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partir da obra de Dioscórides, durante sécu- los, passou-se a conceber a Matéria Médica como o conjunto de conhecimentos sobre as propriedades terapêuticas de substâncias usadas na medicina. Numa perspectiva mais ampla, passou a ser compreendida como o estudo dos agentes, aplicações, nomes, origens, habitat, famílias, características fí- sicas, métodos de obtenção, testes de purificação e adulteração, composições, preparações, ações fisioló- gicas, usos terapêuticos, doses normais e letais, anta- gonistas, incompatibilidades e sinergismo das subs- tâncias usadas na medicina, sejam de origem vegetal, animal ou mineral. Originária da evolução conceitual da antiga “matéria médica” atualmente se compreen- de como a moderna Farmacologia.

A Matéria Médica na ciência ocidental foi histori- camente o resultado da apropriação dos saberes tera- pêuticos de antigas civilizações empreendida princi- palmente por Discórides e Plínio “O Antigo” (23 – 79) e racionalizados através dos séculos no que hoje co- nhecemos como Farmacognosia, como uma das prin- cipais áreas da Farmacologia.

Existem muitas coincidências entre os dois autores, a Historia naturalis de Plínio é anterior cronologicamen- te à de Discórides, deve-se concluir que este recolheu muitas informações de outros tratadistas mais antigos. A grande quantidade de coincidências entre ambos faz pensar de que se aproveitaram de uma fonte comum que pode ser a De materia medica de Sextius Niger.

O maior divulgador dos medicamentos estran- geiros em Roma foi o próprio Plínio, através da sua obra na qual colecionou e divulgou prescrições de medicamentos de origem vegetal, animal e mineral. Os medicamentos de origem animal na sua obra são originários da medicina mágica e popular de outros povos. Mesmo que, algumas vezes, tenha confessado a sua repugnância por tais preparações, não deixou de difundi-las.

Modernamente, o conhecimento das populações humanas sobre os processos naturais, tentando des-

cobrir o conhecimento humano acerca do mundo na- tural, as taxonomias, classificações, saberes e práti- cas dos povos de culturas é objetivo da Etnociência.

Entre as etnociências, está a etnobiologia, que trata das percepções, usos e classificação dos homens em relação ao meio ambiente, portanto, uma disciplina voltada ao estu- do do complexo conjunto de relações de plantas e animais com sociedades humanas, presentes ou passadas.

Segundo Elisabetsky (2003) a etnofarmacologia é uma divisão da etnobiologia e pode ser definida como a exploração científica interdisciplinar dos agentes biologicamente ativos, tradicionalmente empregados ou observados pelo homem nos processos de cura. Como estratégia na investigação, a abordagem et- nofarmacológica consiste em combinar informações adquiridas junto a usuários de recursos terapêuticos vegetais ou animais (comunidades e especialistas tra- dicionais), com estudos químicos e farmacológicos.

Portanto, a etnobiologia e suas diversas áreas podem ser encaradas como tentativas de estabeleci- mento de uma nova racionalização das percepções, usos e classificações do complexo conjunto de rela- ções de plantas e animais com sociedades humanas, presentes ou passadas.

No universo dos recursos terapêuticos, a grande maioria é de origem vegetal. Entretanto, os recursos de origem animais têm grande representatividade en- tre todas as culturas humanas e resultaram no estabe- lecimento da hipótese da universalidade zooterápica, segundo a qual toda cultura que apresenta sistema médico desenvolvido utiliza animais como remédios (MARQUES, 1994).

A zooterapia ou o tratamento de doenças humanas pelo uso de recursos obtidos de animais ou que deles são derivados, caracteriza-se como um fenômeno his- toricamente antigo e geograficamente disseminado. Remédios elaborados a partir de partes do corpo do animal, de produtos de seu metabolismo, como secre- ções corporais e excrementos, ou de materiais cons- truídos por eles, como ninhos e casulos, vêm sendo

utilizados desde a antiguidade. O uso de substâncias animais deve ser compreendido segundo uma pers- pectiva cultural, uma vez que sistemas médicos são organizados enquanto sistemas culturais (COSTA-NE- TO, 1999).

Historicamente Lineu (1707-1778) pode ser consi- derado como um dos mais destacados representantes na tentativa de racionalização dos conhecimentos empíricos sobre recursos terapêuticos dos povos tra- dicionais para serem apropriados pela Farmacologia. Sua obra Materia medica é exemplo marcante disto.

Para o Reino Animal usou do seu sistema classifi- catório em classes, ordens, gêneros e espécies origi- nalmente descritos na obra Systema naturae, iniciando a sua exposição pela classe dos mamíferos (no caso o próprio homem) até a classe dos vermes, onde descre- ve os locais de ocorrência, denominações farmacoló- gicas, partes usadas, qualidades, indicações de uso e a composição dos medicamentos. Quando havia dúvida sobre as indicações terapêuticas ele usou acentos de interrogação em cada uma das enfermidades (LINNÉ, 1782, pp. 3-32) (quadro 1).

Pode-se supor que a maior parte das indicações era proveniente dos autores consultados (entre os quais o próprio Discórides), as interrogações corres- ponderiam ao uso empírico das práticas de cura po- pulares. Isto é, pela via da racionalização, do empírico ao racional.

Carolus Linnaeus (Carl von Linné, ou Carlos Li- neu), foi um botânico, zoólogo e médico sueco, criador da nomenclatura binomial e da classificação biológica dos seres vivos. Na sua obra Systema Naturae desenvol- veu seu sistema dividindo a Natureza em três reinos:

Animalia, Vegetalia e Mineralia. A obra foi publicada em

latim, com a primeira edição de Leiden em 1735 e con- tinha apenas 14 páginas. Na sua 13ª edição, em 1770, tinha já 3000 páginas. A 10ª edição do Systema Naturae de 1758 é o trabalho que iniciou a aplicação geral da nomenclatura binomial zoológica. Portanto, o ano de 1758 é aceito como ponto de partida da nomenclatura zoológica e da lei da prioridade.

Lineu influenciou profundamente a História Natu- ral do século XVIII e XIX. O naturalista manteve por todo o mundo um vasto rol de correspondentes e cola- boradores do seu projeto de catalogação universal da natureza. Seu extenso conhecimento sobre a flora e fauna das mais longínquas regiões se devia ao material enviado por seus discípulos que se ocuparam de cole- tar por todo mundo os mais diversos materiais desti- nados aos jardins, herbários e coleções de Uppsala. Na medida em que seu sistema foi se tornando hegemôni- co, foi adotado por gerações de naturalistas.

A sua obra Systema naturae foi o referencial teóri- co mais importante para o fundamento dos estudos botânicos e zoológicos de gerações de naturalistas, que de acordo com a mentalidade enciclopedista da época, estabelecia um sistema de classificação que passaria a “dar ordem ao caos do mundo” (CRUZ, 2002; ALMEIDA et al., 2008).

A partir desta perspectiva passou-se a acreditar que era possível criar uma linguagem universal e rigorosa, sistemas de descrição e de classificação em que a especificidade e a individualidade de cada espécie, em cada reino, apenas fazem sentido en- quanto características de elementos que integram a totalidade do mundo natural (CARDOSO, 2003; ALMEIDA et al., 2008).

Para Lineu, na crença comum à sua época sobre a ordem estática da natureza, identificar, ordenar, classificar e nomear eram os processos centrais do trabalho do naturalista. Consciente da artificiali- dade de seu sistema, mas não de seus gêneros e es- pécies (as verdadeiras “obras da natureza”) buscou a universalidade de seu sistema tornando-o mais natural possível, refletindo a ordem da criação e codificando processos classificatórios anteriores. Sob esta ótica, Lineu e seus discípulos baseavam a classificação em poucos caracteres “essenciais” en- fatizando aspectos do procedimento taxonômico, facilitadores da identificação. O lema da filosofia de trabalho dos naturalistas de então era “Deus crea- vit: Linnaeus disposuit” (Deus criou; Lineu organi- zou) (BUENO, 2007).

O método do sistema lineano baseava-se em dois pilares: dispositio (classificação) e denominatio (nomenclatura) e o fundamento da nomenclatura é a classificação. Por isso o método da classificação ocupou no seu pensamento o lugar mais destacado. Para ele as verdadeiras ferramentas de trabalho eram a lógica e a definição dos conceitos, idéia de- rivada do pensamento aristotélico do qual foi deve- dor (BUENO, 2007).

Como sugere Posey (1980), do ponto de vista da etnobiologia, o estudo dos documentos históricos ainda inéditos nos arquivos europeus, ainda não traduzidos ou não analisados, aponta possibilida- des futuras para o estabelecimento de “pontes” entre a etnobiologia e a história. É o que tentamos fazer no presente trabalho.

O presente estudo foi realizado com base numa revisão crítica sobre os animais usados na Matéria Médica de Lineu e seus discípulos, bem como em trabalhos atuais sobre a zooterapia po- pular brasileira.

Os animais na matéria médica de Lineu

Quadro 1: Animais medicinais descritos por Lineu e Schreber (1782).

Classes, ordens e

espécies lineanas Locais de origem

Atuais denominações comuns

Partes e preparados Indicações de Enfermidades

Classe I MAMMALIA Primates

1 Homo sapiens homem raspa do crânio, gordura, ossos, urina, sal sanguíneo,

múmias do Egito. epilepsia (?)

Bruta

2 Elephas maximus India elefante raspa dos dentes; carvão

animal. epilepsia; artrite 3 Trichechus manatus América e Ásia peixe-boi pedra da cabeça do peixe-boi (ossos). cálculos; antiespasmódico

Ferae

4 Canis familiaris cão gordura; fezes

(album graecum).

tuberculose; tosses; febre intermitente; cólicas (?); disenteria (?)

5 Canis lupus Europa lobo dentes, fígado, gordura. dentição; hidropsia (?); atrofia (?) 6 Canis vulpes Europa raposa preparado do pulmão;

gordura. tuberculose; contratura

7 Felis catus Europa gato Gordura reumatismo, varíola, panarício.

8 Viverra zibetha Índia civeta folículo entre o ânus e a genitália; matéria sebácea. varíola; escabiose; cólicas; diaforética; impotência masculina.

9 Ursus arctos Europa urso fel; gordura anorexia; epilepsia

10 Ursus meles Suécia e Europa texugo Gordura

Glires

11 Lepus timidus Europa lebre da Eurásia osso do metatarso cólicas (?); pleurite (?); epilepsia (?); dystocia (dificuldade do parto) (?)

12 Castor fiber Lapônia e Canadá castor castóreo; pó; extrato; tintura; secreção oleosa glandular.

histeria; cólicas; vertigem; epilepsia; apoplexia; letargo. 13 Mus musculus Europa rato doméstico pó; fezes purgante contra vermes; stilicidio (?) Pecora

14 Moschus moschiferus China cervo- almiscarado

almíscar, extraído do folículo sub-umbilical do cervo, substância de forte odor, secretada por uma glândula do cervo almiscarado

palpitações; debilidade; cefaléia; cólicas; histeria; raiva.

15 Cervus alces Suécia, Rússia e Canadá veado raspas do chifre e do casco epilepsia (?) 16 Cervus elaphus Europa veado-vermelho

raspas do chifre; ossos, pênis, sangue, medula; banha.

diarréia; disenteria; verminose; disúria; escorbuto; escoriações.

Classes, ordens e

espécies lineanas Locais de origem

Atuais denominações comuns

Partes e preparados Indicações de Enfermidades

17 Cervus tarandus Lapônia caribu raspas do chifre

18 Capra hircus Oriente cabra sangue; sebo pleurite; contusões; tosse. 19 Ovis aries África carneiro fezes; lanolina icterícia; queimaduras; luxações; contusões.

20 Bos taurus Bielo-Rússia, Polônia boi medula; pênis; fel, sebo; manteiga; queijo.

escorbuto, reumatismos, febres, diarréia, disenteria, anorexia, vermes, zumbidos.

Belluae

21 Equus caballus Europa cavalo Testículos pleurites; cólicas (?); menstruação (?); dificuldades do parto (?)

22 Hippopotamus

amphibius Egito hipopótamo Dentes

antiespasmódico (?); epilepsia (?); pleurites (?); hemorragia nasal.

23 Sus scrofa Europa porco dentes; fezes; gordura. pleurite (?); hemorragia nasal (?).

Cete

24 Monodon monocerus Oceano Atlântico narval raspa do dente cefaléia; epilepsia.

25 Balaena mysticetus Oceano Atlântico, Groelândia baleia-da-groelândia Pênis afrodisíaco (?); hemorragias nasais. 26 Physeter macrocephalus Mar da Groelândia cachalote espermacete tosse; diarréia; disenteria.

Classe II AVES Picae

27 Corvus pica Suécia corvo Penas epilepsia (?)

Anseres

28 Anas anser Suécia ganso-doméstico fezes; gordura Icterícia

29 Anas boschas marreco Gordura

Gralae

30 Struthio camelus Deserto da Arábia avestruz casca do ovo cálculos (?)

Gallinae

31 Pavo cristatus Índia pavão Fezes vertigens; epilepsia (?)

32 Phasianus gallus Índia galo doméstico pó da casca do ovo; vitelo; gordura cálculos; disenteria; tosse; perda da voz. 33 Tetrao perdix Europa perdiz defumação da queima

das penas epilepsia; histeria.

Passeres

34 Columba oenas Europa, Ásia e América pombo-bravo Fezes 35 Hirundo urbica Europa andorinha-dos-beirais

Classe III AMPHIBIA Reptilia

36 Rana temporaria Pântanos da Europa rã européia cataplasma de esperma inflamações; erisipela; queimaduras.

Classes, ordens e

espécies lineanas Locais de origem

Atuais denominações comuns

Partes e preparados Indicações de Enfermidades

37 Rana bufo Europa sapo Pele panarício; hemorragia (?); congestão (?) 38 Lacerta stincus Egito lagarto Carne afrodisíaco (?); diurético (?);

impotência masculina (?).

Serpentes

39 Coluber vipera Egito víbora egípcia pele, pó, ossos, pedaços do corpo, gordura. sífilis; lepra, escabiose; envenenamento (?); oftalmias; câncer de pele.

40 Coluber natrix Europa serpente espinha dorsal, pele, gordura. dificuldade do parto (?); hidropsia (?); feridas (?)

Nantes

41 Acipenser sturio Mar da Europa esturjão Cauda Disenteria

Classe IV PISCES Thoracici

42 Perca fluviatis perca pedras da cabeça pleurite (?); cólicas (?)

Abdominales

43 Esox lucius lúcio europeu preparado da mandíbula, gordura pleurite (?); disenteria; feridas. 44 Cyprinus carpio Europa carpa pedras da cabeça epilepsia (?); pelurite (?); cólicas

(?); cálculos renais (?)

Classe V INSECTA Coleoptera

45 Lucanus cervus Europa besouro Cornos dificuldade do parto (?) 46 Meloe vesicatorius Europa besouro pó de cantáridas

ação vesicatória externa; hidrofobia; gonorréia; pleurite; oftalmias; paralisia; asma; úlceras.

Hemiptera

47 Coccus ilicis Europa cochonilha-do-

carvalho tintura de Chermes. tratamento de abortos. 48 Coccus cacti Em cactos da América cochonilha tintura vermelha hidropsia; febres malignas; retenção urinária.

Lepidoptera

49 Phalaena mori China bicho-da-seda Seda epilepsia (?); hemorragias (?).

Hymenoptera

50 Cynips rosa Suécia bicho–das-galhas Galhas hemorragias.

51 Cynips querqus Turquia bicho–das-galhas Galhas hemorragias.

52 Apis mellifica Polônia abelha cera, própolis, mel expectorante; diurético; digestivo; emoliente. 53 Formica rufa Em florestas formiga vermelha corpos moídos paralisias.

Aptera

54 Aranea domestica aranha doméstica Teia ferimentos.

Classes, ordens e

espécies lineanas Locais de origem

Atuais denominações comuns

Partes e preparados Indicações de Enfermidades

56 Cancer pagurus oceanos sapateira pó da carapaça Hipocondria 57 Cancer astacus Lagos e rios da

Europa lagostim pó de olhos hipocondria; pleurites. 58 Oniscus aselleus tatuzinho preparado de corpos icterícia; asma; dificuldade de micção; nefrites.

Classe VI VERMES Intestina

59 Lumbricus terrestris minhoca preparado em pó dos

corpos espasmos; escorbuto; artrites. 60 Hirudo medicinalis Águas estagnadas sanguessuga aplicação tópica hemorróidas.

Mollusca

61 Sepia officinalis oceanos siba preparado em pó gonorréia; leucorréia; febre intermitente.

Testacea

62 Ostrea edulis oceanos ostra pó de conchas

63 Mytilus margaritiferus Oceanos e Índia ostra pó de pérolas infecção respiratória. 64 Helix pomatia Europa caramujo concha e opérculo

65 Dentalium entalis Oceano próximo da Suécia marisco Concha

Lithophyta

66 Madrepora oculata Mar Tirreno coral Preparado do corpo infecção respiratória

Zoophyta

67 Isis nobilis Mar Mediterrâneo coral tintura preparada dos

corpos Leucorréia

68 Spongia officinalis Mar Mediterrâneo esponja cinzas do corpo úlcera; tumor ovariano. 69 Corallina officinalis Oceano Atlântico e Noroega alga calcárea vermelha (?) pó anti-helmíntico.

Da aplicação dos conhecimentos botânicos de Li- neu à terapêutica nasceu a obra Materia Medica (Liber

I. De plantis, Estocolmo, 1749), um tratado clássico de

farmacologia onde recolhe nomes e sinônimos de um bom número de plantas medicinais, com alusão aos seus locais de origem e indicação das doses que de- veriam ser administradas, os efeitos terapêuticos es- perados e as enfermidades para as quais se recomen- davam. Bastante tempo depois, Lineu completaria tal obra estudando a utilidade terapêutica de animais e minerais, sendo então os livros agrupados em um só volume de Materia Medica (Liber II De animalibus et Liber

III De mineralibus, Estocolmo, 1763) (BUENO, 2007). Por três vezes Lineu tratou de animais na Maté- ria Médica, na primeira, orientando a tese de douto- ramento de Jonas Sidrén (1723-1799) em 1750, depois professor de medicina e anatomia da Universidade

de Uppsala, na qual fez um minucioso registro de 67 recursos zooterápicos; numa segunda vez, em obra própria de 1763 quando registrou 70 recursos zoote- rápicos e pela terceira vez, com seu discípulo Johann Christian Daniel von Schreber (1739-1810) botânico, zoólogo e micologista alemão, que num trabalho mais completo envolvendo a matéria médica dos três rei- nos, vegetal, animal e mineral. Para o reino animal registrou 69 recursos zooterápicos.

Nas normas acadêmicas vigentes na época na Universidade de Uppsala, o orientador era o respon- sável pelas idéias e textos das dissertações e teses, li- mitando-se o orientado a defesa do projeto argüido pelo mestre. Tratam-se, portanto, de textos lineanos, ainda quando o nome do orientado figure nos títulos dos trabalhos (como no caso de Sidrén e Schreber), na maior parte dos casos limitados a uma dezena de pá-

ginas com uma tiragem reduzida e restrita a defesa (Bueno, 2007). Na maior parte das vezes, estes traba- lhos dos orientados de Lineu eram publicados e divul- gados na série intitulada Ammoenitates academicae (Amenidades acadêmicas).

O conteúdo dos três trabalhos é muito semelhan- te, na disposição classificatória das classes, nas es- pécies indicadas, nas partes usadas, qualidades e na prescrição das doenças. A única diferença notável é na organização das ordens nas classes lineanas, por exemplo, no trabalho de Sidrén as ordens não são citadas, das classes passa-se direto aos gêneros e es- pécies, cuja nomenclatura não é binominal; a primei- ra classe no trabalho de Sidrén é a dos quadrúpedes (Quadrupedia) e nos trabalhos posteriores é a dos mamíferos (Mammalia); os cetáceos estão incluídos entre os peixes no trabalho de Sidrén, enquanto no de Lineu e Schreber estes são incluídos entre os ma- míferos na Ordem CETE, refletindo a evolução classi- ficatória do sistema lineano.

É indiscutível que o trabalho de Sidrén orientada por Lineu em 1750, tenha servido de base aos traba- lhos posteriores ao dele.

Grande parte das espécies citadas é de origem eu- ropéia, africana ou asiática. Com apenas cinco ame- ricanas, entre as quais, o peixe-boi, o castor, o veado, o pombo-bravo e a cochonilha-da-palma (quadro 1). Algumas não têm indicações de enfermidades, tais como as de números 10, 17, 29, 34, 35, 62, 64 e 65.

Uma das enfermidades mais indicadas na Matéria Médica de Lineu e discípulos é a epilepsia, com 13 in- dicações, refletindo a importância da enfermidade no século XVIII.

Atualmente na zooterapia popular brasileira os animais usados no tratamento da epilepsia são refe- renciados pela pesquisa etnozoológica, tais como, no Norte do Brasil, os defumadores de penas de diver- sas aves silvestres (Tinamus sp., Psophia sp., Crax spp.), pêlos de “raposas” (Didelphidae) e do tamanduá ban- deira, o ninho do caurezinho, o “breu” do sapo cunua- ru e a gordura do boto, de jacarés (banha, dente e cou- ro) do “jacaré-tinga” e do “jacaré-açu” (SILVA, 2008). No Nordeste do Brasil, as penas do “zabelê”, o coração do “urubu de cabeça vermelha” e “urubu de cabeça preta” e o ninho da “garrincha” (COSTA NETO, 2009). O pó das cinzas do “caranguejo aratu”, e do besouro Quadro 2: Prescrições zooterápicas usadas no tratamento

e prevenção da epilepsia pela zooterapia popular brasileira.

Denominações populares Partes e formas usadas Possível identificação de famílias e espécies

1 Barata-de-coqueiro pó das cinzas Coraliomela brunnea Thumberg, 1821. Chrysomelidae. 2 Caranguejo aratu pó das cinzas Aratus pisonii (H. Milne Edwards, 1837). Grapsidae. 3 Sapo cunuaru “breu” Phrynohyas resinifictrix (Goeldi, 1907), Hilidae

4 Jacaré-tinga banha, dentes e couro Caiman crocodilus (L., 1758), Alligatoridae. 5 Jacaré-açu banha, dentes e couro Melanosuchus niger Alligatoridae. Spix, 1825,

6 Macuco defumador de penas Tinamus sp. Tinamidae

7 Jacamim defumador de penas Psophia sp.

Psophiidae 8 Mutum defumador de penas Crax spp. Cracidae.

9 Caurezinho defumador do ninho Falco rufigularis (Daudin, 1800), Falconidae

10 Garrincha defumador do ninho Troglodytes musculusTroglodytidae. Nauman, 1823,

11 Zabelê defumador de penas Crypturellus noctivagus zabele Spix, 1825, Tinamidae. 12 Urubu de cabeça vermelha coração Cathartes aura L., 1758, Cinoniidae.

13 Urubu de cabeça preta coração Coragyps atratus Bechstein, 1793, Cathartidae. 14 Gambá defumador de pelos Didelphis spp. Didelphidae

15 Tamanduá bandeira defumador de pelos Myrmecophaga tridactyla L., 1758, Myrmecophagidae. 16 Boto gordura Inia geoffrensis (de Blainville, 1817) Iniidae

17 Criança recém nascida chá do cordão

denominado “barata-de-coqueiro” também é usado no tratamento zooterápico (ALVES et al., 2007; ALVES, 2009). Até o “chá do cordão umbilical” de crianças re- cém nascidas é usado como remédio contra a epilep- sia (VAN DER POEL, s/d) (quadro 2).

Chama atenção nestes registros o destaque ao uso de defumadores (vapores deveriam ser inspirados23

pelo paciente) no tratamento da enfermidade. Igual- mente nos registros de Lineu sobre penas de aves nos números 33 e 27 (quadro 1) e do pó das cinzas e ras- pas de ossos, dentes e cascos nos números 1, 2, 11, 12, 15, 24 (quadro 1), como na zooterapia popular nos nú- meros 1, 2, e 4. (quadro 2). Mas as semelhanças ficam por aí, pois o contexto cultural da tentativa de racio- nalidade de Lineu e da zooterapia popular brasileira, além das espécies citadas, são muito diferentes.

Assim, o estudo destes registros zooterapêuti- cos do passado (ALMEIDA, 2007, 2008; PESSOA et al., 2002; SILVA et al., 2004) reforça a visão de que o uso da zooterapia não foi (e não é) exclusivo dos povos primitivos ou de nações atrasadas cultural e econo- micamente. O exame dos textos médicos e de História