De nossa pesquisa participaram 31 alunos, dos quais 15 são meninos e 16
meninas, na faixa etária de 10 a 17 anos, predominando a idade de 12 anos, da turma 6ª
série “A” do ensino fundamental da “Escola Municipal Sindicalista Antônio Inácio”.
A escola ocupa uma área construída aproximada de 500 m2 e 800 m2 de terreno, funcionando com 29 funcionários e 368 alunos, estes últimos oriundos das áreas rurais próximas à comunidade. Conforme informações da Gerência Executiva da Educação e do Desporto, no ano 2004 foram matriculados na escola, nos turnos matutino e vespertino, 26 alunos na Educação Infantil (alfabetização), 143 nos ciclos iniciais (1º e 2º) e 199 nos últimos ciclos. O turno noturno passou a funcionar, a partir do segundo semestre de 2004, com turmas de jovens e adultos pertencentes ao Programa Brasil Alfabetizado, oportunizando a todos a chance de ler e escrever, e recuperar o tempo sem a vivência de estudos.
A nossa intervenção na escola contou com um número inicial de 27 alunos. Com o passar do ano escolar, chegaram três alunos transferidos de escolas de Mossoró e do estado do Ceará, fato comum na escola, por causa do trabalho de seus pais, que vêm com a família para trabalhar nos plantios de melão nas fazendas da localidade.
Figura 04: Apresentação do grupo pesquisado: 6ª série A. Fev. 2004.
Do grupo, nem todos os alunos eram moradores da comunidade: os que não
residiam na Barrinha vinham diariamente para a escola de transporte escolar,
garantido pelo governo municipal - dois ônibus alugados. Esses ônibus saem pegando os
alunos de comunidade em comunidade. Como as aulas iniciam às 13:00 horas, muitos
deles vinham sem almoçar, porque o ônibus passa muito cedo, em algumas
comunidades, ou porque aqueles que trabalhavam em projetos agrícolas saíam do
serviço em horário muito próximo ao da chegada do ônibus e ficavam impossibilitados
de fazer a refeição do meio dia. Essas crianças e adolescentes eram deslocados das
seguintes comunidades atendidas pela escola: Riacho Grande, Riachinho, Rancho da
Caça, Serra Mossoró e os assentamentos rurais (Lagoa de Xavier, Fazenda Nova e
Vertente).
Os alunos citados abaixo eram da turma da 6ª série A, escolhida para a intervenção, moradores das seguintes comunidades rurais: Tabela 01: Lista de alunos
Anderson Mossoró-RN 16/06/92 Barrinha
Gilvan Mossoró-RN 27/1192 Barrinha
Hiltanaca Mossoró-RN 21/11/91 Barrinha
Izaquiel Umarizal-RN 16/10/91 Barrinha
Luân Mossoró-RN 06/07/91 Barrinha
Pedro Augusto Uruburetama-CE 29/06/91 Barrinha
Samuel Mossoró-RN 19/02/93 Barrinha
Tiago Mossoró-RN 07/07/90 Barrinha
Danielly Mossoró-RN 04/04/93 Barrinha
Elana Mossoró-RN 02/04/91 Barrinha
Èrika Mossoró-RN 14/09/91 Barrinha
Fernanda Mossoró-RN 18/02/92 Barrinha
Gilmara Cat. da Rocha-PB 17/01/88 Barrinha
Keliane Mossoró-RN 13/08/91 Barrinha
Naiara Mossoró-RN 03/07/91 Barrinha
Towanne Mossoró-RN 19/05/93 Barrinha
Camila Mossoró-RN 24/12/92 Riachinho
Ivonilson Mossoró-RN 18/12/92 Riachinho
Marta Mossoró-RN 05/02/91 Riachinho
Ivanildo Mossoró-RN 02/04/91 Riachinho
Rodrigo Mossoró-RN 02/04/91 Riachinho
Williana Apodi-RN 18/07/90 Riachinho
Mayson Mossoró-RN 08/04/90 Assent. Faz. Nova
Rodrigues Mossoró-RN 21/12/86 Assent. Faz. Nova
Daiana Mossoró-RN 26/08/91 Serra Mossoró
Tuanna Mossoró-RN 16/01/91 Serra Mossoró
Cristiano Belém-PA 10/06/91 Assent. Poço I
Paulo Henrique Mossoró-RN 02/08/91 Assent. Esperança
Em entrevista feita com esses alunos ou em conversas corriqueiras, constatamos que, para seus pais, cultivar a terra era uma atividade desejável e prazerosa. Às vezes, eles tinham outra ocupação, paralela à agricultura, o que prova o amor que tinham ao plantio da terra, embora sendo pequenos trabalhadores rurais, sem recursos próprios e sem terras para uma prática adequada. Desses pais, a maioria também plantava para comer e, no período chuvoso, fazia seus pequenos roçados, com feijão ou milho, em terrenos próprios (a minoria) ou de terceiros, ajudados pelos seus filhos e netos (agricultura de subsistência).
Dessa maneira, os alunos, desde crianças, no seu convívio diário, aprendiam com seus avós, pais, familiares, tios, irmãos, ou primos o cuidado com a terra, o manejo, o arar, a colheita e a sabedoria popular, os segredos da terra sendo passados de pai para filho, do mais velho ao mais novo. Vale salientar que esse saber o aluno traz consigo quando chega à escola, como afirma o educador D’Ambrosio (2002, p. 22):
Conhecimentos e comportamentos são compartilhados e compatibilizados, possibilitando a continuidade dessas sociedades. Esses conhecimentos e
comportamentos são registrados, oral ou graficamente, e difundidos e passados de geração para geração. Nasce, assim, a história de grupos, de famílias, de tribos, de comunidades, de nações.
Foi com esse ideal da etnomatemática defendido por D’Ambrosio que demos destaque, no decorrer de todo o projeto de educação matemática, ao processo investigativo na comunidade da Barrinha.
O fato de as chuvas serem irregulares na região, concentradas em apenas dois a
sustentar sua família em atividades diferenciadas de sua ocupação nata e a passarem a
trabalhar em granjas, fábricas de laticínio locais e outras atividades, como apicultura ou
pequenos comércios (bares e bodegas) existentes na comunidade ou, ainda, buscar
empregos em Mossoró e Baraúna, como vigia, gari ou moto-taxista.
Atualmente, uma grande parcela de pais de alunos, devido ao desenvolvimento extenso no comércio agrícola na exportação de frutas tropicais da região, tem conseguido emprego nas grandes fazendas-empresa ou em projetos de pequeno e médio porte, no período do plantio ou da safra das frutas, especialmente melão.
Alguns dos pais dos alunos pesquisados trabalhavam por contrato, com salário mensal e carteira assinada, e outros sem nenhum vínculo empregatício, só por diária. É comum, no período da safra, alunos faltarem à escola para ganhar uns trocados e ajudar na renda mensal de sua casa. O processo funciona da seguinte maneira: os donos de projetos agrícolas passam na comunidade, de caminhonete ou caminhão, e chamam os moradores para trabalharem naquele dia, pagando-lhes no final do dia ou da semana, muitas vezes, quantias irrisórias.
Esse fato muito interferia no processo de ensino-aprendizagem, pois alguns retornavam após dias ou semanas de trabalho, desestimulados por perderem atividades programadas e, conseqüentemente, às vezes, eram reprovados, enquanto outros se evadiam.
Um dado relevante observado na comunidade é a falta de perspectiva da maioria dos alunos da escola para prosseguir seus estudos depois da conclusão do ensino fundamental. Como para continuar seus estudos precisam ir até a cidade de Mossoró para cursar o ensino médio, muitos se contentam apenas em encerrar seus estudos com a 8ª série.
Outros abandonam seus estudos logo cedo, em conseqüência da situação financeira, porque precisam trabalhar - caso dos rapazes -, ou por gravidez na adolescência - fato comum nas séries de 5ª a 8ª, entre as alunas da escola. Estes são dois sérios problemas na comunidade
escolar que levam à repetência e à evasão, pois, quando a aluna engravida, ausenta-se das aulas porque está grávida e o aluno – pai - porque vai trabalhar. Como a cultura do casamento é pouco vivenciada no meio familiar, logo vão viver juntos, maritalmente, sem nenhum registro legal ou religioso, com o consentimento dos próprios pais, tornando-se - como os moradores da comunidade e alunos dizem popularmente – “amigados”.
Os alunos que enfrentam as adversidades e têm coragem de prosseguir seus estudos no ensino médio passam por muitas dificuldades, pois precisam sair cedo e apanhar o ônibus escolar que vem das demais localidades rurais. Vez por outra a prefeitura falha com o pagamento e o ônibus deixa de ir, fazendo-os perderem aulas. Logo, só vai à escola após a 8ª série quem tem recursos para pagar, diariamente, de quatro a cinco reais, nos carros alternativos ou ônibus que fazem a linha Baraúna-Mossoró.
Há também aqueles que enfrentam esses problemas com perseverança e vão à escola enfrentando os perigos da rodovia, com trânsito intensivo, sob sol e chuva, de bicicleta, pedalando sozinhos ou em grupos de dois a três, e assim concluem seus estudos do ensino médio. Mas é lamentável salientar que esses alunos não se dispõem a fazer curso superior. Na comunidade da Barrinha não existe nenhum universitário e, com relação às outras comunidades citadas, existe apenas uma universitária na comunidade do Riachinho, cursando Geografia na UERN.
Tal realidade leva a refletir sobre a questão da desigualdade social e a falta de
oportunidade que impossibilitam aos vários alunos uma vida decente. Contudo, o
educador, tem o poder de mudar esse quadro, intervindo nessa situação com o intuito de
revertê-la, o que é possível por meio da pedagogia de projetos e a etnomatemática, de
maneira interdisciplinar com a colaboração da comunidade escolar, na busca da
Os alunos da Escola Antônio Inácio eram crianças e adolescentes alegres,
participativos – quando instigados –, curiosos para descobrir o novo, peraltas, enfim
com características próprias de todo adolescente. Eram capazes de ser construtores de
seus próprios conhecimentos no seu ambiente escolar, cabendo apenas a cada professor
e gestor da escola adquirir a postura política e acreditar que [...] “somente quando nos
capacitamos da necessidade de modos de ensinar mais fundamentais e eficazes é que
podemos ficar certos de dar ao ensino escolar seu verdadeiro lugar” (DEWEY, 1979,
p.4).