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Denomina-se cadeia produtiva, de acordo com Zylbersztajn; Farina; Santos, (1993), uma seqüência de operações interdependentes que têm por objetivo produzir, modificar e distribuir um produto.Mesmo existindo há diversos anos, a atividade de criação e manejo do Jacaré do Pantanal não possui nenhum estudo referente à cadeia de produção como um todo. Coutinho (2006) afirma que a cadeia de produção do Jacaré do Pantanal mais organizada está em Mato Grosso. Possivelmente esta afirmação é baseada na quantidade de propriedades no Estado que participam da atividade, bem como na existência de um frigorífico na cidade de Cáceres, com registro no Serviço de Inspeção Federal (SIF), que abate e comercializa pele e carne para várias partes do país.

Porém, não existe um estudo preciso sobre o complexo agroindustrial do Jacaré do Pantanal. Em 2006 foi assinado um acordo entre diversas entidades governamentais (IBAMA, Escola Agrotécnica Federal de Cáceres, Universidade do Estado de Mato Grosso, Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial-MT, Empresa Matogrossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural – EMPAER/MT, prefeituras de Cáceres e Poconé/MT) e produtores envolvidos com as atividades de manejo e criação. Esse acordo disponibilizou R$ 940.000,00 (Novecentos e quarenta mil reais) para o desenvolvimento da cadeia de produção e acesso a novos mercados. Deste valor, R$ 502.000,00 (Quinhentos e dois mil reais) foram destinados para qualificação de produtores de Cáceres/MT e Poconé/MT, para participação em feiras, congressos, missões técnicas e melhorias nas técnicas de produção. Os outros R$ 438.000,00 (Quatrocentos e trinta e oito mil reais) foram direcionados ao SEBRAE-MT em específico, ao projeto “Animais Silvestres” que tinha como objetivo a organização e o desenvolvimento da cadeia de produção de Jacaré do Pantanal (SEBRAE, 2006). Porém, os dados e resultados do projeto não foram apresentados à sociedade.

Dessa forma, o que se tem de informação sobre a cadeia produtiva do Jacaré do Pantanal é a que consta na Figura 3.1, obtida na Cooperativa de Criadores de Jacaré do Pantanal.

Coleta de Ovos Incubação Recria e Engorda Abate Pele Curtimento Produtos Carne Restaurantes /  Supermercados/  Consumidores Cabeça/patas Subprodutos Carcaça, Gordura,  Miúdos Artesanato Animais não‐ abatidos

FIGURA 3.1 Cadeia de Produção do Jacaré do Pantanal Fonte: COOCRIJAPAN (2009)

No caso da Cooperativa, praticamente todos os elos da cadeia de produção estão sob domínio da organização. Os ovos são coletados nas propriedades dos cooperados e transportados até a sede da organização para as atividades subseqüentes. O abate e o processamento da carne são realizados no frigorífico da Cooperativa. Em seguida, são vendidas a restaurantes e supermercados localizados em diversos Estados brasileiros. Já as peles são salgadas e comercializadas nessa condição para curtumes localizados no Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo.

É importante ressaltar que, apesar das literaturas sobre manejo e produção de Jacarés do Pantanal definirem a carne de jacaré como um subproduto, a partir do ano de 2003 ela passou a ser um produto tão forte quanto a pele do jacaré do pantanal, em termos de comercialização.

Os subprodutos miúdos estão sendo testados como componentes da ração que é fornecida aos animais. A carcaça é usada para fabricação de farinha para ração e as cabeças e patas, além de animais não abatidos (i.e, aqueles que morreram por morte natural antes do período de abate), são destinadas a confecção de artesanatos.

Porém, os criadouros independentes não apresentam a mesma configuração da Cooperativa. Os primeiros estabelecimentos se destinam exclusivamente a recria e engorda, muitas vezes obtendo os ovos de propriedades rurais próprias e de terceiros e realizando o abate em frigoríficos externos à propriedade. Posteriormente, realizam a salga da pele para

comercializá-la. Essas empresas comercializam a carne apenas na cidade onde estão inseridas, por não possuírem registros nos órgãos de vigilância sanitária estadual e nacional.

Em relação à quantidade de estabelecimentos participantes da cadeia produtiva do Jacaré do Pantanal, sejam eles destinados a criação, beneficiamento, processamento ou comercialização de carne e de couro de Jacaré do Pantanal, Coutinho (2004) apresenta dados conforme Figura 3.2.

FIGURA 3.2 Distribuição dos estabelecimentos da cadeia produtiva do Jacaré do Pantanal (Caiman

yacare). Fonte: Coutinho (2004)

Para Coutinho (2004), o segmento produção diz respeito ao total de fazendas produtoras (coleta de ovos) registradas no IBAMA. A fração recria refere-se às unidades de criação e engorda dos animais. A fatia beneficiamento diz respeito às empresas registradas no IBAMA para beneficiar a carne de Jacaré do Pantanal. O segmento carne representa as empresas com registro no IBAMA aptas a comercializar a carne de Jacaré do Pantanal. A fração couro representa as empresas de curtume, beneficiamento de couro, exportadores e importadores do produto, devidamente registradas no órgão supracitado.

Dois índices merecem destaque na Figura 3.2. O primeiro é a porcentagem referente ao beneficiamento de carne, que representa apenas 1% do número total de empresas da cadeia de produção. Em contrapartida, 63% são de empresas que comercializam a carne. É possível concluir que a demanda pelo produto carne é alta para este 1% de empresas beneficiadoras de carne de jacaré.

Em relação aos estabelecimentos de produção, Coutinho (2004) afirma que a maioria está localizada no Estado do Mato Grosso. Todavia, é perceptível (conforme a Tabela 3.1) que as atividades de comercialização de carne e pele estão concentradas nos Estados do Sul e Sudeste do país.

Observa-se que a cadeia produtiva não está totalmente organizada no Mato Grosso, ao contrário do que afirmou Coutinho (2006). As atividades de beneficiamento do produto couro estão reunidas no Sul do país, fato este que acarreta custos altos de logística para transporte desse produto, encarecimento do preço final e diminuição da possibilidade de emprego e renda na região originária do produto. Em relação à carne, 70% dos estabelecimentos que comercializam o produto estão localizados no Estado do Rio Grande do Sul, 14% estão na região Sudeste e apenas 6% estão distribuídos entre as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

TABELA 3.1 Distribuição espacial dos estabelecimentos de comercialização de carne e couro de jacaré, com registro no IBAMA.

Região Estado Segmento Carne Segmento Couro

Nordeste AL 1 0 Norte AM 2 0 DF 1 0 MS 2 0 Centro-Oeste MT 1 0 MG 2 1 RJ 1 0 Sudeste SP 13 5 PR 9 1 Sul RS 76 21 TOTAL 108 28 Fonte: Coutinho (2004)

Existe uma desarticulação dos componentes desta cadeia produtiva. O enfraquecimento do programa de manejo como mecanismo de conservação da espécie pode ser o reflexo desta fragmentação de elos (COUTINHO, 2004).

Novas iniciativas para desenvolver a cadeia produtiva do Jacaré do Pantanal na região de Cáceres/MT estão surgindo e serão apresentadas no capítulo 4 desta dissertação.