico) e outra das organizadoras assinala que esta ideia nasceu espontaneamente: “foi uma conversa entre amigos. Estávamos os 4 no café a discutir a precariedade por causa do vídeo dos Deolinda e da reação que as pessoas tiveram a este vídeo e chegámos à conclusão que a música era muito específica para os jovens, mas que a precariedade, de certa forma, afetava toda a gente”. Assim, a canção “Que parva que eu sou45”, da autoria do grupo musical Deolinda, deu expressão aos sentimentos destes jovens face à vivência de um contexto de insegurança e medo perante as condições de vida do presente e do futuro, sem garantias de estabilidade económica e laboral.

44 Os nomes atribuídos aos ativistas são de natureza fictícia. Todas as declarações, que se encontram no texto,

foram extraídas das entrevistas realizadas pela autora no âmbito do projeto de investigação que suporta este trabalho.

45 A canção denuncia um retrato de uma geração reconhecida, no contexto da sociedade portuguesa, como a mais

qualificada de sempre em termos de recursos escolares e profissionais, mas que vivencia dificuldades consideráveis do ponto de vista dos recursos económicos, do alcance na estabilidade laboral e que padece de uma elevada dependência face aos seus progenitores.

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Mas além da música que materializou as preocupações de uma geração, outros fatores despoletaram esta iniciativa. Por um lado, uma certa influência do contexto internacional, pois vivia-se um clima político marcado pelas sublevações da Primavera Árabe onde, com as devidas diferenças de contextos políticos e culturais, os temas do desemprego e das más condições de vida dos jovens eram centrais e criavam empatia em jovens de outros países com situações de vida precárias. Por outro lado, os fatores relacionados com a conjuntura política interna e nacional: vivia-se um período de um governo minoritário conduzido pelo PS onde já tinham sido impostas medidas de austeridade.

Foi assim a junção de um conjunto de fatores sociais, políticos, económicos e culturais que deu lugar à ideia de lançar a iniciativa. Em suma, como refere uma das organizadoras (Teresa), “o 12 de Março foi a música dos Deolinda, o fim do ciclo político do Sócrates, foram as primaveras árabes e o contexto que isso estava a criar na Europa”. O evento foi considerado um sucesso em termos da sua dimensão numérica de participação, ficando, desde logo reconhecido, como a maior manifestação realizada nas últimas décadas em Portugal.

Além disso, tal como na onda de protestos internacionais iniciada pela Primavera Árabe, os social media serviram de alavanca à sua organização. A página do evento no facebook foi amplamente difundida nas redes sociais da internet. Estas constituíram-se como o primeiro instrumento de mobilização e são reconhecidas pelos ativistas como tendo mudado o cenário organizativo dos protestos, permitindo a grupos de cidadãos e ativistas coordenarem-se virtualmente e de forma independente do grupo organizador inicial, de modo a realizarem protestos em 30 cidades e em 12 países sob o mesmo lema e utilizando os mesmos slogans.46

A sua importância é brutal. Muitos destes movimentos não existiriam se não tivesses esta ferramenta porque não tinhas mesmo canais de comunicação com uma série de pessoas. Isso aconteceu logo no 12 de Março e depois aconteceu no 15 de Setembro e no 2 de Março, aquela coisa de se criar rapidamente vários núcleos em várias cidades em que as pessoas saem à rua na própria cidade. Não há aquela coisa de há a manifestação em Lisboa e eu estou em Guimarães. (Patrícia)

46 Por exemplo, em cidades como Lisboa estima-se a participação de 200 a 300 mil pessoas e no Porto de 80 mil.

Esta dimensão em termos de participação cívica conduziu a que permanecesse reconhecida como a maior manifestação realizada nas últimas décadas na sociedade portuguesa (Baumgarten, 2013), fenómeno também surpreendente para os próprios organizadores do protesto: “eu lembro-me de sair de casa no Sábado e achava que iam estar mil pessoas e disse à minha mãe: “olha, se estiverem mil pessoas é muito grande!”. Quando nós abrimos a faixa e a polícia nos disse: “nós não vamos fechar porque não se justifica e começou a aparecer pessoas de todos os lados. Aquele mar de gente foi algo impressionante! Eu acho que nunca mais vou viver um momento igual! (Teresa)”

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Outro organizador do 12de Março exalta também o caráter fundamental do facebook na disseminação do protesto, sobretudo tendo em conta que os jovens que o criaram não possuíam redes de contacto importantes nos meios do ativismo.

...o grupo inicial não era propriamente constituído por veteranos do ativismo, nem eram pessoas com redes muito antigas e consolidadas nos meios do ativismo. Não tinha existido geração à rasca e não teria começado a atuar neste tipo de ativismo sem este media. (Frederico)

No entanto, apesar da ideia de o 12de Março ser originariamente de 4 jovens que, a nosso ver, não pertencem àquilo que designamos de ativistas de continuidade, estes socorreram-se do auxílio de indivíduos mais experientes e com percursos de longa duração nas redes do ativismo, nomeadamente com ligações ao movimento antipropinas dos anos de 1990, ao processo do Fórum Social Português, à defesa da interrupção voluntária da gravidez e do casamento entre pessoas do mesmo sexo, com o objetivo de alargar as redes de disseminação do protesto no seio dos grupos de ativistas pré-existentes. Assim, embora muitas vezes a construção deste protesto seja associada à espontaneidade e ao facto de surgir de jovens com pouco capital social nos meios do protesto político e social, houve desde o primeiro momento contactos e cooperação com grupos mais antigos até no sentido de reunir os recursos materiais e logísticos necessários.

Tu tens aquelas 4 pessoas que convocam, uma das quais era militante do Bloco de Esquerda, mas que não foi buscar o partido, era uma convocatória cidadã, e que começam a estabelecer contactos com pessoas que já tinham movimentações de ativismo e imediatamente a ligação com os Precários Inflexíveis porque têm um carro de som, que podem ajudar a fazer cartazes e panos porque já têm esse know-how... tu tens essa colaboração logo desde o início. (Patrícia)

Muitos ativistas reconhecem que os social media introduziram uma nova forma de fazer protestos, mas também não descuram o papel dos media mais antigos, como a televisão, salientando a sua relação simbiótica.

As grandes manifestações são feitas por uma espécie de onda, começas nos ativistas, vais às redes sociais, aquilo toma balanço e chega aos media tradicionais que

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alimenta e desagua na coisa, portanto, tu precisas dos meios tradicionais. Mas, para criares onda, precisas das redes. (Ricardo)

Mas tendo ainda em consideração o contexto político e económico em que se organizou o 12 de Março, a ampla repercussão mediática pode estar ainda relacionada com a emergência de divergências no seio das elites políticas face à aprovação do PEC IV e com o contexto de forte contestação social que o Governo atravessava nesta época47. Alguns ativistas associam ainda o sucesso do evento em termos de dimensão de participação a um certo aproveitamento político “apoiado” pelos mass-media.

Foram levados ao colo pelos media, pelo Cavaco, por todos os jornalistas, portanto, há toda essa parte. Mas é verdade, o 12 de Março não aconteceu pelo brilhantismo daquelas 4 pessoas e depois daquelas que as ajudaram porque houve uma série de poderes. É uma grande ingenuidade achar que o 12 de Março foi uma coisa assim espontânea e maravilhosa. (Sónia)

Outro activista que apoiou a organização do 12 de Março reitera que “no fim do socratismo, a direita instalada nos media deu muita visibilidade ao 12M. Interessava-lhes mandar abaixo o Sócrates, portanto, havia ali uma boa oportunidade”. (Miguel)

Contudo, tal como é postulado por Jaspers (2004), na sua análise crítica à teoria do processo político e ao conceito de estrutura de oportunidade política, os ativistas não podem ser retratados como atores que estão apenas sentados à espera de uma oportunidade para participar ou para edificar protestos, ou seja, é necessário que alguém tenha a iniciativa de organizar e mobilizar as pessoas para que a movimentação social se desenrole, papel este que é reconhecido pelo mesmo ativista.

Nenhum dos protestos teria existido se não tivesse sido da iniciativa de pequenos grupos organizados, logo a começar pelo 12M: um grupo de amigos que, na altura, eram muito próximos e dessa afinidade produziram um processo concreto. Sem essa afinidade, não há aqui sebastianismos, um tipo sozinho não faz manifestações de massas. (Miguel)

47 http://www.dn.pt/dossiers/politica/crise-politica-no-segundo-governo-de-socrates/noticias/interior/oposicao-

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O facto de o protesto se apresentar como organizado à margem dos partidos políticos e das organizações sindicais e como sendo da iniciativa de jovens trabalhadores precários pode também ter contribuído para a elevada participação na manifestação. No mesmo sentido, o manifesto criado pelos organizadores não se constituía como um documento de natureza política, mas foi concebido de forma abrangente para alcançar uma maior presença dos cidadãos. Como refere uma ativista, “havia muita vontade de que aquelas manifestações, que aconteceram em muitas cidades portuguesas, fossem fora de qualquer apoio político ou de qualquer carimbo de fosse o que fosse e isso fez com que as pessoas saíssem à rua em massa” (Susana). Esta característica, segundo os ativistas, apareceu como algo novo não só para as pessoas que participam em manifestações, mas também para aquelas que não possuem este hábito de participação cívica.

As características eram inéditas. O 12 de Março marcou uma alteração na organização dos protestos: nós habitualmente somos chamados para participar nas ações das centrais sindicais, aquele género de mobilização foi algo novo. (Inês) No mesmo sentido, outros ativistas reiteram que a convocação de manifestações fora do quadro organizativo dos partidos políticos ou dos sindicatos iniciou-se com o 12 de Março.

Foi a primeira manifestação não organizada pela CGTP, sem orientação de partidos. Um dos aspetos muito positivos começou no 12 de Março e teve a ver com um rompimento das pessoas, das massas para fora das organizações tradicionais (José) ou ainda que o Bloco e o PC deixaram de ser atores solitários na obra do movimento social e o poder passou a contar com um poder com o qual não sabe lidar. (Miguel) O 12 de Março distinguiu-se pela heterogeneidade dos perfis sócioeconómicos e etários e por trazer aos protestos de rua cidadãos que habitualmente não participam neste tipo de mobilizações de caráter cívico. Este é também perspetivado como um dos aspetos mais positivos.

Um dos grandes contributos do 12 de Março foi ter trazido à vida ativista e pública pessoas que até então nunca tinham participado em nada. Ter trazido jovens que nunca tinham ido a uma manifestação e que nem tinham interesse em ir, isso foi muito notório (...) nós vimos pessoas de todas as idades, famílias inteiras naquelas manifestações e isso foi um grande contributo. (Susana)

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Treze dias após a realização do protesto, o PEC IV proposto pelo então Primeiro- Ministro José Sócrates é rejeitado pelos partidos de oposição e, em seguida, é anunciada a demissão do Governo48. A partir daqui segue-se o pedido internacional de resgate financeiro e a realização de eleições antecipadas em Junho de 2012, onde o Partido Social Democrata, liderado por Pedro Passos Coelho, seria o partido mais votado e formaria governo mediante coligação com o CDS-PP49. Durante este período compreendido entre o protesto da ‘geração à rasca’ (12 de Março de 2011) e a realização das eleições legislativas, destaca-se a criação da acampada do Rossio50 e, posteriormente, da Plataforma 15 de Outubro que organizaria a manifestação de 15 de Outubro de 2011.

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