2. Background
2.6. Patient participation in the ESRD trajectory
A chegada dos Almoadas à Espanha retardou por um tempo mas não impediu sua retomada por forças cristãs, que após a captura de Sevilha em 1248 completaram os longos séculos da Reconquista Católica. Somente Granada ainda resistiu até o ano de 1492. Durante o período da campanha do restabelecimento do poder cristão entre os séculos XI e XIII os judeus se viram constantemente em movimento entre áreas muçulmanas onde a intolerância estava presente ativamente e outras cristãs com um histórico e um futuro de animosidade.
O ideal das cruzadas da Reconquista era parte religioso e parte étnico e um espírito de devoção tomava conta do campo de batalha. Se no início os sefaraditas chegaram a receber incentivos em alguns lugares como Toledo, Saragoça e Tortosa para substituir a população muçulmana que havia fugido, uma batalha era travada entre as autoridades reais que defendiam seus interesses feudais e o clero que lutava pela hegemonia religiosa, colocando os judeus em posição precária frente à instabilidade do poder.
No início do século XIV, começou a ser disseminada uma imagem sem precedentes do judeu como uma figura nefasta, nascida não dos altos escalões da Igreja ou do Estado, mas dentre a gente comum e reforçada pelo baixo clero. “Difundida através da arte e dos ornamentos arquitetônicos, da música e dos cortejos religiosos, dos sermões semanais e dos rumores espalhados pelos padres—esta descrição preconceituosa era reforçada com cruel ironia, aumentando o isolamento e a segregação da comunidade judaica.” (GERBER, 1992, p. 110). Em 1348 a Peste Negra varreu a Europa exterminando aproximadamente vinte por cento da população e os judeus foram acusados de espalhá-la através da contaminação dos poços. Os rumores se espalharam rapidamente pela França, Espanha e Alemanha ganhando credibilidade. Ante o preconceito persistente, as comunidades judaicas se uniram em uma vasta rede de instituições de bem-estar e apoio mútuo.
Em 4 de junho de 1391 os judeus de Sevilha sofreram ataques e pogroms15 se espalharam rapidamente através da Espanha e Ilhas Baleares obrigando os judeus a escolher entre a conversão ou a morte. Quando a ordem foi finalmente restaurada, aproximadamente 100.000 judeus haviam se convertido, 100.000 foram mortos e outros 100.000 sobreviveram escondendo-se ou fugindo para terras muçulmanas. (GERBER, 1992, p. 113). Liderados pelo rabino Hasdai Crescas de Aragão, os sefaraditas tentaram reconstituir suas comunidades, porém mais do que a reconstrução dos bairros judaicos destruídos, os sobreviventes traumatizados e angustiados precisavam recuperar sua autoestima. No entanto, uma nova questão se apresentou—como lidar com os conversos, aqueles que haviam adotado o cristianismo e que afinal, eram seus próprios parentes? Conhecidos dentre os judeus praticantes como anussim, ou “os forçados”, foram acolhidos pela comunidade, porém muitos optaram por se mesclar à população cristã. Um outro grupo, que havia se convertido somente sob pressão extrema e que manteve a prática judaica em segredo, era rejeitado pela população cristã e conhecido dentre estes como marranos, o termo espanhol para porcos ou desertores. Ligados por laços familiares, os três grupos tinham fronteiras fluídas e vivendo inicialmente
15 Plural de pogrom: ataque violento maciço a um grupo de pessoas e seu ambiente (casas, negócios, centros
na mesma vizinhança, mantinham contato entre si. No entanto, na geração seguinte, mais distante da tradição de seus antepassados, estas relações começaram a se diluir.
Apesar dos obstáculos e da hostilidade crescente, as ondas de conversão não cessaram. A questão do converso transcendia a classe social, ideologia ou fé religiosa, não sendo automático seu reconhecimento como judeus ou cristãos. Apesar de muitos já não se considerarem judeus e não guardarem mais a memória desta tradição, eram percebidos como tal pelos cristãos-velhos, como se autodenominavam aqueles de fé cristã sem antecedentes judaicos. A hostilidade contra os cristãos-novos, aqueles que haviam se convertido, atingiu seu apogeu em Toledo em 1449 em um pogrom dirigido exclusivamente a este grupo. Em 1451 foram aprovadas pelos reis leis raciais, e no século XVI na Espanha e Portugal, o status de pureza de sangue passaria a ser condição para a ocupação de cargos públicos de chefia.
O casamento dos reis Fernando e Isabel em 1469 trazia a promessa de estabilidade após um período conturbado. Em várias ocasiões os reis intervieram favoravelmente aos judeus, impedindo atos de ódio e perseguição. Entretanto, alarmados pelos relatórios acerca das atividades judaizantes dos conversos, em 1478 pediram permissão a Roma e três anos depois estabeleceram a Inquisição Espanhola em Sevilha, quando vários membros das famílias mais proeminentes de cristãos-novos foram queimados nos autos-de-fé, estabelecendo-se um sistema de denúncia de desconfiança da prática secreta do judaísmo. Na década seguinte dezenas de milhares de conversos foram capturados. Estima-se que 700 pessoas tenham sido queimadas em praça pública em Sevilha, e no final do século 30.000 tenham sido dizimados em toda a Espanha.
Elaboradas celebrações eram encenadas em lugares públicos como a Plaza Mayor em Madri. As sentenças e punições eram anunciadas diante da multidão de expectadores, incluindo milhares de camponeses vindos das zonas rurais para testemunhar os atos em uma atmosfera festiva. Seguindo os inquisidores e o clérigo em procissões solenes, os acusados desfilavam portando longas velas e vestindo sambenitos. Estes trajes amarelos eram decorados com a cruz de Santo André ou com representações de diabos queimando no inferno. Os prisioneiros também usavam altas mitras com decorações similares. As procissões solenes e macabras culminavam em palcos ou tablados especialmente construídos em praças públicas. Uma cruz era erguida e a multidão fazia um juramento coletivo em defesa da fé e um distinto representante do clero proferia uma longa pregação insultando os acusados e suas práticas amaldiçoadas. Em seguida os penitentes desfilavam um a um frente ao púlpito para receber sua sentença em uma formalidade que poderia durar todo o dia. Os crimes mais hediondos, incluindo judaização eram punidos com morte na fogueira. A honra em acender a pira era geralmente conferida a algum visitante ilustre. Algumas vezes, caso o prisioneiro confessasse, poderia se reconciliar com a Igreja sendo forçado a penitências e recebendo punições severas, porém nos casos mais graves os acusados eram queimados mesmo após sua confissão, sendo que alguns professavam a sua crença inabalável no Deus de Israel no cumprimento da sentença. No caso de ofensas mais leves, alguns prisioneiros eram obrigados a portar o sambenito pelo resto de suas vidas, e após a sua morte estes eram expostos nas paredes das catedrais por gerações, submetendo seu portador e seus descendentes a humilhação e difamação. De fato, os descendentes dos
condenados foram excluídos de qualquer dignidade pública enquanto perdurou o Santo Ofício na Espanha.” (GERBER, 1992, p. 132-3).
O modus operandi da Inquisição permaneceu o mesmo até sua abolição no século XIX, mesmo que as execuções públicas não fossem mais tão frequentes. Ironicamente, os horrores da primeira década geraram um retorno de muitos conversos ao judaísmo, cuja religião e tradição taxadas como crime no cristianismo tornaram-se motivo de honra e orgulho dentre os sefaraditas. Uma política de expulsão parcial dos judeus foi introduzida na Andaluzia no final de 1482 e os sefaraditas foram banidos de Sevilha, Córdoba, Cádiz, Saragoça e Teruel. Em 1492 o estandarte espanhol for erguido na torre da Alhambra em Granada, a fortaleza-palácio símbolo da glória do antigo reino islâmico.
Logo após a queda de Granada, rumores a respeito do pronunciamento iminente de um édito de expulsão começaram a se espalhar nos círculos internos da corte. As tentativas de intercessão junto aos reis por parte de alguns membros influentes da comunidade judaica como Abravanel e Seneor mostraram-se infrutíferas. Fruto de uma política de unificação cristã, o édito pretendia “afastar a má influência da presença dos judeus que corriam o risco de corromper os maus cristãos.” (GERBER, 1992, p. 137).
Assim, o grande dano causado aos cristãos por sua participação, conexão e diálogo com os judeus foi descoberto. Uma vez que foi claramente demonstrado que eles sempre procuram de todas as maneiras disponíveis destruir e afastar os crentes no cristianismo de nossa Sagrada Fé Católica, a fim de separá-los e trazê-los próximo à sua fé...através da iniciação dos cristãos em seus rituais e costumes religiosos, organizando assembleias nas quais leem para eles e suas crianças, lhes fornecendo livros com os quais podem recitar suas preces e anunciar seus dias de jejum, encontrando-se para estudar histórias de sua bíblia, anunciando seus festivais antes de sua celebração, informando-os o que devem fazer e observar, lhes dando de suas casas o pão não fermentado e a carne abatida ritualisticamente [...]Assim...concordamos em ordenar a expulsão de todos os judeus e judias de nosso reino. Nenhum deles deve retornar... E caso sejam encontrados em nosso reino e domínios, devem ser levados à morte. (GERBER, 1992, apêndice I, p. 285).16
Os sefaraditas receberam o édito com descrença e desespero. Tinham quatro meses para deixar a Espanha e não poderiam levar qualquer ouro, prata ou outros metais preciosos. Encontrar asilo era a questão mais complexa que se apresentava—a França e Inglaterra haviam banido suas comunidades judaicas nos séculos XIII e XIV; após a peste negra, a Alemanha também expulsara os judeus e a Itália negava-se a aceitar sua entrada. O Norte da África mostrava-se como uma possibilidade, mas a presença massiva de piratas no Mediterrâneo tornava a travessia extremamente insegura.
Na primeira semana de julho a maioria dos judeus de Castela partiu para Portugal, onde o Rei D. João II lhes garantia a permanência temporária mediante o pagamento de elevadas taxas. O rei faleceu em 1495 e seu sucessor, D. Manuel I apresentou-se como pretendente para a filha de Fernando e Isabel de Castela. A expulsão dos judeus lhe foi imposta como condição para o matrimônio e em decreto promulgado no fim de 1496, ordenava-se que os judeus deveriam partir até o final de 1497. Se por um lado o rei de Portugal tinha interesse econômico na presença dos sefaraditas, por outro pretendia eliminar o judaísmo de seu reino. A solução encontrada foi o batismo em massa. Em março de 1497, as crianças judias com idade entre quatro e catorze anos foram tiradas de seus pais, batizadas e enviadas para ser criadas por famílias cristãs. Durante a Páscoa judaica do mesmo ano foi anunciado que os navios para aqueles que haviam optado por deixar Portugal partiriam somente de Lisboa. Quando os judeus ali chegaram não encontraram navio algum, mas um exército de padres a lhes jogar água benta, formalizando seu batismo. O decreto de expulsão não precisou ser cumprido, pois não havia mais judeus ali, somente cristãos.
No final do século XVI Amsterdam tornou-se um centro de retorno ao judaísmo para
ex-conversos, que encontravam um ambiente de tolerância religiosa na Holanda protestante.
Este grupo, apesar de ter mantido a fala do espanhol e português por algumas gerações, adotou os idiomas locais e no século XVIII tais línguas já não eram mais praticadas.