3 TEKNOLOGI FOR INTEROPERABILITET OG INTEGRASJON
3.1 Overordnede teknologitrender
Em se tratando de uma unidade militar, que conta com um conjunto de departamentos e pessoas organizadas hierarquicamente, as quais devem ser contatadas para se obter qualquer tipo de autorização de acesso de visita, circulação e, principalmente, quando esse acesso tem caráter de investigação do seu interior, o contato inicial requer, antes de tudo, uma carta oficial produzida pelo responsável indireto (orientador) da pesquisa. Essa carta será posteriormente anexada a outro documento que na organização é
denominado “Parte”12.
Ao elaborarmos uma parte, tomamos alguns cuidados para seguir a cadeia hierárquica da escola. Não queríamos entrar em cena já com uma autorização formal, concedida pela instância hierárquica maior do colégio, a Seção de Divisão de Ensino, como ocorreria com um investigador que não fosse também professor na escola.
No nosso caso, a obtenção da autorização exigiu que consultássemos previamente os postos intermediários de gestão, no âmbito do departamento escolar ao qual o pesquisador, pela sua identidade de professor, estava vinculado. Tal ação foi necessária para que não corrêssemos risco de ferir suscetibilidades alheias de pessoas que correspondem a uma parte dos sujeitos que foram elementos importantes da nossa investigação. Estes, percebendo nossa ansiedade e desobediência à rotina já conhecida, poderiam “sabotar” nosso trabalho. Não queríamos que isso acontecesse; almejávamos construir uma relação pesquisador-pesquisado que fosse sólida e honesta. Afinal, passaríamos longo tempo convivendo com todo o grupo.
Os oficiais dos postos de gestão intermediários emitem parecer inicial sobre o pedido que serve como uma primeira sinalização, positiva ou negativa, a respeito da solicitação pretendida. Dificilmente, um parecer emitido pelo oficial do posto intermediário de gestão é contrariado pelo Diretor de Ensino. Dependendo da natureza do apelo feito, a resposta do Diretor de Ensino chega verbalmente pelo militar Chefe da Seção. Todavia, é comum essas respostas demorarem de semanas a meses.
12A “parte” é um documento corriqueiro nesses estabelecimentos, por meio do qual os trabalhadores informam ou pedem algo (como dispensa do trabalho, autorização para ir a um evento como seminários, congressos). As “partes” feitas pelos profissionais são encaminhadas aos chefes de seção, que se encarregam de redigir outra “parte”, informando sobre o pedido ou informação que se deseja ser concedida pelo Diretor de Ensino, oficial que tem o poder de autorizar ou não, embora este sempre ouça o chefe da seção antes de proceder sua opinião.
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É conhecida, por exemplo, a dificuldade que Atassio (2007) encontrou para obter sua autorização de pesquisa na EsSA, que só foi obtida após decorrido um ano do pedido inicial, mas também é conhecida a experiência de Albertini (2006), que relata em seus estudos não ter tido nenhuma dificuldade em obter autorização para sua investigação. Mesmo assim, ocorrem nas bibliografias relacionadas com o tema das Forças Armadas muito mais relatos referentes às dificuldades de inserção e continuidade das pesquisas em seu interior do que aqueles que falam das facilidades.
Contudo, o nosso caso tornou-se peculiar, uma vez que solicitamos o apoio de uma pesquisadora e de um profissional da arquitetura no processo de coletar dados à
investigação e esses auxiliares de pesquisa13 precisavam de licença para entrar, transitar e
sair da organização. Era necessário que se tornassem conhecidos e reconhecidos por todos e ainda ter autorização para permanecer por um longo período no colégio, observando a sua dinâmica, dialogando, vivenciando situações e tomando parte da rotina dos profissionais da escola.
Assim, ao pensarmos o pedido de autorização de pesquisa, fomos invadidos, ao ver que o projeto de pesquisa caminhava para a concretização, por muitos receios. O principal deles envolveu a nossa participação nas reuniões de coordenação e de chefias que corriqueiramente ocorrem. Nesses encontros são estabelecidos debates entre docentes, entre estes e a gestão e entre estes e a equipe de apoio ao seu trabalho. Nosso receio ocorreu porque temíamos também que nossos auxiliares não obtivessem autorização para transitar na escola e que mesmo a obtendo, não conseguissem se integrar com os atores da pesquisa. Temíamos ainda não obter autorização alguma, o que comprometeria seriamente nossas intenções.
A negativa a qualquer um de nossos pedidos comprometeria o andamento do trabalho, já que num estabelecimento militarizado qualquer decisão dos canais superiores se reflete na aceitação/negação do envolvimento do grupo de trabalhadores com um determinado trabalho. Isto ocorre porque segundo Weber (2009) os estabelecimentos militares são organizações burocráticas e pode ocorrer de os indivíduos estarem quase que mecânica e automaticamente ligados, e formarem pela ligação que estabelecem espécies de colônias que são geridas por conjunto de regras e normas estreitas.
É importante afirmar que mesmo quando os canais superiores emitem parecer de aceitação do pedido, esse aceite não se traduz numa participação maciça dos
13 Mais a frente no capítulo discutiremos em detalhe o papel que os auxiliares de pesquisa desempenharam na coleta de dados deste trabalho.
profissionais, fato que aconteceu conosco já que nem todos os professores não-militares e militares professores participaram da nossa investigação.
O receio vivido por nós encontra respaldo na literatura especializada que trata das pesquisas qualitativas. Em primeiro lugar, os cuidados de que cercam organizações quanto à presença do pesquisador ocorrem porque, como lembra Flick (2009), a pesquisa qualitativa muitas vezes se constitui em intervenção em sua dinâmica, que pode se configurar como geradora de rupturas no seio do seu sistema. A ruptura pode levá-la a reagir defensivamente.
Conforme explica Friedberg (1993), além das dicotomias naturais inerentes ao espaço organizacional, pode haver em segundo lugar forte dicotomia entre os objetivos do projeto de investigação do pesquisador e as prescrições dessas organizações.
Considerando que os militares são um grupo que, quando comparados aos indivíduos que não fazem parte da organização militar, se envaidecem da sua ordem. Reconhecem-se, conforme explicam Castro e Leirner (2009), mais comprometidos e com moral diferenciada dos demais sujeitos que estão fora do quartel, pois tais implicações da pesquisa qualitativa e porventura da própria ação do pesquisador poderiam ser entendidas como um ato de violação da ordem. Isto porque o investigador, na maior parte das vezes, pode tornar públicos pontos de tensão da entidade, isto é, ele pode pôr foco em situações que depõem contra a natureza ordenada defendida pelas organizações militares.
Tal ação pode ocasionar, segundo esse autor, uma espécie de prestação de contas por parte de quem autorizou a realização da pesquisa e também por parte dos sujeitos atores nos trabalhos qualitativos.
Desde a entrega do pedido ao oficial responsável pelo seu encaminhamento, que coincidentemente era, na época, o chefe deste professor-pesquisador, demos início aos nossos trabalhos. Não podíamos e não pretendíamos nos furtar de ter os dados daí advindos como elementos da pesquisa. Logo, iniciamos a coleta de dados mediante a observação do contexto escolar em setembro de 2010.
Após uma semana da entrega de nosso pedido, fomos chamados para prestar esclarecimentos. Tomamos conhecimento da preocupação do oficial Chefe da Divisão de Ensino quanto aos objetivos da nossa pesquisa. O Diretor de Ensino nos alertou que o CMCG é antes de tudo um quartel e que, por isso, há alguns departamentos que são exclusivos da área militar e disponibilizar documentos e permitir a circulação nesses locais poderia comprometer a segurança dessas áreas.
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Procuramos “confortar” o oficial, informando-o de que os objetivos da pesquisa estavam relacionados ao aspecto escolar daquele estabelecimento e que não nos interessavam as questões especificamente militares, a não ser que elas se refletissem na dinâmica pedagógica da organização e porventura nos movimentos identitários dos professores.
O oficial em nenhum momento negou a possibilidade da pesquisa mas, mostrava-se relutante em relação à disponibilização de documentos cujo conteúdo se referia à dinâmica militar da organização. Nesse sentido, nos indagou inclusive sobre o porquê de nossa observação e participação nas reuniões de cunho pedagógico:
Para que o senhor quer os documentos? As observações das seções, do recreio e dos professores em sala de aula não são suficientes? O senhor está na área de psicologia, acha a entrevista mais adequada? O que eu acho importante de investigar é por que uma hora o professor diz que quer ficar por ano e outra hora eles dizem que querem ficar por disciplina [se referindo à organização das seções de ensino]. O senhor sabe o que eles querem?14 (Oficial Chefe da Divisão de Ensino).
Esse episódio é ilustrativo das discussões de May (2004), que afirma que o acesso ao campo pode ser um problema para o investigador, principalmente, quando ocorrem eventos que ele não planejou. Entretanto, nossa intenção era fazer uso dos instrumentos de coleta de dados que elencamos mediante uma abordagem caracterizada por Bogdan e Biklen (1994) de diretiva. Nessa forma de acessar o campo, o pesquisador opta por abrir o jogo, explicitar à equipe diretora e a todos os envolvidos no trabalho os objetivos que o investigador pretende atingir.
Esse tipo de abordagem inicial, na qual o pesquisador revela suas intenções e se mostra a todo tempo aberto a negociações/concessões pode ser facilitadora do acesso a todos os espaços da organização bem como a todas as pessoas que ele deseja contatar. Essa abordagem negociatória, que assumimos ao aplicar as técnicas de coleta que utilizamos, enfatiza, conforme argumenta Friedberg (1993), o caráter cooperativo que cerca o trabalho investigativo sobre as organizações.
De qualquer forma, as situações que vivi, ao estabelecer os primeiros contatos com a organização e ao tomar parte dela mediante a técnica da observação, implicaram a
impossibilidade de que conseguíssemos um acesso discreto, dado que sendo um
14 Essa indagação do oficial nos causou uma série de inquietações e por ocasião das nossas primeiras análises das entrevistas semiestruturadas garimpamos dados que nos possibilitaram ao longo do estágio de doutorado sanduiche no Instituto de Psicologia da Universidade de Lisboa e em parceria com o professor Dr. Luis Miguel de Carvalho elaborar uma comunicação sinalizando algumas respostas ao questionamento do militar Chefe da Divisão de Ensino.
profissional da organização investigada, sendo um conhecido dos demais professores e um colega de trabalhos deles, não procedi a recolha dos dados de forma isenta.
Enquanto membro da organização, um integrante, um participante direto dos acontecimentos diários da escola, muitas das coisas que anuncio em minhas observações, foram permeadas por esse meu vínculo participativo, até mesmo porque a finalidade do trabalho é a de oferecer um conhecimento que possa ajudar na evolução da organização, por isso houve de minha parte, em muitos momentos da recolha dos dados, uma interação direta, um envolvimento intenso com as dinâmicas anunciadas.
Uma vez “compreendida” por parte da gestão as intenções de pesquisa e os caminhos escolhidos para se atingi-los, sentimo-nos mais confortáveis para solicitar os documentos em que estavam as diretrizes da organização e para, na sequência, dar início aos primeiros contatos com os professores não-militares e militares professores que foram, efetivamente, os sujeitos foco do trabalho. No tópico a seguir, vamos detalhar a forma como procedemos a recolha das informações mediante as técnicas: Consulta Documental, Questionário, Entrevista Semiestruturada e a Observação. Mas destacamos que os trabalhos de observação já haviam sido iniciados no momento em que procedemos aos primeiros contatos que visavam obter o acesso legal à organização.
2.3 Fontes e procedimentos ligados à recolha das informações para a pesquisa