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62 A Jota Aragonesa é uma melodia em forma de valsa, acompanhada por guitarras, castanholas e triângulos,

trazida por um mouro de Valencia para Aragão no século XII. Permanece até hoje como uma das mais populares danças do norte da Espanha.

Fig.3.28: Introdução lenta da Rapsódia Espanola, de Liszt, baseada no tema Folias de Espanha.

O ambiente dramático da abertura, explorando a região grave do piano, combinado aos elegantes floreios, evocam as sonoridades da recém-composta peça Legende: St.

François d'Assise: La predication aux oiseaux63. As variações que se seguem estão desenvolvidas sobra a forma da passacaglia barroca.

A última variação modula para o tom de Ré maior com um suave deslizamento que apresenta delicadamente o tema Jota Aragonesa na região aguda, inaugurando a segunda parte em contraste brilhante:

Fig.3.29: Apresentação do segundo tema Jota Aragonesa na Rapsódia Espanola, de Liszt.

A apresentação de um terceiro tema traz consigo uma série de modulações, para os tons de Fá maior, Lá bemól maior, Mi maior e Mi bemól maior, antes de retornar ao tom Ré maior que se reestabelece para a grande reprise da Jota e da Folias na conclusão da obra64.

Em geral, a estrutura da Rapsódia Espanhola é menos rapsódica que suas parceiras húngaras, e sua natureza expressiva é mais poética que pirotécnica, sendo necessário uma abordagem mais elegante e menos virtuosística na sua execução.

Uma outra obra de inspiração espanhola anterior a esta, a Grosse Konzertfantasie

uber Spanische Weisen – ou simplesmente Fantasia Espanhola para piano, composta em

Lisboa em 1845 e publicada postumamente, compartilha apenas o tema da Jota Aragonesa. As inovações da estrutura rapsódica e das colorações espanholas que Liszt criou nas duas peças, assimilando perfeitamente os temas ibéricos ao seu próprio estilo brilhante, abriram

caminho para compositores futuros que também beberiam da fonte da cultura espanhola, como Nicolai Rimsky-Korsakov (1844–1908) e Maurice Ravel (1875-1937)65.

Um último eco da tradição em fins do século XIX aparece numa melodia folclórica arranjada em 1874 pelo compositor norueguês Edvard Grieg (1843-1907) no ciclo

Melodias Norueguesas, (EG 108, N.25: I Rosenlund i Sagas Hal66). Desta vez a citação não traz nenhuma carga narrativa ou de historicidade, não obstante trata-se de uma coincidência que traz à tona um fato interessante relacionado ao itinerário da Folias de Espanha na Europa como cultura popular, chegando à Escandinávia.

Como vimos em capítulos anteriores67, a prática antiga de usar melodias alheias e o fenômeno da circularidade cultural disseminou a Folias de Espanha por todos os países da Europa. Os próprios músicos se espalharam pelo continente, acompanhando o séquito da nobreza e levando consigo o repertório de outros países. Desse modo, muitas melodias trazidas à Escandinávia a partir do século XVII são provenientes de países como Polônia, França, Espanha, etc. O resultado desse movimento é que muitas melodias do folclore escandinavo são idênticas a temas provenientes de outras nacionalidades, ou variantes deles. Algumas melodias estão preservadas e podem ser localizadas nos arquivos das cortes das cidades de Estocolmo, Upsala e Tronheim68.

Assim, não é de causar estranheza o fato de que a Folias de Espanha é uma das mais conhecidas melodias escandinavas, e é muito utilizada em baladas, canções folclóricas e cantigas de ninar. Na Finlândia e na Suécia ela aparece no formato de polska, com oito compassos adicionais. Existe uma versão dessa dança na Islândia, com a temática da

65 STEVENSON, 1979, p.512.

66 Em Rosenlund nos tempos dos contos de fadas. 67 Cf. capítulos 1.2 à 1.7.

bebida69, cuja versão finlandesa é intitulada Lampaan Polska70. No sul da Suécia há uma

versão dessa mesma polca como Fiol i Spann71:

Fig.3.30: Fiol i Spann.

Outra versão sueca muito comum é a balada Sinclairsvisan, baseada num poema de 90 versos escrito por Anders Odel (1718-1773), que descreve o assassinato de um diplomata sueco a mandado do governo russo, em 173972. Esse poema tornou-se um lugar comum independente do assunto abordado, com inúmeras variantes e canções, mas sempre com caráter político ou de protesto. O mais prestigiado poeta sueco, Carl Michael Bellman (1740-1795), também musicou a melodia da Folias de Espanha, o que reforçou ainda mais a presença dessa melodia naquele país73.

Duas famosas cantigas de ninar suecas, também utilizadas na Noruega, são variantes da já mencionada polca Fiol i Spann:

69 KIRTON, Op.cit., p.4. 70 Polca da ovelha. 71 Violino em um balde. 72 Id., ibid., p.5. 73 Id., ibid., loc.cit.

Fig.3.31: Cantigas de ninar suecas. Observe que a segunda melodia serve para quatro cantigas diferentes (a-d).

Na Noruega, a Folias de Espanha é conhecida como I Rosenlund i Sagas Hal. Esta possui, por sua vez, suas próprias variantes em danças, cantigas e baladas. A versão de Grieg foi escrita a partir da solicitação de um editor dinamarquês de que ele preparasse uma coleção de melodias folclóricas arranjadas ao piano para serem publicadas com o título genérico de Melodias Norueguesas. Devido à simplicidade de escrita dos arranjos, o compositor norueguês vendeu os direitos da coleção a Wilhelm Hanssen em 1877, embora Grieg tenha mudado sua atitude em relação às coleções de arranjos de temas folclóricos no final de sua vida74.

A antiga dança portuguesa de camponeses percorreu um longo caminho, passando por pontos altos e momentos de esquecimento, embora nunca abandonada. No final do barroco ela representou um dos mais fortes traços unificadores da música instrumental européia, uma base bem conhecida sobre a qual músicos de todas as nacionalidades poderiam improvisar sem nenhuma barreira de linguagem ou tradição musical, e uma fonte de inspiração de sucesso para qualquer compositor que ambicionasse impressionar com suas habilidades a comunidade musical européia. O Classicismo, em sua busca por estruturas evolutivas, perdeu seu interesse nas variações sobre baixos ostinatos, fazendo com que a Folias de Espanha fosse somente redescoberta pelos românticos que

reconheceram nela atributos para novas inspirações pessoais, unindo mestres tão díspares como Liszt e Brahms.

CAPÍTULO 4: