CHAPTER 1. INTRODUCTION
1.3. T UNING THE A NION – I NTERACTIONS
1.3.1. P HYSICAL N ATURE OF THE A NION – I NTERACTION
A estreita ligação institucional do Pavilhão com o Hospício de Alienados e com a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro contribuiu para que se estabelecessem intercâmbios entre esse grupo, não somente na espera profissional, científica e política, mas também colaborou para a criação de vínculos de amizade e algumas desavenças.
Henrique Roxo definiu como postura política, evitar trazer à público os seus atritos e desafetos profissionais. Constatamos nas fontes levantadas que poucas vezes manifestou insatisfação com os seus pares. Em relação a Faculdade de Medicina, as fontes evidenciam um bom relacionamento, o que não poderia ser diferente, visto esta instituição ser o seu esteio político e profissional. Uma exceção foi a matéria publicada pela revista Vida Doméstica, de 1925, na qual o catedrático declarou que não simpatizava com o professor Domingos de Góes e Vasconcellos (1856-1921), mas confessava haver mudado seus sentimentos em relação ao colega, após o elogio fúnebre que este lhe fez em 1911362.
O periódico Vida Doméstica realizou muitas matérias exaltando as qualidades científicas e pessoais de Roxo e sobre a importância social do Pavilhão de Observação/Instituto de Psiquiatria. O fundador da Revista, Jesus Gonçalves Fidalgo363, foi enfermeiro no Hospício
de Alienados, na época de Teixeira Brandão. Ali conheceu e travou amizade com Roxo. Posteriormente, Fidalgo foi promovido a enfermeiro chefe no Pavilhão. Recebeu apoio e incentivo desses psiquiatras para estudar e obter a colocação desejada na imprensa. Em forma de agradecimento, dedicou inúmeras páginas de sua revista a Roxo, divulgando, na sociedade carioca, as atividades realizadas pelo psiquiatra e por sua equipe na instituição. Contribuiu, assim, para a popularização da psiquiatria entre o público leigo e favoreceu a legitimação desse campo médico no Rio de Janeiro. Fidalgo também homenageou seu amigo por meio da
362 Em 1911, Roxo esteve à beira da morte. Na ocasião espalhou-se na Faculdade de Medicina o boato de sua morte. O professor Domingos de Góes, de quem Roxo não gostava, lhe fez um longo elogio fúnebre, concluído com lágrimas. A partir de então, o lente mudou sua postura em relação a esse professor, passando a lhe querer bem. Esse episódio foi revelado em duas ocasiões, pela mesma revista. Vida Doméstica, jul.1925; Vida Doméstica, ago. 1946.
publicação do livro Henrique Roxo e a medicina mental do Brasil. Apesar de seu conteúdo expressamente tendencioso, essa fonte nos revelou momentos e imagens significativas do cotidiano de nosso personagem que não foram localizados em outros documentos.
No que tange a outras querelas existentes entre a equipe do Pavilhão e a do Hospício, vale chamar atenção à relação que aconteceu, no limiar do século XX, no início da carreira de Roxo, quando este iniciou uma amizade com Jefferson Sensburg de Lemos364, que inclusive foi
seu padrinho de casamento, em 1902365.
Com o passar dos anos, durante o processo de transferência do Pavilhão para a Universidade do Brasil, mais precisamente em 12 de agosto de 1938, o jornalista Wladimir Bernardes, da Gazeta de Notícias, publicou uma matéria denunciando a formação de um “complot”, devido à insatisfação de alguns psiquiatras do Hospício de Alienados, dentre eles Jefferson de Lemos, que ocupava os cargos de Diretor Interino da Assistência aos Psicopatas e Diretor do Hospital de Alienados366, contra esta medida do governo367. Embora Lemos tenha
feito uma réplica no mesmo jornal, informando que Bernardes estava exagerando, e o que de fato ocorreu foi apenas a posição de alguns psiquiatras que apresentaram “pontos de vista divergentes, quanto à interpretação dos termos do decreto368” do Governo, referindo-se ao
Decreto-Lei nº 591, de 1938. O jornalista defendeu sua posição e ampliou sua crítica contra Lemos, definindo-o como fraco e positivista. O Diretor da Assistência viria a ser demitido do cargo alguns dias depois, sendo substituído por Adauto Botelho.
Para Bernardes, os psiquiatras do casarão da Praia Vermelha eram como
Uma capelinha burocrático científica, onde pontifica a família psiquiátrica, espécie de balaio de caranguejos sempre em constante mobilidade de apertos e desapertos, uns por cima dos outros, a procura de melhor colocação nos exíguos limites dos quadros dos funcionários [...] formando na casa dos loucos um ambiente vesânico, alucinante com vertigens de mando e desmandos no seu próprio corpo clínico.369
Nesse contexto percebemos que o jornalista considerava o grupo de médicos do Hospício como componentes de uma rede de intrigas, onde cada um buscava uma posição de destaque no espaço, tornando-o desordenado, desregrado, sem uma liderança carismática e
364 Foi médico psiquiatra do Hospício de Alienados e Diretor da Assistência aos Alienados. Era adepto do positivismo. 365 Gazeta de Notícias, 08/11/ 1902. 366Correio da Manhã, 20/06/1937. 367 Gazeta de notícias, 12/08/1938. 368Gazeta de notícias, 16/08/1938. 369Gazeta de notícias, 18/08/1938.
ativa, o que impedia a prática de métodos de trabalho científico eficazes para o tratamento dos insanos.
As fontes revelam poucos dados sobre a amizade entre Roxo e Jefferson de Lemos. Em 1925, o catedrático discursou em uma homenagem prestada à Lemos, na Farmácia São João Batista, onde este foi presenteado com um automóvel370. O que percebemos, ao avaliar as
matérias de Bernardes, foi que interesses mais amplos, como o fato do catedrático ter se sobressaído nas negociações para a separação do Pavilhão da Assistência, podem ter estremecido a estreita relação entre esses dois psiquiatras, amigos de longa data.
É interessante notar que, a partir de 1921 os vínculos profissionais entre Roxo e Moreira foram sociáveis. Demonstrando assim, que o Pavilhão expressava uma política de boas relações com a Assistência, apesar das rivalidades veladas. As desavenças entre a equipe do Pavilhão e a do Hospício, relevadas no Relatório Ministerial de 1902/1903, devido as correntes teóricas a qual cada instituição tinha se vinculado, eram coisas do passado: naquele momento Roxo buscou evidenciar, pelo menos em público e no seu discurso, a amizade com Moreira.371
A grande maioria dos docentes da equipe de Roxo, também era subordinada à Juliano Moreira e trabalhava ou havia trabalhado no hospício, fato esse que reforçava e contribuía para a ideia de cordialidade, respeito e coleguismo entre os integrantes dessas instituições, favorecendo a institucionalização da psiquiatria como ciência médica.
Um episódio interessante, que reforça a amistosidade entre os principais atores da Praia Vermelha, ocorreu em 1929, ocasião na qual seria oferecido um banquete a Juliano Moreira, por seu retorno de uma longa viagem de estudos ao exterior. Entretanto, Juliano sugeriu que os valores que seriam gastos neste evento fossem revertidos em “algo de maior utilidade pública”. Sugeriu que a soma fosse convertida num prêmio que seria denominado de “Sociedade Brasileira de Neurologia e Psiquiatria”, sendo outorgado ao aluno da Faculdade de Medicina que apresentasse o melhor trabalho de doutoramento em psiquiatria ou neurologia.
Em resposta à proposta de Moreira, o professor Fernando Magalhães, diretor da FMRJ entre 1930-1931, aceitou a recomendação, mas sugeriu que o prêmio se denominasse “Juliano Moreira” e fosse entregue anualmente à melhor tese de doutoramento de clínica psiquiátrica372.
370 Jornal das Moças, 1925.
371 Andrade, em seu artigo homenageando Roxo, nos relata o quanto o catedrático prezava suas amizades, informando que “De uma feita, sondado pela Presidência da República para substituir Juliano Moreira, declarou ser Juliano insubstituível e assim continuou Juliano Moreira por mais alguns anos à frente da Assistência aos Psicopatas de então. “ANDRADE, Oswald Moraes. Henrique Roxo e a Clínica Psiquiátrica. Boletim da Academia Nacional de Medicina, Rio de Janeiro, v.140, 1967-1969, p.130.
Nesta questão específica, Roxo e sua clínica foram bem-sucedidos, em relação ao catedrático de neurologia.373
Vale mencionar que a cátedra de neurologia foi criada em 1912, contra a vontade de Teixeira Brandão e Henrique Roxo, com a separação desta especialidade médica da psiquiatria (até então a cátedra de Brandão era denominada de Clínica Psiquiátrica e de Moléstias Nervosas),374. Antônio Austregésilo foi seu primeiro ocupante. Segundo Muñoz, existia uma competição entre Roxo e Autregésilo375, uma vez que Roxo foi derrotado em seu posicionamento contra a divisão de sua especialidade e por, a partir de então, ambos ocuparem postos equivalentes na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Perante o público, a rivalidade entre os dois catedráticos também era dissimulada, visto que um sempre prestigiava o evento promovido pelo outro. Na ocasião em que o prédio da Administração do Pavilhão passou a ser denominado de Henrique Roxo, foi Austregésilo que descerrou a placa376; na fotografia em
comemoração pela palestra ministrada pelo professor George Guillain (1876-1961) na clínica neurológica, os dois catedráticos ladeiam o visitante377.
Nesse cenário de vínculos afetivos, Eurico Sampaio, livre docente do Pavilhão e médico do Hospício, foi alvo de uma homenagem pelos funcionários do Hospício de Alienados, que o presentearam com um retrato. A celebração ocorreu na residência do médico, na qual este agradeceu a demonstração de amizade dizendo que na Assistência ele era apenas “um reflexo da obra de Henrique Roxo e Juliano Moreira.378” Após a inauguração, foram servidas taças de
champagne, finos bolos e doces aos auxiliares e companheiros de trabalho de Sampaio, pois era assim que este considerava a todos. O posicionamento de Sampaio demonstra que buscava desempenhar com harmonia as orientações das suas chefias institucionais, sendo estas responsáveis pela sua atuação e modo de agir no espaço profissional.
Durante o período em que Juliano Moreira esteve à frente da Assistência aos Psicopatas, percebemos um intercambio diplomático e polido entre o ensino e a assistência. No entanto, após a aposentadoria deste diretor, em dezembro de 1930, poucas informações foram apuradas
373O interno de Clínica Psiquiátrica, Manoel Duarte Moreira Neto, foi agraciado com o prêmio Juliano Moreira em 1930. Sua tese intitulada Contribuição ao estudo da insufficiência hepática nas doenças mentais, foi defendida na cadeira de Clínica Psiquiátrica, tendo como campo de pesquisa o Pavilhão de Observação. Seu orientador foi Adauto Botelho.
374MUÑOZ, Pedro Felipe Neves de. À Luz do Biológico: psiquiatria, neurologia e eugenia nas relações Brasil- Alemanha (1900-1942). 2015. Tese (Doutorado em História das Ciências e da Saúde) – Casa Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro. p.101.
375Ibidem, p.303-304.
376Jornal do Brasil, 12/01/1927. 377Vida Doméstica, set. 1932. 378A Manhã, 11/08/1929.
relativas ao posicionamento social e científico entre a direção e os profissionais do Pavilhão e do Hospício.
No que se refere à direção da Assistência aos Psicopatas, Waldemiro Pires, assistente do Pavilhão na década de 1920, substituiu Moreira nessa função, sendo nomeado em dezembro de 1930379. Dois anos depois, Pires solicitou exoneração do cargo, sendo substituído
interinamente por Jefferson de Lemos380. Alguns dias depois, Gustavo Riedel foi empossado
como Diretor da Assistência381.
Riedel foi livre docente da clínica psiquiátrica e médico da Assistência382. Foi diretor
da Colônia de Engenho de Dentro, remodelando e implementando melhorias e modernas terapêuticas a esse hospital. As qualidades científicas e administrativas desse psiquiatra, indicavam que o governo apostou em seus méritos para alavancar o já decadente Hospício de Alienados, assim como a possibilidade de modernizar a Assistência. Entretanto a saúde deste médico fez com que ele se afastasse de suas atividades em meados de 1933, menos de um ano após a sua posse. Riedel, percebendo que o seu estado de saúde não mais permitiria o seu retorno, solicitou aposentadoria, no qual foi atendido em fevereiro de 1934383. Veio a falecer
em maio daquele ano384.
Jefferson de Lemos voltou a assumir interinamente a direção da Assistência, permanecendo nessa condição até agosto de 1938, quando foi afastado do cargo devido à crise gerada na instituição com a transferência do Pavilhão de Observação, com toda a sua estrutura física, para a Universidade do Brasil. A partir de então, Adauto Botelho assumiu a direção do Serviço de Assistência a Psicopatas385. Em 1941, o Governo Federal extinguiu a Divisão de
Assistência a Psicopatas e o Serviço de Assistência a Psicopatas do Distrito Federal, passando as suas atribuições e atividades a ser exercidas pelo Serviço Nacional de doenças Mentais386,
sendo Botelho nomeado o seu primeiro diretor.
Entre 1940 e 1941, Jefferson de Lemos passou a dirigir o já decadente Hospício de Alienados em caráter interino. Em agosto de 1941, Edgard Guimarães de Almeida, livre docente da clínica psiquiátrica e presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia, foi
379A Noite, 09/12/1930.
380Correio da Manhã, 06/10/1932. 381Diário de Notícias, 14/10/1932.
382 PICCININI, Walmor J. História da Psiquiatria: Gustavo Kohler Riedel (1887-1934). Psychiatry on line Brasil, v.22, mar., 2017.
383Correio da Manhã, 27/02/1934. 384Correio da Manhã, 17/05/1934. 385 O Jornal do Brasil, 30/08/ 1938.
empossado na direção desse estabelecimento387. Em 1945, com o fechamento do Hospício,
Guimarães de Almeida foi nomeado diretor do Centro Psiquiátrico Nacional388.
Figura 9 - Hospício de Alienados após a sua desativação (1945)
Fonte: CALMON, Pedro. O Palácio da Praia Vermelha:1852-1952.
Todas essas mudanças e reviravoltas políticas, após a saída de Moreira da Assistência, demonstram grande instabilidade até a nomeação de Botelho, quando questões econômicas, políticas e sociais tiveram maior impacto nas decisões governamentais referentes a posição do velho hospício e aos novos rumos da psiquiatria brasileira.
No cenário de decadência da Praia Vermelha, principalmente após a aposentadoria e morte de Juliano, o IPUB se consolidou como o grande detentor, produtor e disseminador do saber psiquiátrico daquele espaço. Consequentemente, Henrique Roxo, tornou-se o vencedor das disputas que ocorreram no espaço institucional, por não mais existir, naquele local, quem pudesse concorrer com seus propósitos.