A análise qualitativa procura uma obtenção de significados com base numa sistematização da informação baseada na qualidade, e por isso os trabalhos desta natureza não tem a pretensão de tocar o limiar da representatividade (Fernandes, 1991).
O processo de tratamento dos dados revelou-se trabalhoso e até complexo, dada a natureza predominantemente verbal dos dados e o seu carácter polissémico.
As entrevistas semiestruturadas produzem um volume grande de dados diferenciados pelas particularidades da verbalização única de cada um, e por isso, ao iniciar o tratamento dos dados recolhidos, torna-se preponderante fazer um aprofundamento dos dados que ficarão contidos numa estrutura constituída com base no tema e questões centrais da investigação em causa, bem como fazer um afunilamento com vista a selecionar tópicos pela sua importância para a pesquisa (Vala, 1986).
Isto implica que se anote as interpretações feitas, os pontos críticos identificados e seu significado num determinado tópico e na pesquisa como um todo. Como consequência, ocorre frequentemente uma quantificação implícita que se traduz na procura de semelhanças e
diferenças nas respostas e comportamentos que poderão trazer nuances relevantes para o estudo.
Desde as notas de campo, aos registos pessoais de cariz reflexivo, os vários elementos que integram o portfólio de investigação constituíram uma vasta panóplia de informações que complementaram todo o estudo.
Assim, foi necessário tratar o material em bruto, formado pelos dados recolhidos, para ser possível reduzi-lo ao estritamente relevante, através da sua simplificação, seleção e organização, com base nos objetivos previamente definidos para a investigação e em categorias posteriormente definidas para o efeito. Só desta forma se torna possível obter elementos manuseáveis que permitam identificar relações, fazer interpretações e chegar a resultados ou conclusões (Gomez, Flores & Jiménez, 1999).
Bardin (2009) refere-se à análise de conteúdo como um “método muito empírico” pelo que, para que a interpretação não ponha em risco a pesquisa, importa seguir diferentes fases na análise de conteúdo, organizadas em torno de três polos cronológicos constituídos por:
1) A pré-análise
2) A exploração do material
3) O tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação. (121)
Bardin (2009) considera ainda que na fase de pré-análise, é necessário executar três tarefas distintas, não necessariamente numa relação cronológica:
1) Seleção dos documentos a serem submetidos à análise 2) Formulação das hipóteses e dos objetivos
3) Elaboração dos indicadores que fundamentem a interpretação final.
Sendo que o presente estudo é um estudo de pendor qualitativo, não comporta a formulação de hipóteses mas antes a formulação de objetivos para a investigação, que Bardin (2009) caracteriza como “a finalidade geral a que nos propomos (ou que é fornecida por uma instância exterior), o quadro teórico e/ou pragmático, no qual os resultados obtidos serão utilizados. […].” (124)
A análise dos dados pode fazer-se a partir de dois tipos de procedimentos, abertos ou exploratórios e fechados. Ghiglione e Matalon (1997) definem os procedimentos abertos ou exploratórios como aqueles em que não intervêm “categorias pré-definidas”, sendo que os resultados são devidos unicamente à metodologia de análise, estando isenta de qualquer referência a um quadro teórico pré-estabelecido. Por sua vez, segundo os autores, os procedimentos fechados fazem intervir “categorias pré-definidas” anteriormente à análise propriamente dita.
Toda a sistematização das informações reunidas e a elaboração de conclusões dependem da definição de categorias de análise, fazendo desta uma tarefa preponderante para o rumo do estudo. Por isso, importa garantir que as categorias de análise sejam tanto quanto possível livres de ambiguidades e de inconsistências, de forma a permitir obter informação suficiente e consistente, cobrindo todas as necessidades formais. De seguida, mostra-se de extrema importância que o investigador se assegure da exaustividade e exclusividade das categorias de análise, fazendo-as passar por um teste de validade interna, que visa garantir que todas as unidades de registo possam ser colocadas numa das categorias e que uma mesma unidade de registo só possa caber numa categoria (Coutinho, 2011).
A fase de exploração do material, por sua vez, consiste precisamente nas tarefas de codificação, decomposição ou enumeração seguindo as linhas definidas na fase de pré-análise (Bardin, 2009). Nesta fase, a informação é dividida e agrupada em blocos de informação que deverão ser analisados em conjunto, sendo que pode ser atribuído mais do que um código a um trecho, se este englobar vários significados.
Deste modo, nesta pesquisa o processo de organização e sistematização da informação passou por duas fases.
Numa primeira fase procedemos a uma categorização da informação a partir das notas de campo registadas, em que o conjunto de dados, designado por Vala (1986) de corpus de análise, foi submetido à técnica de análise de conteúdo com vista a sua redução (através do sistema de categorização e codificação dos dados) de forma a possibilitar o processo de descrição e interpretação (Vala, 1986).
Vala aponta que uma categoria é “habitualmente composta por um termo-chave que indica a significação central do conceito que se quer apreender, e de outros indicadores que descrevem o campo semântico do conceito” (1986: 111).
A categorização dos dados permitiu identificar aspetos relevantes e aspetos recorrentes na informação recolhida a partir da observação, da entrevista e do inquérito final. Assim, esta fase permitiu uma produção de conhecimentos por via indutiva, tal como é preconizado pelas abordagens qualitativas.
Numa segunda fase procedemos à codificação das categorias e à revisão da categorização feita anteriormente.
A terceira etapa da análise de resultados indicada por Bardin (2009), o tratamento dos resultados, implica interpretar a informação de forma a dar-lhe significado após a sua codificação e sistematização, em busca de padrões e ligações entre os temas com base uma narrativa descritiva dos aspetos em estudo que possa apontar implicações para os resultados.
Finalmente, importa garantir a fidelidade dos resultados, que, segundo Coutinho (2011) só é completa quando a categoria de análise não é ambígua, permitindo classificar sem dificuldade a unidade de registo, que foi o que tentamos aplicar neste estudo.