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Várias mudanças têm ocorrido no plano socioeconômico-cultural e vêm interferindo na dinâmica e estrutura familiar, resultando em alterações de seu padrão clássico de organização. Entre estas mudanças, destacam-se a entrada da mulher no mercado de trabalho, a ampliação do uso de métodos anticoncepcionais, as dificuldades econômicas, a redução da renda e consequente redução do poder de compra das famílias , a minimização do preconceito com as relações homoafetivas, entre outras. Neste sentido, a realidade atual envolve novas relações familiares, relações de gênero, avanços científicos e mercado de trabalho, trazendo a multiplicidade dos arranjos familiares.

As profundas mudanças nestas dimensões recolocam, neste final de século, a centralidade das relações entre trabalho e família para homens e mulheres, em que ganham destaque as novas formas e relações de trabalho, a multiplicidade de arranjos familiares, a participação das mulheres nos mais diferentes setores de atividade, as novas atitudes, legislações e políticas de eqüidade de gênero e a redefinição do papel do Estado (GOLDANI, 2002, p.30).

Assim, não se pode falar de família, mas de famílias, para que se possa contemplar a diversidade de relações que convivem na sociedade. No entanto, é comum observar a ideia de família remetendo ao conceito de família nuclear, em razão do processo de naturalização de um modelo considerado ideal.

De acordo com Prado (1983), os tipos de família variam muito, embora a forma mais conhecida no mundo ocidental seja o modelo nuclear, ou seja, de família constituída de pai,

mãe e filhos, idealizado e infundido nos livros escolares, nos filmes e na televisão como um todo como o modelo “normal”.

Bordieu (1993) reforça essa ideia de tendência à naturalização de um modelo familiar na sociedade brasileira. Segundo esse autor, “família não é mais do que uma palavra, uma simples construção verbal. A naturalização desse modelo familiar idealizado trata das representações que as pessoas fazem daquilo que elas designam como família (BORDIEU, 1993, p.32).

No entanto, em sociedades modernas, a ocorrência de família nuclear já é minoritária em relação aos casais que vivem juntos sem o casamento formal, casais que vivem separados e às famílias monoparentais (PRADO, 1983).

No Brasil, nos últimos anos, houve diminuição do tamanho e maior diversificação nos arranjos domésticos. A complexidade das relações familiares aumentou com o número de famílias reconstituídas, como resultado do crescimento das taxas de separação, divórcio e recasamentos. Além disso, cada vez mais, as mulheres encontram-se no papel de provedoras e não apenas de ajudante financeira à família. Muitas vezes, a força de trabalho feminina constiui um dos poucos recursos disponíveis para a sobrevivência da unidade doméstica, ou seja, atualmente as mulheres enfrentam o desafio de “cuidar” e “prover” suas famílias (GOLDANI, 2002).

Sobre as transformações na família brasileira, os censos populacionais, realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, têm demonstrado que a família brasileira tornou-se menor, com maior diversificação de arranjos e aumento de chefia feminina.

Nas pesquisas, o IBGE adota o seguinte conceito de família: “é o conjunto de pessoas ligadas por laços de parentesco, dependência doméstica ou normas de convivência, todos residentes na mesma casa” (IBGE, 2008, p.272). Outras considerações importantes referem- se ao arranjo familiar e ao ciclo de vida das famílias. De acordo com o IBGE (2008), os principais arranjos familiares são:

• família nuclear: casal com filhos;

• família monoparental: dirigida pelo homem ou pela mulher;

• família reconstituída: casais divorciados gerando novas uniões;

• família extensa: formada por mais de um núcleo familiar ou inclusão de outros parentes;

• família unipessoal: pessoa que mora sozinha em uma casa;

• casal sem filhos: apenas o casal sem a presença dos filhos, seja por motivo de opção, união recente ou casamento dos filhos;

• família homo: casal do mesmo sexo com ou sem filhos.

Segundo a PNAD (2007), o numero de pessoas que coabitam o mesmo domicílio e estão unidas por laços de consanguinidade equivale a 48,9% do tipo casal com filhos, cuja frequência vem se reduzindo, devido, principalmente, à queda da fecundidade. Em 1997, esse tipo de família atingia 56,6%, enquanto a proporção do tipo constituído por casal sem filhos cresceu, passando de 12,9% para 16,0% em 2007 (IBGE, 2008).

Ainda segundo os dados da pesquisa, existe uma tendência ao crescimento da proporção de pessoas que vivem sozinhas (8,3% em 2006 para 11,1% em 2007). Em 2007, os arranjos familiares unipessoais correspondiam a cerca de 6,7 milhões, sendo que 40,8% eram constituídos por pessoas de 60 anos ou mais de idade (Figura 2).

0 20 40 60 1997 2007 1997 12,9 56,6 16,5 5,4 2007 16 48,9 17,4 6,2

Casal sem filhos Casal com filhos Mulher sem cônjuges Outros

FIGURA 2: Distribuição percentual dos arranjos familiares brasileiros (1997-2007). FONTE: IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 1997/2007.

Nota: No ano de 1997, foi excluída a população rural de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará e Amapá.

O ciclo de vida familiar é determinado pela presença de filhos e pela sua idade. Os estágios de desenvolvimento familiar utilizados pelo IBGE em sua Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (PNAD, 2007) são:

• família em formação: todos os filhos menores que 16 anos;

• família intermediária: coexistência de filhos com idade inferior e superior a 16 anos;

• família em dispersão: todos os filhos com idade superior a 16 anos.

Na PNAD de 2007, a maioria das famílias pesquisadas encontra-se no ciclo de formação. Do total de famílias em que há presença de filhos, 50,5% pertencem ao ciclo de formação; e 15,5%, ao ciclo de dispersão de vida familiar (IBGE, 2008). No entanto, considerando as transformações pelas quais a família vêm passando e a diversidade dos arranjos familiares, é preciso compreendê-la como um grupo social. Além disso, é preciso enxergar na diversidade e não apenas os pontos da fragilidade, isto é, procurar evidenciar a

riqueza das respostas possíveis encontradas pelos grupos familiares, dentro de sua cultura, para suas necessidades e seus projetos (CARVALHO, 2002). Dessa forma, a saída ética é recusar o paradigma da Família Ideal e repensar as famílias em sua diversidade (GOMES, 2006).