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PART II: NOKUT

2.2 Organisation

Constatamos nesta pesquisa que o discurso utilizado por Nísia Floresta em seus relatos de viagem é, de fato, o de uma mulher que lutou pelos seus ideais, que não se importou com a opinião alheia e não se entregou a tristeza que sentia. A autora não se limitou a abordar apenas um tema em sua vida, discursando assim, sobre vários assuntos. Se as obras de Nísia trouxeram contribuições para a nossa literatura, consequentemente, também trouxe para os norte-rio-grandenses muitas contribuições, não apenas a nível literário, como também, um certo tipo de “reconhecimento” para o estado.

O fato de Nísia não se limitar somente ao discurso de viajante em seus relatos de viagem, proporciona diversas possibilidades de pesquisa aos leitores que por ventura queiram explorar e conhecer um pouco mais sobre a autora e suas obras. Além de discursar sobre diferentes temas nesses relatos, ao compartilhar com os leitores as suas experiências de viagem, ela inovou mais uma vez, pois foi uma brasileira que fez na Europa o que os europeus costumavam fazer, também, no Brasil. Não encontramos registros na literatura brasileira de uma mulher que tenha feito no século XIX o que Nísia fez, relatar viagens feitas pela Europa. Eram comuns os registros de homens fazendo esse tipo de literatura, uma vez que esse tipo de escritura estava muito em voga na época.

A análise do discurso literário nos proporcionou muitas portas de entrada para compreendermos um pouco mais sobre o universo nisiano. Vimos que, apesar dos relatos de viagem de Nísia Floresta apresentarem algumas características que os diferenciam, o que é normal pelo fato de terem sido escritos em momentos e contextos diferentes, a semelhança entre eles é notória, principalmente no que tange aos assuntos ali tratados ou os discursos adotados pela autora.

De fato, um dos aspectos mais marcantes que se apresentam nesses relatos, principalmente no primeiro, Itinéraire, é o discurso autobiográfico. O sentimento de solidão, talvez tenha motivado Nísia a empreender tais viagens, e por fim, a relatá-las, fosse por meio de cartas, fosse por meio de anotações diárias, que mais tarde, transformar-se-iam em um livro. Apesar de o Itinéraire apresentar mais claramente esse

discurso, Trois ans também nos traz muitas informações de ordem autobiográfica, fragmentos que revelam os sentimentos da autora enquanto mulher, mãe, filha e esposa.

A partir dos estudos que realizamos acerca da autobiografia, sobretudo do ponto de vista de Philippe Lejeune, um dos maiores estudiosos no assunto, tivemos a confirmação que, de fato, os relatos de viagem de Nísia podem ser considerados, também, como textos autobiográficos. Apesar de algumas divergências entre os elementos elencados por Lejeune para que uma obra seja autobiográfica, isso não exclui todas as marcas pessoais deixadas por Nísia em seus relatos. Também verificamos a presença do pacto autobiográfico nesses relatos, condição essencial, segundo Lejeune, para que haja autobiografia. Desse modo, podemos dizer que essas obras são narrativas de viagem, mas que estão carregadas dos mais íntimos sentimentos da autora, que os revela a cada página, permitindo assim, que os leitores compartilhem, de certa forma, da sua intimidade.

Além do discurso autobiográfico, também podemos encontrar a presença de outros discursos, entre eles, o discurso político e o histórico. Como afirmou Ute Heidmann (2010) sobre a perspectiva da problemática do gênero, um texto em si não pertence a um gênero, mas é posto em relação com um ou vários gêneros, o que podemos verificar claramente nas narrativas de Nísia. Esse posicionamento de Heidmann nos lembra a noção de discurso constituinte, trazida por Maingueneau (2006), em que o linguista afirma poder haver a presença de vários discursos em uma obra.

A noção de archeion, também trazida por Maingueneau, nos mostrou que um autor pode ter a intenção de escrever sobre determinado tema, mas provavelmente, seu discurso estará interligado a outros. Isso pode ser observado nas obras aqui analisadas, pois Nísia escreveu dois relatos de viagem, mas esses relatos trazem marcas de outros gêneros, como o epistolar, a escritura fragmentária e a autobiografia, esses tipos de escrita se entrecruzam, pois o epistolar ou mesmo o relato de viagem, do modo como Nísia registrou, demandam a fragmentação.

Assim, os corpora aqui analisados, não são simples narrativas de viagem, descrevendo apenas cidades, paisagens, ruínas, museus, bailes, igrejas, mas um momento de reflexão, da autora e de suas angústias, medos, alegrias, assim como, também, de problemas sociais vividos na época, tais como a educação feminina, a

escravidão, o difícil momento vivido pelos italianos, entre outros que podem ser lidos nas páginas desses “diários” de viagem.

Vimos a crítica feita por Maingueneau (2006) às pessoas que julgam as obras e tendem a classificá-las como boas ou ruins. Para nós, o fato de a autora ter adotado um gênero (relato de viagem) ou gêneros (epistolar, autobiografia, escritura fragmentária), na maioria das vezes, considerados “menores”, não afeta o mérito literário dessas narrativas, nem diminui a importância que Nísia Floresta tem para a literatura brasileira, principalmente, a norte-rio-grandense. Desse modo, estamos satisfeitos com o trabalho que realizamos e esperamos ter contribuído para divulgar um pouco mais, não apenas de sua obra, mas de sua personalidade, mostrando assim aos leitores, quem foi Nísia Floresta Brasileira Augusta.

Encerramos este trabalho com um fragmento que demonstra bem o constante sentimento de Nísia, dividido entre a sua família e as viagens que lhe traziam tanto prazer:

Deux grandes puissances se heurtent constamment en moi : l‟esprit qui aspire à tout voir, à tout connaître chez les divers peuples, et le coeur que rien ne contente loin de la patrie et du foyer de la famille, la famille qui fut et qui sera toujours mon amour prédominant. (FLORESTA, 1872, p. 217)139

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Duas grandes forças se chocam constantemente em mim: o espírito que aspira tudo ver, tudo conhecer junto aos povos diversos, e o coração que nada contenta longe da pátria e do lar da família, a família que foi e que será sempre meu amor predominante.