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Dando seqüência e reformulando a polêmica concepção dicotômica que Saussure atribuiu à língua (langue) e à fala (parole), Anscombre (1995) e Ducrot (1980, 1988) denominaram a primeira de frase e a segunda de enunciado e reorganizaram essa visão, estabelecendo uma articulação entre as duas. Segundo os dois autores, enquanto a frase é um construto teórico que possibilita chegar ao sentido produzido pelo enunciado, por meio de instruções, este consiste em uma entidade concreta, instância em que se manifesta o sentido. Assim, só podemos chegar ao sentido veiculado pelo enunciado se seguimos as instruções fornecidas pela significação da frase.

Sob essa concepção semântica, assim como a frase está para o enunciado, o texto está para o discurso. Enquanto a frase consiste na entidade lingüística (teórica) que o locutor emprega para materializar (concretizar) seu dizer, sendo, portanto, uma entidade abstrata; o texto, que é formado por seqüências de frases, também é uma entidade abstrata, porém, em um nível mais complexo. Já o enunciado consiste na realização da frase, constituindo um

modo singular de pô-la em ação, por isso é possível dizer que uma mesma frase pode dar origem a diferentes enunciados. O discurso também é uma entidade concreta, como o enunciado, porém, em um nível mais complexo. Ele designa uma seqüência de enunciados encadeados entre si, sendo, portanto, a realização do texto (que é construto teórico, composto por instruções que levam ao sentido, assim como a frase). E a enunciação é, nesse contexto, o acontecimento histórico, a atividade lingüística, isto é, refere-se ao processo pelo qual a frase atualiza-se, operando no nível do enunciado ou do discurso, conforme sintetiza o esquema abaixo da realização lingüística, elaborado por Ducrot (1984, p. 369):

Nível elementar Nível complexo

Entidade abstrata frase texto

Realização:

O que é realizado (concreto) enunciado discurso

Acontecimento enunciação

Processo de produção atividade lingüística

A título de ilustração, tomemos como exemplo o enunciado “Entrou pelo cano”, cuja frase (entidade abstrata) contém um conjunto de instruções (uma significação) que orienta o sentido produzido pelo discurso, em diferentes situações de uso. Para chegar aos valores semânticos construídos pelas diferentes atualizações dessa frase, precisamos seguir a instrução: busque no enunciado em que ela opera a que sentido o locutor aponta sua argumentação e chegamos assim ao enunciado, descobrindo os diversos sentidos produzidos em cada situação enunciativa, conforme vemos a seguir:

a) “Estávamos presos no túnel e não havia nenhuma perspectiva de saída. Foi quando um dos rapazes teve a idéia: Entrou pelo cano. E foi assim que nos salvamos daquela tragédia.” (sentido do enunciado = entrar pelo cano para salvar-se)

b) “- Hoje vocês fizeram a prova final, não? Você sabe se o Lucas foi bem?

- Ah! Pelo que falou, entrou pelo cano! (sentido de entrar pelo cano = rodar, tirar nota baixa)

c) “- E então, Márcio, como foi a entrevista para o emprego de contador? Conseguiste a vaga? - Acho que sim, mas a Cristina entrou pelo cano!” (sentido de entrar pelo cano = não conseguir o emprego desejado)

d) “A dona de casa corria desesperada atrás do animal invasor, mas esse entrou pelo cano e conseguiu escapar das garras da brava mulher!” (sentido de entrar pelo cano = para fugir, escapar)

Temos aqui uma única frase, produzindo diferentes enunciados (sentidos). Isto mostra que “a frase fornece instruções que permitem descobrir, numa situação de enunciação particular, aquilo a que se referem os seus enunciados. No entanto, sozinha ela não realiza a função referencial” (DUCROT, 1984, p. 370). Se simplesmente dissermos “Entrar pelo cano”, provavelmente nosso interlocutor indagará o que queremos dizer com isso, solicitando que coloquemos esse dizer em uma situação enunciativa, operando como enunciado, pois só assim estará apto a construir sentido.

Sob esse enfoque, no nível da frase (portanto, do texto) o número de r (conclusões possíveis) de uma frase “P mas Q”, por exemplo, é bastante amplo; já no nível do enunciado (logo, do discurso) ele é único, e precisa ser conhecido para que se construa sentido. Essa diferença mostra a diversidade existente entre o valor semântico da entidade abstrata (da língua) e o de sua realização (da fala). Como vemos, o enunciado diz coisas que a frase não pode dizer. Já o discurso constitui-se pela seqüência de enunciados, que são realização das frases. O sentido do discurso, na nossa pesquisa, o movimento argumentativo construído pela crônica como unidade semântica, contém o sentido de cada um dos enunciados que o constituem, formando um todo semântico, levando em conta também a ordem e o modo como esses enunciados se organizam. Precisamos, então, pensar o sentido do discurso sob dois prismas: da totalização dos sentidos que os enunciados possuem individualmente e do resultado de sua organização no discurso (DUCROT, 1984, p. 376).

No entanto, não devemos confundir o valor semântico das entidades abstratas com o que muitos chamam de sentido literal. Anscombre (1995) e Ducrot (1984) entendem o sentido literal e figurado como duas entidades homogêneas, concebidas sob diferentes enfoques, em diversos graus de suas possibilidades semânticas. Há, nessas condições, dois níveis de

manifestação do sentido: o abstrato (correspondente a instruções que devem ser seguidas para que se chegue ao sentido, no nível da língua) e o concreto (instância em que o sentido se realiza, no nível da fala).

A partir dessa abordagem, quando as entidades abstratas manifestam-se na instância da frase e do texto, construindo seu valor semântico, via regras para interpretar enunciados e discursos, essas entidades ficam isentas da função de conter informação, já que podem levar ao sentido, mas não o possuem. É preciso articulá-las com as entidades concretas, no nível do enunciado e do discurso, para desvendar o sentido, já que é nessa instância que reside o conteúdo enquanto comunicação. A relação terminológica estabelecida entre frase e texto, por um lado, e enunciado e discurso, por outro, não ocorre somente porque são realidades diferentes, mas por serem realidades que se comportam de modo totalmente diferenciado (DUCROT, 1984, DUCROT e CAREL, 1999) que, no entanto, precisam ser abordados de modo interligado, já que é sua articulação que produz o sentido veiculado. Em síntese, Ducrot (1988) distingue, mas não separa a língua da fala, abordando-as simultaneamente ao descrever a linguagem. Assim, enquanto a significação refere-se somente à representação semântica da frase, o sentido remete tanto ao enunciado quanto ao discurso. É, por fim, na articulação entre frase e enunciado que situamos nossa concepção discursivo-enunciativa da oração relativa, no ensino de língua materna. Acreditamos que esse modo semântico de abordar a linguagem, articulando o material lingüístico (a forma) com sua atualização (sua ocorrência), possa nos levar a descrever a língua em uso, em funcionamento, conforme orientam os PCNs, ultrapassando a freqüente prática escolar de apenas nomeá-la e classificá-la.