A narrativa inicia-se em plano fechado mostrando apenas braços e antebraços em movimento, com som de meninas fazendo ginástica, na seqüência em um plano mais aberto a imagem que aparece ao fundo é de um grupo de meninas enfileiradas, na faixa etária de 11 a 13 anos, uma ao lado da outra, movimentando de forma continua e compassada os braços para cima e para baixo. A última menina à esquerda vira-se e olha para as demais, neste momento o som da ginástica é substituído pelo som da trilha clássica e mostra-se o olhar da menina adolescente em plano médio fechado.
Em seguida há um corte e é exibida a imagem da segunda parte da narrativa: há um breve corte na trilha clássica e é inserido o som típico do movimento de andar de sapatos femininos em um assoalho de madeira, ao fundo é exibida a imagem de um quarto de menina, com bonecos sobre uma cama recoberta por uma colcha de estampa rosa florida, entram em cena apenas duas mãos femininas que colocam sobre a cama um pacote de presente cor de rosa envolto em um lindo laço branco e rapidamente sai de cena.
40 Freud foi o fundador da psicanálise – Lacan, pesquisador dos conceitos freudianos, em seu seminário “A
No primeiro quadro do filme está evidenciada a primeiridade peirceana, pois o filme inicia-se em uma imagem que tem potencial de ser qualquer coisa, é aquele momento de suspensão do pensamento, é a consciência aberta, disponível para aquilo que a ela se apresenta, apenas sons indefinidos e imagens em partes, sem definição de absolutamente nada, pura presentidade. É em Santaella que encontramos o caminho mais claro para a análise deste primeiro momento:
“Se fosse possível parar, para examinar, num determinado instante, de que consiste o todo de uma consciência, qualquer consciência, a minha ou a sua, isto é, de que consiste esse labiríntico ‘lago sem fundo’, num instante qualquer em que é o que é, por que é tudo ao mesmo tempo, repito, se fosse possível parar essa consciência no instante presente, ela não seria senão presentidade como está presente. Trata-se, pois, de uma consciência imediata tal qual é. Nenhuma outra coisa senão pura qualidade de ser e de sentir. A qualidade da consciência imediata é uma impressão (sentimento) in totum, indivisível, não analisável, inocente e frágil.” (SANTAELLA, 2002, p. 9).
Na figura 32 podemos notar o olhar da menina observando as outras durante a ginástica, mas em um ponto específico este olhar é dirigido à câmera, por fração de segundos, como se a menina estivesse olhando o espectador. Neste momento o espectador se sente olhado e é apanhado por este olhar. Este é o olhar do Outro que para o espectador, a tela deixa de ser a cena toda e passa a ser somente o olhar, e tem muito valor, pois é nos olhos da menina que se reflete a luz que vai até o espectador com um brilho que o capta. Em uma
Figura 31 - Primeira Cena do Filme
Figura 32 - Olhar observador da adolescente
Figura 33 - O pacote de presente
análise topológica sobre a perspectiva podemos afirmar que esta é a luz capaz de fascinar41 o sujeito – interprete desta relação sígnica – esta luz é o falo imaginário (- phi).
Voltando à narrativa do filme: um novo corte nos traz, em plano americano, a mesma menina dirigindo-se à frente de um armário fazendo menção de abri-lo, no plano geral várias meninas em um ambiente que nos remete a um vestiário ao final de uma aula de educação física, ao fundo o som das meninas conversando em fusão com a trilha clássica. A menina se mantém coadjuvante observando todas as outras se trocarem e tirarem as camisetas, neste momento ela percebe que todas estão usando sutiã, portanto não ficam com os seios a mostra.
Com um olhar de vergonha e timidez abre a porta do armário, que exibe fixadas fotos dos ídolos de rock tão próprios da adolescência e se coloca por trás. Ao tirar a camiseta, somente é exibida sua costa nua. Escondida pela porta do armário e com seu braço à frente dos seios, ela olha por sobre os ombros para o espectador com a pretensão de causar a sensação de identificação imediata entre espectador e personagem adolescente, seus medos e angústias.
A angústia real (Realangst), na concepção de Freud em 1926, é a angústia diante de um perigo real, e se opõe à angústia frente à pulsão. Assim podemos identificar o medo da menina como sua “pulsão sexual” e angústia como a falta do símbolo de sua feminilidade: “o sutiã”. A adolescência na menina caracteriza-se pelo surgimento dos caracteres sexuais primários e secundários, há o aparecimento da primeira menstruação (menarca) e o
41 Do mesmo modo que o inconsciente se atualiza nas falhas da linguagem, num lapso, por exemplo, o olhar está
nessa falha da visão, já não é uma falha da linguagem, é uma falha da visão que chamamos de fascinação. A fascinação é o modo como se manifesta a emergência de um olhar inconsciente. Neste filme publicitário este olhar, este brilho que desperta a fascinação do sujeito está presente em diversos quadros.
Figura 34 - Vergonha e timidez Figura 35 – A ausência do símbolo
crescimento dos seios. Todavia, é a partir da menarca, que a menina biologicamente ingressa no mundo adulto da fertilidade e se depara com a possibilidade de gerar outro ser, no entanto a importância da menarca para a adolescente é muito menor que o uso do primeiro sutiã, pois a menarca não se insere na cultura como “objeto de desejo” e o sutiã sim.
Esta primeira etapa da narrativa é um preparo para o ápice do filme: o encontro entre a menina e o protagonista da história – o sutiã – que juntos mostrarão toda a beleza, identificação e lógica da passagem da menina em mulher, fazendo do sutiã o instrumento legitimador desta transformação.
Em plano aberto inicia-se a segunda etapa da narrativa, exibi-se novamente a imagem do quarto da adolescente possibilitando-se a visão de maiores detalhes do ambiente, novamente o som de sapatos pisando no assoalho de madeira e em seguida entra em cena a menina, vestida como uma colegial dando a impressão que acaba de chegar da escola – palco de sua angústia. Arremessa a mochila ao lado da cama e joga-se por sobre as almofadas, retira os tênis balançando as pernas ao ar. Em plano médio fechado abraça-se a uma boneca de pano, que estava sobre a cama e enfatiza-se seu olhar triste. Como quem passa o olhar no ambiente, indica com sua expressão que avistou algo estranho, simultaneamente o som de uma buzina de automóvel ao fundo. Larga a boneca ao lado e inclina-se na direção do que avistou.
Um rápido corte é feito mostrando em plano médio a menina sentada de pernas entrelaçadas sobre a cama, com o pacote de presente no colo, sem mostrar seu rosto. Mostram-se suas mãos desfazendo o laço e abrindo o presente em uma velocidade que denota toda sua ansiedade, ao fundo a trilha clássica em volume baixo, crescendo gradativamente, pontuando a descoberta. Mais um corte rápido e exibi-se a menina retirando de dentro do pacote de presente um sutiã branco. Este é o momento que entra em cena o protagonista deste filme – o sutiã. Segurando pelas alças ela olha a peça cuidadosamente, seu olhar de espanto e admiração rapidamente funde-se, em close fechado, ao olhar de surpresa, alívio e curiosidade, solta um lindo sorriso maroto e corre para frente do espelho.
Em plano aberto exibi-se a menina retirando a camisa e pondo-se em frente ao espelho, no canto inferior direito a boneca sobre a cama e no esquerdo o pacote de presente aberto fazem o contraste com a menina e sua descoberta. Ela joga a camisa no chão e aparecem, rapidamente refletidos no espelho, seus seios nu.
A imagem foca-se na menina, em plano fechado, vestindo o sutiã, girando o corpo de um lado para o outro. Ainda com olhar de admiração e espanto, a trilha torna-se cada vez mais alta e com tempos mais curtos. Em plano americano, a menina é exibida, ainda em frente ao espelho, com sua saia de colegial em contraponto com os seios recobertos pelo sutiã simples, sem rendas, sem detalhes. Ela gira olhando para sua imagem refletida, com gestos delicados de uma bailarina, observa a peça em seu corpo.
Totalmente deslumbrada ela roda e mexe nos cabelos e deixa aparecer um pequeno brinco em sua orelha; com a maquiagem, ainda que suave, porém mais acentuada seu olhar evidencia a vitória. O momento de “glória” é acompanhado por uma ópera de Puccini o que dá mais emoção à cena.
Com a narrativa chegando a sua última etapa e atingindo o clímax, o som agora é de uma avenida bastante movimentada, buzinas de automóveis fundem-se à trilha clássica,
Figura 37 – O olhar perdido Figura 38 - Ansiedade e Curiosidade
Figura 39 - Admiração e Espanto
Figura 40 - Olhar de criança marota
Figura 41 – O encontro com o símbolo da feminilidade
Figura 42 - A transição "menina- mulher"
compassada, pessoas que passam de costas e a jovem surge em cena do lado direito do vídeo, dando a entender que está indo para a escola. Agora, não mais com a roupa de colegial, mas sim vestindo um jeans e uma camisetinha cavada branca, em suave transparência deixa sutilmente aparecer o sutiã sob a roupa. Não está usando mais a mochila, mas sim uma prancheta com cadernos universitários e uma bolsa tiracolo, evidenciando o ar de mulher.
Um rapaz, aparentando um pouco mais velho que a jovem, surge de costas ao lado esquerdo do vídeo e quando passa por ela vira-se e sorri flertando. Ela fica séria e tímida cobre os seios com a prancheta para se proteger. O rapaz continua andando e olhando para a jovem, enquanto esta lentamente tira de sua frente à prancheta, com olhar sério e decidido. Aos poucos este semblante de seriedade cede espaço a um discreto sorriso, ela olha diretamente ao espectador com a expressão de quem esperava ser notada, não mais como menina, mas sim, como mulher.
O filme se encerra com uma ópera em vozes masculinas ao fundo e o slogan - “O primeiro Valisère a gente nunca esquece” – dito por uma voz doce feminina. No lado esquerdo do vídeo a logomarca Valisère e ao centro a jovem com expressão de tranqüilidade, cabelos ao vento, caminhando no compasso da ópera, a imagem ganha um tom magenta suave até o corte final do filme.
Identificam-se facilmente dois personagens deste filme: o sutiã, como foco principal da peça publicitária e a menina como coadjuvante de uma espécie de releitura dos contos de fadas como Cinderela e Patinho Feio, onde o sutiã é o elemento transformador, referenciando o rito de passagem para a vida adulta.