4 Analyse
4.2 Idealsamfunn
4.2.2 Organisering og styring
Causas Gravidade Diminuição Incompetência Negligência Má fé
Falta de espírito crítico
Mais graves Menos graves
Formação
Comunicação com leitores Curso Superior
Workshops Interpretação do que constitui o nível adequado de rigor
Lapso ou distração Fatores que condicionam incidência de erros Tempo Nº jornalistas na redação Tipo de trabalho Complexidade Tipo de autor
Figura 4.7: Modelo do processo de codificac¸˜ao da macrocategoria Erros matem´aticos
Observando a proporc¸˜ao de erros identificados nos artigos noticiosos — decorrente da an´alise conduzida no ˆambito do primeiro estudo desta investigac¸˜ao — ambos os entrevistados se manifestaram negativamente surpreendidos com os resultados do P´ublico (com erros em cerca de 35% dos artigos que cont´em informac¸˜ao matem´atica).
Comparando os resultados dos v´arios jornais, Manuel Carvalho sugeriu que a diferenc¸a na frequˆencia de erros entre o P´ublico e os outros dois jornais di´arios, em especial em relac¸˜ao ao Jornal de Not´ıcias (com erros em 17,89% dos artigos do jornal analisados), se justifica pela diferenc¸a de complexidade da informac¸˜ao matem´atica utilizada em cada um dos jornais:
Aquilo que eu acho que justifica estes valores, na minha opini˜ao — dando de barato que a competˆencia matem´atica dos nossos jornalistas ´e igual `a de todos os nossos colegas que trabalham nos outros jornais, partindo deste pressuposto — o que justifica que haja esta diferenc¸a ´e que n´os trabalhamos com conceitos matem´aticos e operac¸˜oes matem´aticas muito mais complexas do que o Jornal de Not´ıcias ou o Correio da Manh˜a, porque o n´umero [referindo-se `a proporc¸˜ao de erros] ´e muito parecido com o do Expresso, tendo em conta que a malta do Expresso tem mais
tempo para fazer contas do que n´os.
Na transcric¸˜ao anterior, Manuel Carvalho deixa antever ainda que o fator tempo poder´a justificar variac¸˜oes na frequˆencia com que ocorrem erros. Todavia, e n˜ao descartando a influˆencia deste fator, Andreia Azevedo Soares considera que o tempo pode ser uma ideia falaciosa, tendo em conta o impacto da conjuntura econ´omica atual nas redac¸˜oes:
Eu acho que essa ideia do tempo pode ser falaciosa porque, em tempos de crise, tamb´em ´e verdade que as redac¸˜oes s˜ao proporcionais ao trabalho que se faz... eu nunca calculei isso, mas acho que a redac¸˜ao do Expresso n˜ao deve ser t˜ao grande como a do P´ublico (...).
A editora acrescenta ainda que o tipo de trabalho tamb´em pode condicionar a existˆencia de erros:
Outra coisa a ter em conta ´e o facto de que, se vais fazer mais trabalho de fundo, em teoria s˜ao trabalhos mais pensados.
Para al´em do tempo e do tipo de trabalho, Andreia Azevedo Soares considera que o tipo de autor tamb´em ´e relevante. Em particular, ela refere que os artigos provenientes de agˆencias tˆem potencialmente mais erros que os outros:
Com maior frequˆencia eu tenho de corrigir erros da Lusa. N˜ao quer dizer que a Lusa esteja errada, o que eu quero dizer ´e que n´os n˜ao temos controlo da produc¸˜ao, est´as a usar um material como teu mas que n˜ao ´e teu. Isto influencia muito, n˜ao porque eles sejam piores, mas porque eu acho que eles s˜ao menos especialistas, na Lusa. Quando ´es jornalista de uma agˆencia vais fazer tudo. At´e podes ter malta que ´e mais de economia, mas fazes muitas coisas ao mesmo tempo e depois a press˜ao ´e muito maior, as coisas est˜ao sempre a sair.
Em acr´escimo aos fatores que condicionam a frequˆencia com que ocorrem erros, os en- trevistados abordam raz˜oes que justificam a existˆencia dos mesmos e que n˜ao se devem a constrangimentos do trabalho em redac¸˜ao mas sim a algo que ´e relativo aos jornalistas. Manuel Carvalho salienta, em particular, a falta de competˆencia matem´atica dos jornalistas que produzem e que fazem a revis˜ao e controlo dos artigos:
H´a colegas que tˆem dificuldade em entender a l´ogica de uma regra de 3 simples. Escrevem textos absolutamente sofisticados que requerem n´ıveis de compreens˜ao dos factos e de an´alise, de racioc´ınio e de inteligˆencia extraordin´arios. P˜oem-lhe uma operac¸˜ao matem´atica `a frente, uma divis˜ao com trˆes algarismos no divisor, estraga tudo.
Segundo o editor, este ´e um problema decorrente da formac¸˜ao dos jornalistas:
Nalguns cursos de jornalismo existe uma cadeira do tipo Introduc¸˜ao `a Economia, n˜ao existe em todos e, portanto, durante toda a formac¸˜ao superior os jornalistas podem pegar uma vez ou duas em n´umeros e chegam `a profiss˜ao completamente afastados daquilo que ´e a necessidade da matem´atica.
e da grande variedade e quantidade de temas que um jornalista deve dominar:
N´os temos de saber montes de coisas: temos de saber de pol´ıtica, de economia, de hist´oria, de ciˆencia pol´ıtica, de ideias, de hist´oria das ideias, h´a uma vastid˜ao enorme de ferramentas que temos de ter para entender aquilo que ´e o mundo e a matem´atica ´e mais uma.
No que diz respeito a erros que ocorrem na construc¸˜ao de gr´aficos, Manuel Carvalho aponta como causas a distrac¸˜ao e, principalmente, a incompetˆencia matem´atica do jornalista. J´a no que se refere a erros de omiss˜ao de informac¸˜ao matem´atica, o editor afirma que estes ocorrem porque o pr´oprio objetivo em jornalismo n˜ao ´e que as not´ıcias tenham “rigor” acad´emico:
Os [erros] mais not´orios s˜ao as omiss˜oes, mas por uma raz˜ao simples. Isto para n´os n˜ao ´e um problema, ´e um dado adquirido porque, repare, n˜ao temos a pretens˜ao de fazer trabalhos de rigor cient´ıfico e acad´emico. O jornal ´e uma coisa que se imprime num papel e que no dia seguinte serve para embrulhar peixe, como n´os dizemos muitas vezes.
No entanto, ele refere tamb´em que, pelo facto da informac¸˜ao estar omissa, n˜ao quer dizer que n˜ao tenha sido levada em conta como crit´erio para decidir se uma informac¸˜ao que chega `a redac¸˜ao ´e utilizada para produzir uma not´ıcia ou n˜ao.
N˜ao vamos fazer nada sobre isto, n˜ao vamos escrever uma linha sobre este estudo, sobre esta coisa que aqui temos nas m˜aos porque a amostra ´e muito pequena, irrelevante (...). Portanto, quando chegamos `a decis˜ao da publicac¸˜ao este tipo de crit´erios j´a foi analisado.
Por sua vez, Andreia Azevedo Soares considera que a omiss˜ao de informac¸˜ao, nomeadamente do m´etodo de amostragem usado num estudo, pode dever-se a ignorˆancia, negligˆencia ou a m´a f´e do jornalista, dependendo do que se pretende comunicar. No caso particular dos erros em operac¸˜oes aritm´eticas, a editora considera que estes constituem distrac¸˜oes que podem escapar `a atenc¸˜ao das entidades de controlo.
No que se refere `a percec¸˜ao da gravidade dos tipos de erros mais frequentes em not´ıcias de jornais portugueses, verifica-se que n˜ao existe concordˆancia entre os dois editores. Manuel Carvalho considera que os erros em operac¸˜oes matem´aticas s˜ao os mais graves.
Erros em operac¸˜oes aritm´eticas ´e claramente o mais grave por uma raz˜ao muito simples, porque subverte completamente a not´ıcia. Se no resultado de uma operac¸˜ao me diz que s˜ao 24 quando de facto a operac¸˜ao, se fosse bem feita eram 33, a not´ıcia est´a errada (...) subverte completamente tudo.
Por sua vez, Andreia Azevedo Soares considera que este tipo de erro, muitas das vezes ´e ´obvio, constituindo um lapso que facilmente o leitor percebe e corrige:
Esses erros em operac¸˜oes aritm´eticas muitas vezes s˜ao ´obvios. ´E da mesma forma como se estiver a faltar uma letra numa palavra, o meu c´erebro completa a letra e eu leio a not´ıcia na mesma. Vejo que existe um erro, mas se s˜ao coisas b´asicas, tipo um 4 em vez de 14 eu digo que n˜ao, n˜ao acho que seja [grave].
Note-se que estas posic¸˜oes n˜ao s˜ao claramente contradit´orias. De facto, enquanto Manuel Carvalho se refere efetivamente a erros em operac¸˜oes, Andreia Azevedo Soares parece referir- se mais a um erro tipogr´afico do que verdadeiramente a um erro numa operac¸˜ao matem´atica. Observa-se ainda que, apesar de n˜ao concordarem quanto ao tipo de erro matem´atico que consideram mais grave, ambos os jornalistas consideram que o erro mais grave ´e aquele que presumivelmente subverte ou modifica a not´ıcia. Segundo Andreia Azevedo Soares os erros que mais subvertem a not´ıcia s˜ao os de omiss˜ao sobre o m´etodo de amostragem e o uso de n´umeros sem significado. Em particular, a editora ilustra o impacto que este segundo tipo de erro pode ter:
H´a uma Cˆamara que acha que tem de combater aquele problema e ent˜ao cria, a n´ıvel municipal, um programa de combate `a droga (...) umas pessoas acham que n˜ao se deve dar metadona, que deve ser a “frio”, outras acham que estamos a usar dinheiro p´ublico para tratar pessoas que n˜ao merecem nada. Enfim, h´a um conjunto de opini˜oes que passam pelo lado pol´ıtico que acabam por condicionar a opini˜ao que eu tenho sobre esse tipo de programas. Agora imagina que eu fac¸o uma not´ıcia a dizer que o programa desta Cˆamara s´o conseguiu recuperar 23% dos toxicodependentes. Esse n´umero pode estar correto, (...) s´o que ´e fundamental dizer qual ´e a taxa, na literatura m´edica, a taxa de reincidˆencia de pessoas deste tipo de grupo, que ´e alt´ıssima (...) se eu for fazer uma not´ıcia, e tentar focar esse dado factual mas n˜ao puser em contexto (...) isso vai ter um peso pol´ıtico muito grande, porque somos n´os, contribuintes, que estamos a pagar a recuperac¸˜ao dessas pessoas (...). ´E fundamental que venha um novo par´agrafo a dizer: “este n´umero
n˜ao destoa muito dos n´umeros mundiais, em que os programas de reabilitac¸˜ao com metadona tˆem taxas de reincidˆencia altas”.
No que se refere ao erro menos grave, Manuel Carvalho defende que ´e a omiss˜ao de informac¸˜ao sobre parˆametros necess´arios `a definic¸˜ao do m´etodo de amostragem ou da populac¸˜ao que serve de base a um estudo. Isto porque, segundo o jornalista, essa informac¸˜ao ´e utilizada a priori como crit´erio de produc¸˜ao de not´ıcias e, portanto, o facto de estar omissa na not´ıcia n˜ao quer dizer que essa informac¸˜ao n˜ao tenha sido ponderada, mas apenas que n˜ao se colocou vis´ıvel no produto final. J´a Andreia Azevedo Soares considera que o erro menos grave ´e a omiss˜ao de grau de confianc¸a ou margem de erro em sondagens, uma vez que, de acordo com ela, “h´a um senso comum de que, numa sondagem, s´o a express˜ao “sondagem” e “intenc¸˜ao de voto” sugerem que n˜ao s˜ao concretas, n˜ao s˜ao factos consumados, s˜ao intenc¸˜oes, tudo aquilo pode mudar”.
Andreia Azevedo Soares destaca ainda que a gravidade de um erro n˜ao depende exclusi- vamente do tipo de incorrec¸˜ao ou omiss˜ao em causa, mas tamb´em da sua localizac¸˜ao na estrutura da not´ıcia:
Por exemplo o uso de n´umeros sem associar o verdadeiro significado que tem no contexto da not´ıcia: se este n´umero em causa for um n´umero que me d´a o t´ıtulo ou o lead, tem uma gravidade que ´e maior do que se for um detalhe na not´ıcia. Dentro dos pr´oprios erros ´e vari´avel.
Para al´em de se pronunciarem sobre os erros matem´aticos que se identificam nas not´ıcias e as suas causas, os entrevistados apontaram ainda sugest˜oes que julgam promover a diminuic¸˜ao da incidˆencia de erros. Neste ˆambito, Manuel Carvalho expressa a necessidade de um maior investimento dos cursos de comunicac¸˜ao na formac¸˜ao matem´atica dos seus alunos:
Eu comec¸o a achar que nos cursos de comunicac¸˜ao social ´e necess´ario que as pessoas saibam mais de economia, mais de estat´ıstica e que saibam necessari- amente mais de matem´atica.(...) Eu acho que na estrutura curricular dos cursos tem que haver disciplinas de introduc¸˜ao `a economia e de introduc¸˜ao `a estat´ıstica, ou colocar a estat´ıstica no meio da economia, porque ´e uma forma das pessoas se familiarizarem com operac¸˜oes b´asicas. Porque de facto, em quest˜oes mais relacionadas com economia, com estudos, com sondagens, estat´ısticas, ´e isso que
´e [importante].
Tamb´em Andreia Azevedo Soares salienta a importˆancia de um maior investimento na formac¸˜ao matem´atica, e cient´ıfica em geral, dos futuros profissionais de comunicac¸˜ao, a par da contribuic¸˜ao de leitores e pessoas com bom n´ıvel de numeracia que, por meio do contacto com os jornalistas, podem expor os erros identificados. A editora considera ainda que se poderia estimular a
diminuic¸˜ao de erros se se estabelecessem parcerias entre os jornais e entidades como a Sociedade Portuguesa de Matem´atica para que se organizassem formac¸˜oes gratuitas de curta durac¸˜ao, tais como workshops, com o prop´osito de abordar alguns dos problemas identificados na utilizac¸˜ao da matem´atica nas not´ıcias.