A Revista do IHGSP começou a ser publicada em 1895, um ano após a fundação do IHGSP e até o ano de 2004 já havia publicado 96 volumes.17
Compunha o primeiro número da Revista IHGSP dois fascículos, publicados respectivamente em 1895 e 1896.
Nesse primeiro fascículo de 1895, a Revista do IHGSP já anunciava a que vinha na seção “Ao Leitor”, e à parte da primeira frase que abre a sessão - A história de S. Paulo é a própria história do Brasil - cujo significado emblemático que não deixava dúvidas sobre os objetivos apologéticos da Instituição, afirmava-se:
A história de S. Paulo é a própria história do Brasil. A necessidade de uma associação que promovesse os meios de estudar tantos documentos com os quais se pode vir a conhecer a origem dos mais importantes feitos dos nossos antepassados, ou esclarecer noções errôneas sobre fatos que merecem ser devidamente conhecidos, era uma destas lacunas que se afigurava difícil de ser preenchida. Felizmente a nossa iniciativa foi coroada do melhor êxito e estamos atualmente gozando do mais útil convívio dos nossos homens de letras, que concorrem com suas luzes para assegurar ao Instituto Histórico a mais brilhante carreira. (RHISP, 1895, p.2. Grifos nossos)
Em continuidade, os propósitos do IHGSP e da Revista eram proclamados da
16 Todas as citações desse capítulo retiradas das revistas do IHGB e do IHGSP foram atualizadas de acordo com a ortografia atual.
seguinte maneira:
A Revista do Instituto é já uma prova de que o trabalho fortifica-se no estudo da história, que tem valor inestimável, e muito pode servir para que os moços aprendam a conhecê-la bem assim para que outros estudiosos companheiros possam no futuro continuar a obra, que é bem pequena, em relação à importância do assunto. Todavia o molde fica traçado, restando a outros modifica-lo e aperfeiçoa-lo até que a nossa história seja a fiel intérprete dos acontecimentos, e o ensinamento útil dos patriotas. (RHISP, 1895, p.2)
Na visão de Ferreira e Mahl (2011, p.4)
[...] os sócios do Instituto localizam o conhecimento histórico em uma posição privilegiada perante os demais saberes. Por conseguinte, exerciam suas atividades como historiadores em consonância com as concepções teóricas preponderantes no século XIX, que entendiam o passado como um amplo espaço de homens e ações adormecidos pela distância temporal e pelo esquecimento. Caberia aos ilustrados de então fazer emergir dessa penumbra os atos de heroísmo e coragem de alguns sujeitos especialmente escolhidos, assim como os fatos dignos de lembrança e exaltação.
Em vista disso, também é válido lembrar que a Comissão de Redação da Revista havia sido constituída na 5ª.sessão do IHGSP, composta por Antonio de Toledo Pizza, Domingos José Nogueira Jaguaribe e Manoel Ferreira Garcia Redondo e embora o texto “Ao leitor”, que abre o primeiro número da Revista do IHGSP não tenha uma assinatura especial, reforça o seu caráter de manifesto “na medida em que revela os planos coletivos que esses sócios, a priori, julgavam comungar” (FERREIRA; MAHL, 2011, p.4). Para esses autores,
Quanto aos fatos e temas sujeitos à operação histórica, sugere a busca incansável pela “origem dos mais importantes feitos dos nossos antepassados, ou esclarecer noções erradas sobre factos que merecerem ser devidamente conhecidos”. E é exatamente nesse anseio de revelar o passado – expressão eloquente de um projeto que é, ao mesmo tempo, cultural e político –, isto é, aquele que poderia contribuir para uma visão panegírica da propalada civilização
paulista, que suas concepções de patrimônio se evidenciam.
(FERREIRA; MAHL, 2011, p.4).
Em seguida, o texto de abertura do primeiro fascículo da Revista do IHGSP, esclarecia aos leitores qual seria o conteúdo da Revista, ao mesmo tempo em que exaltava os propósitos do Instituto na busca por interpretar e dar a conhecer o passado
histórico da civilização paulista:
O Instituto Histórico, iniciando a publicação da primeira parte da “Revista” com alguns trabalhos aprovados em assembleia geral, a fim de serem publicados, continuará a publicação de outros que já foram lidos. É tão interessante o assunto destas publicações, que será certa a procura da “Revista” para leitura daqueles que desejam conhecer o modo sério e consciencioso pelo qual o Instituto vai se desempenhando dos seus patrióticos intuitos. Aos leitores compete julgar se nos desempenhamos dignamente do encargo. (RHISP, 1895, p.2)
O primeiro fascículo de 1895 trazia dois artigos: “A denominação da Serra da Mantiqueira”, escrito por Orville Derby e “Origens republicanas do Brasil”, por Domingos Jaguaribe. Tais artigos, para serem publicados, eram submetidos à aprovação nas sessões do IHGSP, como pode ser comprovado nesse extrato da Ata da 10ª. Sessão ocorrida em 5 de agosto de 1985:
O sr. dr. Domingos Jaguaribe propõe que seja o seu trabalho - Origens
republicanas do Brasil submetido à deliberação na presente sessão para o fim de poder ser publicado na Revista, caso seja aprovado visto como até hoje não foi apresentado o parecer da Comissão a qual foi remetido. É aprovado que o dito trabalho do sr. dr. Jaguaribe seja publicado na Revista do Instituto. O sr. dr. Theodoro Sampaio procede a leitura de um seu trabalho histórico sobre a fundação da primeira colônia regular dos portugueses em São Vicente, finda a qual foi aplaudido e felicitado. O sr. Presidente consulta a casa se o bem elaborado trabalho que acaba de ser lido deve ou não ser publicado na
Revista; a Assembleia, sem debate e por votação unânime, responde afirmativamente. (RHISP, 1895, p.182)
Além disso, também integrava esse volume da RIHGSP um discurso do dr. João Monteiro, lido na sessão do dia 10 de julho de 1895, em homenagem à Independência dos Estados Unidos, bem como as Atas das Sessões do IHGSP, da primeira até a décima terceira.
Aliás, na Ata da 1ª. sessão ocorrida em 1º.de abril de 1895, os sócios já começavam a delinear o que seria interessante publicar na Revista do IHGSP, haja vista o registro de que
O sr. Duarte Azevedo lembra que seria conveniente dirigir-se uma circular às Câmaras Municipais do Estado solicitando a remessa ao Instituto de documentos que existam em seus arquivos que se refiram a pontos da nossa história ou que tenham importância ou interesse
geral, porque assim obter-se-iam elementos para o estudo das teses a desenvolver para a organização dos trabalhos, tornando-se também uma fonte de material para a “Revista” publicar. (RHIGSP, 1985, p.168)
E na 13ª. Sessão do IHGSP, de 20 de setembro de 1895, na ordem do dia o sócio dr. Antonio de Toledo Piza pedia a palavra para fazer uma exposição e leitura dos trabalhos apresentados ao Instituto, a saber: Biografia do Padre Jesuíno do Monte Carmelo, pelo sócio Antonio Augusto da Fonseca e Oração fúnebre, pronunciada pelo Padre Diogo Feijó, em Itu, aos 2 de junho de 1821. O plenário deliberou que tais trabalhos fossem publicados na Revista. (RIHGSP, 1895, p.186).
O segundo fascículo do primeiro número, publicado em 1896, trazia os seguintes artigos: Os selvagens de São Paulo, assinado por C.R.18
Na visão de Ferreira e Mahl (2011, p. 8-9) os artigos publicados na Revista do IHGSP são marcados “pelo beletrismo próprio da intelectualidade do período”, e os autores expressam em seus textos “uma mistura singular de erudição e rebuscamento estilístico, à luz do que entendiam por ciência, transitando entre diferentes gêneros narrativos e temáticos”.
; Tipos ituanos: Padre Jesuíno do Monte Carmelo, por Antonio Augusto da Fonseca; Oração fúnebre, pronunciada pelo Padre Diogo Feijó, em Itu, aos 2 de junho de 1821 e republicada nesse fascículo, com a explicação de que este discurso havia sido publicado há muitos anos em um folheto cuja edição se encontrava esgotada e a tiragem havia sido “pequena e distribuída entre amigos do finado” . Além desses, ainda foi publicado o trabalho Estudo crítico: a posse do Brasil meridional. Fundação da primeira colônia regular dos portugueses em São Vicente, pelo sócio dr. Theodoro Sampaio.
Nesse segundo fascículo a RIHGSP também trazia os Relatórios dos trabalhos e ocorrências do IHGSP apresentados na sessão de encerramento de 25 de outubro de 1895 e respectivos anexos, bem como as Atas das Sessões do IHGSP.
De acordo com Ferreira e Mahl (2011, p. 9)
O período de maior prestígio da revista se estendeu entre a sua fundação e a década de 1930, quando o início das atividades da Universidade de São Paulo marcou um novo momento da vida intelectual paulista e, por que não dizer, nacional. Entretanto, alguns membros do Instituto Histórico de São Paulo também foram
18 Esse artigo era assinado apenas pelas iniciais, o que faz supor que o autor pudesse ser um dos seguintes sócios: Carlos Reis ou Carlos Rath.
incorporados à nova universidade, como Alfredo Ellis Jr., professor de História de Civilização Brasileira; Roberto Simonsen, que teve participação direta na fundação da Escola de Sociologia e Política; e Fernando de Azevedo, docente na Faculdade de Filosofia. Todos exerceram funções docentes na Universidade de São Paulo, tendo passado também pela agremiação paulista.
Saltando para o final do século XX e início do século XXI, vejamos também qual era a autoimagem da Revista do IHGSP, e para isso o texto “Apresentação” no volume 95, publicado em 1999, e de autoria do Presidente da Instituição no triênio 1999-2002, Roberto Machado de Carvalho, é emblemático:
A Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo é a mais antiga, no gênero, editada no Estado de São Paulo. Foi nos idos de 1895 -105 anos decorridos - pouco depois da fundação do sodalício, que a Revista teve seu lançamento. Já no primeiro volume, dividido em dois fascículos, ela contou com um seleto grupo de colaboradores e trabalhos de reconhecido valor científico. Nomes como Teodoro Sampaio, Orville Derby e João Monteiro assinaram artigos, pesquisas de campo e de gabinete. Em números subsequentes, outros destacados estudiosos da História. Geografia e ciências correlatas mantiveram o alto prestígio da Revista nos meios culturais. Outros nomes como Antônio de Toledo Piza, Afonso de Feitas. Afonso de Taunay, este por um largo período, Oliveira Lima, Eugênio Egas, deram brilho a Revista. Muitos volumes de nossa Revista transformaram-se em fontes documentais para novos estudiosos - pesquisadores do pretérito e do espaço natural e humano, em especial do Estado de São Paulo. Claro que tivemos momentos de dificuldades, breves interregnos da publicação - o Estatuto pede, ao menos, um volume anual - mas não demora e ela ressurge, revigorada e triunfante. Hoje, os 94 volumes publicados representam significativo acervo de conhecimentos a disposição dos interessados, estudos e documentos. As Atas das sessões e os Relatórios anuais trazem preciosas informações sobre as atividades do Instituto e episódios marcantes da história republicana de São Paulo. (CARVALHO, 1999, p.4)
Fazendo “coro” a essa visão, no mesmo número e volume, e assinada da Comissão de Redação da RIHGSP, composta por Alexandre Hecker, Amélia Franzolin Trevisan, Dóli de Castro Ferreira, Hernâni Donato, Juvenal Fernandes, Nelly Martins Ferreira Candeias e Roberto Campos Gomes, a “Nota da Redação” corrobora o entendimento do Presidente do IHGSP sobre a Revista:
A Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo constitui- se em uma das mais antigas publicações em circulação no país, na área das ciências humanas. Desde 1895, ela abriga artigos que representam, sobretudo para os estudos históricos, uma significativa contribuição ao pensamento nacional. Como todas instituições de uma
sociedade em mudança – e a brasileira tem dado provas de como esse movimento pode ser acelerado – também a Revista procura não apenas representar o papel de órgão de divulgação de ideias perfeitamente consolidadas, como estar aberta à participação em embates intelectuais em processo de amadurecimento. Nesse sentido, a Revista do IHGSP assume, contemporaneamente, um duplo papel: além de assentar-se como uma ponte entre pensadores profissionais e amadores da história – o que a leva a admitir em suas páginas uma fértil pluralidade de métodos, periodizações e outras formas de construção do texto analítico – pretende abrir-se para um relacionamento íntimo entre a intelectualidade reunida nas grandes universidades brasileiras e outros trabalhadores do pensamento que têm construído isoladamente a sua trajetória de estudos e pesquisas. Assim, pretende-se dar corpo a uma nova fase da Revista que descortinará um espaço variado de concepções, com o objetivo de contribuir para fertilizar ainda mais o campo do saber histórico em nosso Estado de São Paulo. O lema defendido pela atual presidência de Roberto Machado Carvalho bem consubstancia o momento. Trata- se de ser fiel à tradição, sem descuidar da indispensável modernização. (RIHGSP, 1999, p. 5)