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3.1 Om dyrkerne

3.1.6 Dyrkingsareal

"Comando [São Rafael]/ o bonde mais cruel Não tem pra Levada/ [São Gabriel] / nem [São Arcanjo]

O bonde tá formado/ o jogo é pesadão

Pode vim que tem/ com nós é boca do dragão" (Funk "Comando São Rafael")

O dia 09 de abril de 2013 era outra terça-feira comum na rotina da escola. As aulas se desenvolviam dentro do padrão normal dos dias. Alunos se movimentavam pela escola, mesmo em horário de aula, professores conversavam com outros na porta das salas,

38 Nomes fictícios.

enfim, era mais um dia no calendário letivo. Ainda não havia soado o toque do recreio, quando em sucessão, fogos de artifício são explodidos. O barulho era estrondoso. Estava na Sala de Recursos Multifuncionais conversando com a professora Flávia, quando fomos surpreendidas pelo barulho. Era tão alto o som emitido, que a nossa impressão era de que se tratava de algo que estava acontecendo dentro da escola. Saímos da sala assustadas em busca de explicações e encontramos os alunos, em sua maioria, correndo pelos corredores e pátios da escola. Sem pensar, Flávia me disse: Vamos tentar sair da escola, acho que ela está sendo

invadida novamente por bandidos. Fiquei muito aflita, com medo mesmo por nossas vidas e

pela dos alunos também. Durante o período em que ficamos na pesquisa, a escola foi invadida três vezes. Geralmente, no momento das invasões, não entram na escola apenas os jovens envolvidos com o tráfico para saldar alguma dívida, mas também as mães desesperadas, querendo tirar seus filhos da escola a qualquer custo.

Estava aflita, mas percebia que os alunos não; também não vi nenhuma mãe até o caminho do pátio central. Perguntei ao aluno Daniel que passava por perto gritando em grande alegria o que estava acontecendo, ele me respondeu: Os caras mataram alguém importante,

acho que agora os cara mataram o Doca. Neste momento, outro aluno que passava por perto,

ouvindo o que Daniel me dizia, perguntou: Foi o Doca? Vixee, os cara são bom, não

perdoam. Perguntei ainda a Daniel o porquê dos fogos. Ele me disse que era sempre assim,

sempre que matavam alguém na guerra do São Rafael com o São Gabriel, soltavam fogos de artifício. Como eram muitos os fogos, devia se tratar de alguém grande, algum chefe do tráfico. O traficante Doca estava marcado de morte. Era possível que fosse a morte dele. Quando as professoras perceberam que não se tratava de uma nova invasão, acalmaram os ânimos dos alunos e seguiram com a rotina escolar, mas os fogos continuavam explodindo; os ouvimos por quase toda a manhã.

Fiquei intrigada com o fato de os alunos saberem quem deveria ser morto. Também me questionava por que ficaram tão animados com esta morte. Era alguém muito ruim para a comunidade? Geralmente, esses caras são discretos, quase não aparecem, o fazem por meio de seus comparsas. O que tinha de tão bom com a morte do traficante Doca?

*

Uma semana depois desse ocorrido, no dia 16 de abril de 2013, o aluno Isaque apareceu na escola com uma camisa estampada com a foto de um jovem chamado "Pedrinho". Em baixo do seu nome tinha o seguinte: "Pedrinho, nascido em 05/01/1999, morto em

11/01/2013, saudades eterna". Fiquei observando a camisa enquanto ele passava por mim. A aula já havia começado, mas Isaque andava pela escola tranquilamente. Ele sentou-se em um banco em frente a sua sala. De onde eu estava, ainda vi seu professor chamar, e ele nem lhe responder. Permaneceu lá parado. Pensei que seria uma grande oportunidade de conversar com ele. Neste dia, havia me programado para fazer observações em sala de aula, mas nunca tinha uma oportunidade de conversar com Isaque tão boa como aquela. Afinal era momento de aula, ele estava só, e já havia manifestado o desejo de não participar da aula. Aproximei- me e o cumprimentei. Ele estava calado, pouco interativo. Perguntou o que eu estava fazendo na escola. Falei que ainda fazia minha pesquisa, mas que não estava com vontade de ficar nas salas. Perguntei se podia ficar ali, conversando com ele. Ele soltou um sorriso de canto de boca, e não respondeu.

Isaque é o aluno mais temido pela escola. No ano de 2013, ele estava com 15 anos de idade, cursava o 5º ano do Ensino Fundamental, e ainda não sabia ler nem escrever. Para a escola, era um "aluno problemático", pois não assistia às aulas, durante o recreio era sempre um momento tenso com sua presença, não respeitava nenhum professor, nem mesmo a diretora da escola, todos os alunos tinham medo do que ele podia fazer com eles, tanto fora dos muros da escola, como dentro. Havia diversos indícios de que Isaque era envolvido com as atividades ilícitas da comunidade do São Arcanjo, especificamente com o grupo de traficantes do São Rafael, pois seu irmão mais velho era bastante conhecido pelos funcionários da escola, que moravam pela comunidade, como uma pessoa bastante perigosa e integrante da gangue do São Rafael. Por vezes, entrava na escola visivelmente drogado.

Os funcionários também já haviam me contado sobre o contexto familiar de Isaque. Diziam que seu pai era um homem decente, mas bastante violento, fazia serviços de eletricidade e que sua mãe era empregada doméstica. Como tinham sete filhos homens, e passavam o dia fora de casa, os meninos ficavam sós e eram cuidados pelo seu irmão mais velho. Como passavam muito tempo pelas ruas da comunidade soltos, alguns acabaram se envolvendo com os integrantes do tráfico, que eram também outros jovens como eles, crescidos em contextos familiares parecidos.