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Uma das dificuldades encontradas no estudo do conforto em aeronaves é como integrá-lo aos diferentes aspectos da cabine e à diversidade que caracteriza os usuários da aviação.

Tendo em vista que existem necessidades conflitantes entre as medidas para melhorar o conforto é necessário modelos bem definidos a fim de integrá-las. Vink (2011) discute justamente a necessidade de novos modelos que possam contribuir para os conhecimentos acerca de conforto.

Um primeiro modelo, apresentado na figura 9, foi recentemente proposto por Vink (2011) com o objetivo de explicar como se dá a percepção de conforto/desconforto, entretanto este modelo não enfatiza apenas situações de voo. De acordo com o autor, a interação (I) é causada pelo contato entre a pessoa e o produto durante uma situação de uso/tarefa em um determinado ambiente. Esta interação pode resultar em efeitos no corpo humano (H), como mudança de postura e sensações táteis. Os efeitos percebidos (P) são influenciados também pelas expectativas (E), e podem ser interpretados como confortáveis

(C), neutros (N) ou desconfortáveis (D). Esta última resposta refere-se basicamente a constrangimentos músculos-esqueléticos (M).

Figura 9: Modelo de conforto (VINK)

Fonte: VINK, 2011, p. 5

Vink (2011) salienta que não existe uma única manifestação de conforto ou desconforto, e sim que as respostas variam de quase desconfortável para extremamente confortável, ou nenhum desconforto para extremamente desconfortável.

Um segundo modelo de conforto foi proposto por Dumur, Barnard e Boy (2004) o qual focaliza aspectos relacionados às necessidades dos passageiros e o design da cabine. Os autores ressaltam que apesar de fatores ligados a aspectos gerais de viagem, como experiências no aeroporto, estrutura da aeronave, condições ambientais e turbulências, serem importantes para o conforto, estes não são considerados no delineamento dos modelos. A figura 10 apresenta um esquema representativo deste modelo.

Primeiramente o modelo ressalta que os usuários sempre estarão inseridos em um modelo estético-econômico, o qual envolve principalmente uma relação entre preço, imagem da companhia e expectativas do passageiro. Deste modo, quando um passageiro opta por voar de classe econômica, pagando por uma tarifa mais econômica, ele tem uma expectativa quanto às possibilidades e as restrições neste ambiente da cabine.

Ambiente Pessoa

Produto

Figura 10: Esquema representativo do Modelo de Conforto (DUMUR; BARNARD; BOY)

Fonte: MENEGON, 2010a, p. 6

O modelo da “bolha do passageiro” relaciona-se ao espaço no qual o passageiro está “isolado” de perturbações e pode realizar suas próprias atividades, enfatizando a privacidade para realização de atividades como ler, escrever, trabalhar em um computador portátil, escutar música, assistir um filme, alimentar-se e dormir. O passageiro prefere ter sua própria tela de entretenimento a bordo e ser capaz de personalizar suas escolhas, como nível de som, contraste, etc. Para satisfazer estas preferências é necessário individualizar as facilidades disponibilizadas aos passageiros e ter certeza de que as escolhas de um passageiro não perturbarão as demais pessoas presentes na cabine.

O modelo da saúde focaliza a ausência de desconforto, de potenciais perigos à saúde e aborrecimentos, como também o bem-estar físico. Algumas melhorias que consideram os princípios desse modelo envolvem os assentos, apoio de braço e cabeça ajustáveis; espaço para movimentar-se pela cabine; possibilidades de entretenimento para evitar o tédio e estresse.

O modelo da comunidade ressalta que o passageiro pertence a um grupo em um transporte coletivo, onde acontecem experiências comuns. O transporte aéreo configura-se como uma situação social, assim o passageiro pode interagir com outros usuários. Ao

viajarem juntas as pessoas podem realizar atividades em grupo: jogar videogame, se comunicar, etc. Ao mesmo tempo, as atitudes e ações de um passageiro estão sujeitas ao julgamento dos demais.

Cabe ressaltar que as diferentes soluções de conforto que possam ser propostas considerando o foco de cada modelo apresentado podem ser contraditórias entre si. Assim sendo, as soluções propostas devem ser analisadas de modo integrado, buscando estabelecer relações harmoniosas e integradas às expectativas dos passageiros (DUMUR; BARNARD; BOY, 2004).

A partir do que foi apresentado observa-se que o conforto e o desconforto na cabine são determinados pela interação de diversos fatores, dentre estes o próprio indivíduo e o contexto, os quais compreendem uma variabilidade que se manifesta ao longo do tempo, influenciando a experiência global de voo.

Outro aspecto relevante se refere à possibilidade de agir, ou as atividades realizadas pelos passageiros em todos os momentos relacionados a uma viagem aérea. Apesar de alguns estudos apontarem a relevância das atividades dos passageiros para a percepção de conforto, não foi encontrado nenhum estudo que analisou efetivamente estas atividades e sua relação com o conforto em ambientes reais de transporte.

O conforto é com frequência associado à ideia de relaxamento e descontração. Conforme proposto Dumur, Barnard e Boy (2004), estas sensações prazerosas e agradáveis podem ser proporcionadas por componentes de tecnologia, incluindo tanto os sistemas oferecidos pela companhia aérea como a possibilidade de usar dispositivos eletrônicos pessoais durante a viagem.

Além disso, de acordo com a APEX (2011), a satisfação dos passageiros é uma das prioridades do setor de transporte aéreo, e o entretenimento a bordo é um meio comprovado para melhorar essa experiência, como também um avanço para a marca da companhia aérea, diferenciando-a das demais.

Por conseguinte, observa-se que o entretenimento a bordo está se tornando relevante na aviação, afinal, proporciona aos passageiros sensações positivas e amplia as possibilidades de ação na cabine, funcionando como um facilitador das atividades a bordo, uma vez que se caracteriza por recursos que vão desde telas para programação em vídeo à opções de comunicação e conectividade. Da mesma forma, o entretenimento é um recurso para distrair o passageiro de possíveis constrangimentos relacionados ao transporte.

Deste modo, o entretenimento a bordo é visto como um fator de grande importância para uma experiência positiva de voo, portanto este foi selecionado enquanto objeto desta pesquisa, visando aprofundar o conhecimento a cerca de sua importância na aviação, bem como a sua relação com conforto/desconforto na cabine.