B´nai B´rith
Em hebraico significa filhos da aliança e é uma instituição judaica criada há mais de 170 anos, presente em mais de 50 países e ativa no Brasil desde 193075. Defende os direitos humanos fundamentais e o combate ao racismo, à intolerância e ao antissemitismo. Promove a cultura de paz e o diálogo inter-religioso, desenvolvendo programas educacionais, valorizando a liberdade e a democracia, pelo conhecimento da história. É considerada a mais antiga organização dedicada aos direitos humanos ainda em funcionamento no mundo76.
São muitas as atividades que eles proporcionam, dentre as quais, podemos citar o Programa Voluntários da Aliança, as Jornadas Interdisciplinares sobre o Ensino do Holocausto, o Diálogo Inter-religioso, Direitos Humanos e Palestras, diversas ações sociais como apoio a hospitais, inclusão social de crianças em vulnerabilidade. Diversas campanhas são promovidas anualmente, e uma das que teve maior repercussão foi a Exposição Anne Frank, uma história para hoje,77 visitada por mais de 100 mil pessoas, em sua maioria estudantes de escolas públicas.
Para este capítulo interessa mencionar as Jornadas Interdisciplinares sobre o ensino do Holocausto como estratégia de manutenção da memória viva. Foi em 2002, no município de São Paulo, que a primeira jornada aconteceu. Desde então, é realizada em diferentes cidades como Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, Brasília e Niterói. Em cada ano, um novo enfoque e título são apresentados e, ao final, é elaborado um livro digital contendo os artigos das principais palestras. São organizadas em parceria com as seguintes instituições: Laboratório de Estudos da Etnicidade e Racismo da Universidade de São Paulo
75 São Paulo e Rio de Janeiro foram as primeiras sedes da B’nai B’rith no Brasil, em 1932, mas a de SP foi fechada por Getúlio Vargas, durante o Estado Novo, e voltou a funcionar em 1950. A sede do Rio Grande do Sul foi inaugurada em 1955, a do Paraná, em 1956, e a de Campinas, em 1965.
76 Desde o surgimento realiza ações sociais diversificadas: fundou hospitais, orfanatos, lares para adultos, bibliotecas e tem realizado inúmeras campanhas em caso de desastres naturais e de necessidade, através de incontáveis iniciativas e programas de interesse público.
77 O evento foi uma correalização do Instituto Cultural Judaico Marc Chagall, da Federação Israelita do Rio Grande do Sul e Plataforma Brasil-Holanda. Abrigou também outras duas exposições: desenhos das crianças do campo de concentração de Terezin e fotografias sobre o tema: “um olhar sobre direitos humanos”.
(LEER/USP), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Sherit Hapleitá Brasil, Secretarias Municipais da Educação de São Paulo, do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, Instituto Shoah de Direitos Humanos e o Arqshoah/USP.
O objetivo principal é transmitir aos professores das escolas públicas e das judaicas a importância do ensino da Shoah por meio de diversas matérias, de História à Matemática. Além disso: 1) incentiva professores a orientarem seus alunos a participar do Concurso sobre Holocausto para a Rede Municipal de Ensino de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná; 2) propicia o contato dos docentes com sobreviventes do nazismo; 3) apresenta aos docentes materiais didáticos complementares, como CDs, apostilas e bibliografias, procurando minimizar as deficiências de formação e de material paradidático nas escolas, que nem sempre dispõem de condições para atualizar suas propostas pedagógicas. 78
Núcleo de estudos ARQSHOAH (NEA)
O Arquivo virtual sobre o Holocausto e Antissemitismo reúne pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento com o objetivo de reunir informações sobre a trajetória de vida dos sobreviventes e dos refugiados do nazi-fascismo radicados no Brasil. Surgiu em 2006, por ocasião da criação do LEER, com o objetivo de identificar, digitalizar e arquivar a documentação selecionada junto aos arquivos brasileiros e internacionais, avaliados como essenciais para a escrita da história e da memória da Shoah. Hoje é uma referência nacional e internacional; durante esses sete anos, o núcleo ajudou a organizar e a publicar vários livros, 79 que foram traduzidos para outras línguas. E ainda, vários projetos de pesquisa foram implementados com a coordenação da Professora Maria Luiza Carneiro, sendo os dois mais recentes:
Travessias: narrativas e representações dos sobreviventes do Holocausto e refugiados do nazismo. Brasil, 1933-2016. O projeto começou em 2014 e vai até 2016, registra os testemunhos dos sobreviventes do Holocausto e refugiados/exilados do nazismo no Brasil, a partir de 1933 aos dias atuais, com ênfase na produção de artistas e intelectuais. O objetivo é recuperar, utilizando os registros produzidos, os caminhos (físicos e emocionais) dos sobreviventes judeus e não judeus. A primeira fase do projeto Vozes do Holocausto apresenta entrevistas com alguns sobreviventes. Em
78 Os orientadores das Jornadas - Abraham Goldstein e Maria Luiza Tucci Carneiro - todos os anos reafirmam a missão de contribuir para a construção da memória do genocídio no Brasil.
79 Disponível em: <http://200.144.182.130/leer/index.php/publicacoes?start=30>. Acesso em: 9 jun. 2015. No
seguida, identificam-se e disponibilizam-se para consulta on-line as fontes/testemunhos que colaboraram para a construção histórica em detrimento da ideologia do esquecimento; transforma estes testemunhos em diferentes materiais pedagógicos a serem exibidos nos museus, escolas, centros culturais e livros didáticos; mapeia as obras de arte, literatura e livros de memórias, analisando as narrativas e formas de representação deixadas pelos artistas e intelectuais radicados no Brasil. De apátrida a cidadão brasileiro: trajetórias de vida dos judeus refugiados do
nazifascismo no Brasil (2011-2014). O projeto privilegia três grandes eixos de investigação que consiste em reconstituir:
o a vida dos apátridas em seu país de origem, visto que estes haviam sido expulsos pelo Estado totalitário nazista por serem judeus;
o as rotas de fuga que demarcaram a busca por um refúgio seguro, garantindo, ainda que por algum tempo, a vida do apátrida e seus familiares;
o a história de vida dos apátridas radicados no Brasil e, em especial, nas cidades brasileiras onde a comunidade judaica estava mais bem sedimentada (Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Recife e Belo Horizonte).
Laboratório de Estudos sobre a Intolerância (LEI)
A partir de 1990, foram introduzidos cursos específicos sobre racismo e antissemitismo junto ao Departamento de História e aos programas de pós-graduação em História Social, ambos da USP. O LEI da USP foi criado em novembro de 2002 pelo Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Presidido por Anita Novinsky, o projeto é pioneiro no incentivo à pesquisa sobre a intolerância; a doutrinação do ódio e a exclusão do outro (NOVINSKY, 2002). O LEI organizou um centro de documentação e uma biblioteca, especializados nos temas da intolerância étnica e política, direitos humanos, racismo e diversidade cultural. 80
Instituto Yad Vashem
Criado em 1953, em Israel, o Instituto rapidamente se tornou uma referência mundial. Dedicado a estudar e a produzir materiais sobre a perseguição e assassinato dos judeus pelo nazismo, o Yad Vashem teve um papel fundamental no sentido de institucionalização da
80 Atualmente, conta com uma biblioteca especializada com 10 mil títulos sobre o tema da intolerância religiosa, política e cultural e com um conjunto de aproximadamente cem mil documentos em microfilmes. Além disso, por iniciativa do Laboratório, será criado o Museu da Tolerância, o primeiro do gênero no Brasil.
memória desse evento e, entre outras coisas, consagrou determinadas visões e categorias, como o uso do termo inglês Holocaust que, a partir dos anos de 1960, passou a ser escrito com letra maiúscula, como estratégia de distinção desse evento perante os demais, não apenas na história do povo judeu como também na história mundial.