As quatro atividades analisadas instauram alguns discursos sobre a infância e sobre o processo de ensino-aprendizagem vivenciado pelas crianças. As marcas
constituídas pelo uso de fotografias, de textos produzidos pelas professoras, de desenhos e de textos produzidos pelas crianças, evidenciam, principalmente, que as professoras são “instrutoras” das atividades propostas.
As fotografias são produções subjetivas e não revelações objetivas do mundo, pois ao tentar compreendê-las foi preciso percorrer o caminho de seu processo de criação, os conceitos e sentidos que lhes deram origem. Por meio delas, as professoras procuraram mostrar as crianças em ação, usando para isso, na maioria das vezes, o recurso do plano médio, no qual existe um equilíbrio entre os elementos da cena e tanto sujeitos como ambiente são privilegiados. Em outros momentos, para mostrar maior destaque para uma situação ou para a criança foi utilizado o recurso do primeiro plano, mas sempre no contexto de relatar o que as crianças estão fazendo ou retratar um momento relevante.
Essa preocupação em retratar a ação demonstra que as fotos não são meramente ilustrativas, são usadas para expressar o cotidiano vivido por crianças e adultos no ambiente escolar, apresentando uma forte relação com a memória. Rever as fotos possibilita o desencadeamento do processo de rememoração e reconstituição da história vivida, pelas imagens e nas imagens.
Os argumentos usados pelas professoras, contudo, são pautados na narração e na descrição dos fatos, com o objetivo de esclarecer ao auditório social as circunstâncias das interações.
As atividades se colocam como trabalhos que o adulto propõe à criança, encaminhando a postura correta de sua execução, como fazer pinturas ou recortes, preencher a página, fazer colagens, enfim, é uma forma de os adultos reconhecerem a legitimidade do seu trabalho educacional. Contudo, muitas vezes, trata-se de uma prática excessivamente instrucional, na qual os sentidos dos adultos invadem a cena. Assim, as ações das professoras, ao conduzirem as ações das crianças, dão- lhes apoio, permitem que se reconheçam, mas limitam suas possibilidades.
Por essa razão, acredita-se que não são produzidas atividades que expressem o que não deu certo ou que as crianças não gostaram de realizar, uma vez que todo e qualquer enunciado é construído a partir do seu endereçamento, contendo autor e destinatário, além de um acento apreciativo, um valor, ou seja, existe por trás dessas escolhas uma preocupação com as famílias, com a instituição
e com a própria comunidade escolar, assim só são mostradas as experiências bem sucedidas, construindo uma imagem “adequada” do seu eu profissional.
A criança, por sua vez, é vista, nesta pesquisa, no discurso da orientadora- pesquisadora, como uma construção sociocultural que vem mudando de lugar social, passando de ser incompleto, apenas a ser protegido, para uma concepção de criança como protagonista do seu desenvolvimento, capaz de criar, perguntar, teorizar e produzir cultura. Entretanto, os discursos das professoras participantes do processo de construção dos portfólios revelaram que suas concepções de criança diferem da defendida por este estudo.
Como mencionado anteriormente, nas relações dialógicas, os discursos se entrelaçam, as vozes e as histórias se entrecruzam, construindo novos discursos, ou seja, o outro que se revela na linguagem não é um sujeito individual, mas um sujeito coletivo, marcado pelo contexto histórico-cultural no qual está inserido. Seu discurso é um compósito de vozes que revelam não apenas a experiência individual, mas a experiência de uma coletividade do modo como é percebida pelos indivíduos.
Dessa maneira, apesar das reuniões de discussão e reflexão sobre o trabalho desenvolvido com os portfólios, dos textos lidos sobre a criança como protagonista do processo de ensino-aprendizagem e das interferências da orientadora- pesquisadora, ainda existe um discurso docente pautado em uma concepção de criança incompleta, de vir a ser que se sobressai aos outros.
Isso confirma o que Moita45 defende, ao expor que o conhecimento dos processos de formação pertence, antes de tudo, àqueles que se formam. Partindo dessa premissa, o acesso ao conhecimento sobre os processos de formação dos profissionais da educação infantil requer o diálogo com esses profissionais, a busca dos sentidos que os mesmos produzem para suas experiências de formação inicial, continuada, em serviço. O trabalho de formação, embora não sendo o foco desta pesquisa, revelou-se insuficiente e ainda ineficiente frente a essas expectativas.
Nessa perspectiva, olhar para os enunciados das crianças nas suas interações é um caminho que descortina possibilidades, não só para conhecer a
45 Maria da Conceição Moita é formadora pelo Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua de Portugal e atua na Associação de Profissionais de Educação de Infância (APEI) uma associação nacional criada desde 1981 por profissionais e por pessoas motivadas e interessadas em conhecer a educação infantil (0 a 6 anos de idade).
criança como também para refletir sobre a importância do papel mediador das interações, seja dos adultos com as crianças, seja das crianças entre si.
Os portfólios, nesse contexto, surgem como uma forma de documentação pedagógica que cria oportunidades para as interações sociais, pois, pela linguagem, influenciada pelas interações com seus parceiros (adultos e crianças ou crianças e crianças), a criança pode compreender os códigos sociais, inserir-se na cultura e também produzir significados, determinando suas próprias ações. Os professores, por sua vez, também poderão criar novos sentidos sobre suas práticas, organizando seus conhecimentos a partir das questões que se levantem.
Não é, entretanto, com o uso dos portfólios como meros instrumentos que se conseguirá uma modificação do olhar do professor em direção às crianças e ao processo de desenvolvimento e aprendizagem, mas a renovação do olhar do professor sobre esse processo, a partir do uso dos portfólios de forma coerente com as práticas pedagógicas e as concepções de criança que eles podem vincular.