5. Analyse & Funn
5.2.1 Organisatoriske årsaker
Os operadores analíticos serão elementos norteadores de nosso olhar para certas narrativas jornalísticas televisivas, reunidas segundo critérios que ainda cabe esclarecer. O primeiro deles diz respeito à frequente convocação de testemunhos, o que se traduz numa presença constante de testemunhas e depoimentos tanto de sujeitos em situações de vulnerabilidade quanto dos próprios apresentadores, jornalistas e repórteres. O segundo critério diz respeito ao recorte temático das edições escolhidas, que tratam do uso e do vício em crack como um problema social. Na trajetória desta pesquisa, a proposta de reunir as narrativas em torno do uso radical do crack e das situações de sofrimento geradas pelo vício na pedra é posterior à escolha dos programas televisivos, e só se mostrou decisiva no momento de recorte das edições de cada programa.
Essas narrativas se tornaram provocativas a respeito do problema do testemunho do sofrimento, em especial das questões estéticas e políticas relativas à testemunhalidade midiática e às narrativas televisivas. Interessamo-nos, num primeiro momento, pelo programa A Liga, exibido pela Rede Bandeirantes desde 2010, e mais especificamente pela edição de 21 de junho de 2011, na qual o tema era o vício em crack. Posteriormente, o Profissão Repórter, exibido pela Rede Globo desde 2008, também chamou nossa atenção, principalmente pela edição de 19 de julho de 2011, em que não por acaso o tema era o uso de drogas por crianças e adolescentes, recebendo o crack uma atenção específica. E, por último, acompanhamos a
estreia do programa A verdade de cada um, em 20 de março de 2013, no canal National Geographic, cuja primeira edição também tratava do vício em crack.
A despeito das diferenças relativas às construções textuais e narrativas – sendo o Profissão Repórter de cariz jornalístico mais evidente, A Liga um programa de perfil jornalístico-documental e A verdade de cada um produção telejornalística marcada por elementos do cinema documental –, os três programas nos parecem valiosos “lugares de observação” das problemáticas relativas ao testemunho abertas pelas narrativas jornalísticas televisivas, valendo-se com frequência da exibição do sofrimento dos sujeitos e apontando para outras questões suscitadas pela abordagem a partir do testemunho, tais como a recém- percebida mudança de postura dos jornalistas, revelando-se cada vez mais como atores do acontecimento narrado e, assim, agentes, sofredores e personagens daquelas histórias.
O programa A Liga é vinculado ao núcleo de entretenimento da Rede Bandeirantes. É uma versão brasileira do programa La Liga, da rede Telefe, e desenvolvido pela produtora Eyeworks-Cuatro Cabezas. Como percebe Costa (2010), é importante ressaltar que a atração não está vinculada ao núcleo de jornalismo da emissora, embora seus apresentadores sejam definidos na descrição do programa como repórteres, alguns dos quais são jornalistas de formação, como Rafinha Bastos (das temporadas 2010, 2011 e 2013) e Tainá Müller (temporada 2010), outros não, como o rapper Thaíde (desde 2010) e a modelo Mariana Weickert (desde 2013). Cada edição de A Liga privilegia um tema. Após uma breve apresentação, o programa exibe histórias intercaladas, em formato de reportagens conduzidas por cada um dos repórteres apresentadores, cuja missão, como ressalta Costa (2010), é mergulhar de maneira convincente em “um mundo do qual nunca fizeram parte”.
Em suas reportagens, A Liga tenta promover uma imersão dos jornalistas-narradores no mundo por eles retratado – e, ao mesmo tempo e consequentemente, promove uma forma de imersão dos espectadores nesse mundo. É certo que também a incursão dos jornalistas em determinados mundos constitui estratégia de autenticação da realidade configurada narrativamente. Entretanto, o que nos interessa são as consequências dessas estratégias para a compreensão do testemunho midiático do sofrimento como possibilidade de realizar esse encontro de mundos aparentemente distintos, ou mesmo desse encontro com o outro em seu próprio mundo, no limite em que revela-se não tão próprio assim.
O Profissão Repórter é um programa jornalístico exibido semanalmente desde 2008 pela TV Globo, a partir da evolução de um quadro no Fantástico. O programa trata de tabus, questões sociais de pouca visibilidade ou abordadas sob um único viés, assim como de temas contemporâneos urgentes, que merecem maior tempo de investigação e uma abordagem mais
plural, de modo a contemplar pontos de vista e personagens diversos. Imputa-se o objetivo de revelar “os bastidores da notícia, os desafios da reportagem” (HAMBURGER, 2012). O Profissão Repórter também mantém, em graus que variam edição por edição, certo tom professoral a respeito da prática da reportagem jornalística, adotando certo perfil didático ao reunir repórteres iniciantes sob a tutela do jornalista Caco Barcellos, na figura do profissional veterano.
O Profissão Repórter, assim como o programa A Liga, possui o formato de uma reportagem jornalística. Inicia-se geralmente com imagens dos repórteres em campo, ou dos personagens que integrarão as histórias que serão contadas na respectiva edição. Em seguida, intercala as reportagens e os depoimentos dos personagens, com pequenas interrupções feitas em estúdio, nas quais o jornalista veterano interpela os repórteres sobre determinados momentos da gravação da reportagem, questionando-os sobre a tomada de decisões profissionais e técnicas, mas também sobre as experiências que viveram e os encontros com os personagens.
O programa A verdade de cada um é uma produção da O2 Filmes, do cineasta Fernando Meirelles, com cinco episódios, exibidos no Brasil pelo canal de TV a cabo National Geographic (ABOS, 2015). Trata-se de uma série de documentários jornalísticos cuja proposta é a abordagem de um tema problemático, em torno do qual gravitam posicionamentos, percepções, opiniões, "verdades" diferentes. O programa não possui âncoras nem repórteres. A apresentação e o argumento são conduzidos apelas por voz off, intercalada pelos depoimentos dos personagens e imagens.
O programa A verdade de cada um tenta fugir de uma lógica de delegação da fala que privilegia o par apresentadores e especialistas. Ao reunir os depoimentos de pessoas diretamente envolvidas com os temas, a série busca organizar e equilibrar as diferentes visões e percepções sobre os assuntos, sem necessariamente privilegiar uma ou outra abordagem. No caso da edição sobre o crack, como veremos mais adiante, o programa é conduzido a partir das entrevistas intercaladas concedidas por dependentes, familiares de usuários, um policial e um psicólogo adepto da política de redução de danos.
Embora tenham estratégias narrativas distintas e lancem mão de operações particulares de montagem e edição, os programas A Liga, Profissão Repórter e A verdade de cada um assemelham-se em pelo menos um aspecto: o modo como definem suas propostas e objetivos.
A Liga: "A missão de cada membro da equipe é individual: mergulhar no fato
intensamente, sofrendo, sorrindo, se emocionando e superando a si mesmo para sentir na pele a realidade vivida pelos verdadeiros protagonistas de cada história. [...] Para contar uma história sob a perspectiva de quem a vive só há um jeito, ir ao
encontro dela. [...] Ao participarem de um mundo do qual nunca fizeram parte, a indiferença vai embora". (COSTA, 2010, p. 2)
Profissão Repórter: "Encontrar nossas histórias nos conflitos, nas alegrias, nos
dramas que as pessoas vivem. E é na rua, na hora de gravar, que vamos descobrir as dificuldades de fazer a matéria". (SOARES; GOMES, 2012, p. 13-14)
A verdade de cada um: "Nossa ideia foi confrontar visões de pessoas que vivem
questões polêmicas no Brasil hoje, gerando dúvidas mais do que afirmando certezas. Não entrevistamos especialistas. Ninguém paira sobre os assuntos. E não defendemos pontos de vista. Apostamos no confronto de opiniões como um estímulo à reflexão". (ABOS, 2013)
Para além do discurso jornalístico da imparcialidade e da reunião de diferentes pontos de vista como garantia de certa pluralidade (e, talvez, totalidade), as propostas dessas produções televisivas coincidem na aposta de narrar e promover certo confronto com realidades, histórias e experiências, a partir da ênfase nos sujeitos que delas fazem parte e podem dar testemunho - sejam eles indivíduos ordinários, sejam eles os próprios jornalistas. O foco não recai sobre qualquer tema, tampouco sobre qualquer sujeito. Trata-se de questões problemáticas, para as quais tenta-se empreender abordagens sob diferentes prismas, confiando a determinados indivíduos o papel de partilhar de seus dramas, sofrimentos, mundos.
Sem nenhuma pretensão de amostragem, a escolha por uma única edição de cada programa telejornalístico, as quais foram agrupadas em torno da problemática do uso compulsivo do crack, busca responder a pelo menos duas expectativas: a de que as edições escolhidas reúnem pistas suficientes para perseguirmos nossas questões acerca dos problemas éticos que atravessam os regimes jornalísticos do ver e do dizer no que tange o testemunho do sofrimento; e a de que a escolha de três programas distintos, com diferentes propostas e escrituras peculiares, seja suficiente para garantir que as indagações suscitadas no trabalho sejam confrontadas com uma variedade razoável de manifestações do fenômeno sob escrutínio.
CAP ÍTU LO V
Te s te m u n h o s d o c ra c k n a te le vis ã o
Ah, dá saudade, né, véio. Do amor, assim, alguém que tem importância com ocê, se preocupa com ocê. Isso daí não é vida para ninguém, ó, nêgo. É que usuário é foda, né, véio. O baguio vicia, é gostoso, da hora. Eu quero acabar a reportagem fumando umas dez, vinte, cem, fumar até um quilo, até morrer de fumar, véio.