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2   Bakgrunn: Labours innvandrings- og europapolitikk

3.4   Oppsummering: Årsaker og argumenter for bevegelsesfrihet

As crianças, esses seres estranhos dos quais nada se sabe, esses seres selvagens que não entendem nossa língua. Larrosa

Em toda sociedade o discurso aparece como algo dotado de materialidade sócio-histórica. A prática discursiva é selecionada e organizada por certo número de procedimentos: dias, meses, anos, lugares, condições estruturais. A prática discursiva tem a função de conjurar poderes e perigos e de dominar o seu acontecimento aleatório. Em certo lugar, aleatoriamente, nasce certo alguém:

Sou de Marapanim, só que não nasci na cidade de Marapanim. Sou do interior de uma cidade chamada Pedral. Vivi lá até por volta dos meus cinco anos de idade, mas, pelo fato de minha mãe ser professora de primeira a quarta série numa outra comunidade

41 O Andarilho

bem próxima dessa onde eu nasci, nós tivemos que mudar pra lá porque ela tinha que ir para a escola todo dia de canoa (ir e voltar). Era muito sacrifício e, por conta disso, nós tivemos que mudar pra lá, pra uma localidade, uma vila chamada Maranhão que as pessoas chamam Maranhãozinho pra diferenciar do Maranhão [estado] (...) meu processo de educação começa onde eu nasci, num lugar chamado Pedral. Eu estudei o primeiro ano de educação infantil e pré-escola. Quando fui morar nessa vila [Maranhãozinho] eu continuei, fiz mais dois anos de educação infantil. O que mais me marcou na educação infantil foram as minhas professoras, mesmo. Eu achava legal porque a gente brincava, a gente corria, tomava banho no igarapé – porque lá onde a gente morava ficava na beira de um rio (...) Nós éramos todos crianças mas a gente sabia nadar. Consigo lembrar até hoje o fato de ela ter saído de sala de aula e nos levado para tomar banho de igarapé. As músicas que a professora nos ensinou eu conheço até hoje e canto com meus filhos na hora de fazê-los dormir: „Pintinho amarelinho‟, „A dança da caronchinha‟, „Fui no Itororó beber água e não encontrei‟. Várias músicas que aprendi lá no pré-escolar com cinco e seis anos eu não consegui esquecer e hoje eu utilizo quando canto com os meninos. Uma coisa também marcante nesse período (...) eram as brincadeiras que aconteciam fora do espaço escolar. Como na vila não tinha energia elétrica, a gente se reunia muito, as crianças, à noite na frente da Igreja para brincar: de „Boca de forno‟, de „Fita, ruge ou baton‟, „Cai no poço‟ e as brincadeiras de roda como „Ciranda- cirandinha‟ e várias outras. (Professor PJ).

Eu nasci em Mosqueiro, numa ilha de grandes praias. Venho de uma família de seis filhos, mas duas morreram logo no início... eu sou o primeiro. Minha mãe diz que eu nasci de uma história de um parto difícil, parto do interior (...) o que gosto de minha infância (...) é aquela sensação de liberdade. Em Mosqueiro42 não

tinha televisão, não tinha carro, não tinha nada na ilha. O único carro que tinha era movido à manivela, que era do meu tio. Ele andava sempre com um colega do lado que girava a manivela (...) para dar partida (...) era um acontecimento (...) A nossa casa tinha uma mercearia (...) e tinha um quintal (...) eu gostava mesmo era de brincar no quintal grande. Tinha árvore lá. A outra coisa que me marcava era quando a gente ia à praia (...) e olhar a água e não ver nada do outro lado. Essa sensação de liberdade

total, de infinito (...). sou acostumado a olhar para o espaço

aberto. Então, criatividade, imaginação, todas essas coisas da docência, acho que vêm daí (...) a gente brincava de brincadeiras da época: papagaio, peteca (...) principalmente bola (...). Uma coisa que me marcou na infância (não marcou na época, mas depois eu fiz uma releitura...): sabe aqueles tajá?43 (...) eu

descobri que uma nascia da outra e outra nascia da outra (...) é um processo (...) era a primeira noção de um processo infinito (...). Eu cavava, ia tirando aquelas plantinhas até tirar a última (...) Como meu pai tinha uma taberna eu sempre ficava peruando em

42 Década de 1950.

cima do balcão, mexendo por lá (...) minha mãe era muito ligada em educação, e meu pai também. Meu pai gostava de fazer poesias; tinha vários livros em casa, ele lia e gostava muito de contas (...) de calcular, problemas (...) Então com quatro anos de idade eu já lia, escrevia e fazia contas. Só não podia ir pra escola porque na escola pública só entrava com sete anos (...) lia jornal, lia tudo (...) O que era interessante era isso: como em Mosqueiro naquele tempo era tudo atrasado, uma criança de quatro, cinco, seis anos que sabia ler um jornal era um acontecimento, já que a maioria da população era analfabeta (...) eu virei uma espécie de atração turística (risos) (Professor Andarilho. Destaques meus)

Os condicionantes discursivos logo aparecem em todo discurso: tinha que ir para a escola todo dia de canoa (...) tivemos que mudar pra lá (Professor PJ). Eu nasci de uma história de um parto difícil (Professor Andarilho). Os acontecimentos aleatórios vão sendo dominados, organizados, mas não conseguem esquivar sua materialidade.

Apesar de inicialmente não se ter esclarecido sobre a intenção de registrar episódios de narrativas ligados à movimentação identitária na docência, desde os primeiros relatos percebo que os narradores fazem esta relação. Há uma regularidade de fenômenos e eventos que estão em curso, durante a elaboração desses discursos. Há certa probabilidade de sua emergência que obedecem a regras de formação, de existência, de ênfase facial44, de atos falhos, de esquecimentos, regularidades e dissonâncias que direcionam as falas a experiências docentes: pelo fato de minha mãe ser professora (...) tivemos que mudar (...) meu processo de educação começa num povoado chamado Pedral (...) o que mais me marcou foram as minhas professoras (P45. PJ).

Em relação, ainda, à educação esses processos ocorrem nos dois relatos:... minha mãe era muito ligada à educação, e meu pai também. Meu pai gostava de fazer poesia (...) tinha vários livros em casa, ele lia e gostava muito de contas (...) Com quatro anos de idade eu já lia, escrevia e fazia contas (P. Andarilho).

Os processos de regularidades, dissonâncias e demais características de um enunciado, inevitavelmente, promovem o que, para Foucault (2000) se configura o campo adjacente, uma espécie de espaço colateral que permite a

44 Embora não se tenha trabalhado com análise de expressões faciais, entende-se que, no ato

enunciativo ela aparece e tem papel igualmente relevante como os lapsos de memória, interrupções, esquecimentos, aspas etc.

45 A partir de agora referir-me-

intertextualidade ou a integração de um enunciado a outros, ainda que, inicialmente, esses enunciados apareçam em um estado de dispersão e repartição e sejam acionados somente de acordo com a posição que ocupam em cada formulação discursiva.

Nos discursos de docentes, falar das experiências de vida traz uma probabilidade significativa de falar de experiências educativas, mesmo que essas falas apareçam dispersas e repartidas em determinado campo de saber e poder.

A mobilidade posiciona os enunciados em uma condição material relacionada com o lugar institucional que ocupam e com os respectivos contextos. Uma criança, por exemplo, que sabe ler em uma sociedade analfabeta é vista como uma atração. O mesmo ocorre na micro-sociedade – a família – principalmente se esta é de origem social desfavorecida ou de poucos alfabetizados, em que a criança passa a ser considerada muito inteligente.

A discursividade dos informantes desta pesquisa precisava enfatizar este fato, pois a formação discursiva possui significativa condição material relacionada com esses lugares enunciativos.

A mobilidade discursiva igualmente fará que alguns ditos sejam recuperados em outros momentos desta análise. É o caso de ter movimentado o informante, professor Andarilho, falas sobre uma sensação de liberdade que somente se tem em uma ilha como Mosqueiro na década de 1950. Essa sensação de liberdade será eliciada pela discursividade proferida pelo professor PJ em um outro momento, já na segunda série do ensino fundamental com um professor que sabe utilizar o espaço escolar para o ensino e aprendizagem prazerosos.

Como em um processo invisível, aparecem regulando a narrativa de educadores as tecnologias do eu, que ao exercerem a função fiscalizadora, definidora e reguladora das práticas e produções discursivas (FOUCAULT, 1986), definem que todo relato de um docente tem que envolver a educação.

Todos esses discursos, ou fragmentos enunciativos acabam por se juntarem num conjunto estatutário que marca a infância e seu primeiro contato com a docência.

Mas, principalmente, anuncia um olhar denunciante da presença ou tingimento de uma posterior ausência, a ênfase dada às brincadeiras, à

ludicidade, ao brinquedo cantado, ao igarapé e à praia da infância que marca a entrada de uma fase posterior mesclada de experimentação de diferentes sentimentos que vai ser o ensino fundamental, narrado pelo professor PJ. E uma fase formal, tranqüila, sem emoções, sem representação significativa da docência enunciada pelo professor Andarilho.

Se a experiência é algo que nos acontece (LARROSA, 2006b), se é algo que nos tomba e apaixona, a experiência também nos causa sofrimento ou mesmo, nos tornamos indiferente a ela, mas num processo de adiamento, ela pode se reverter ou se reconfigurar e encontrar uma saída. Como marca de adiamento a ludicidade ficará adormecida, mas será reconfigurada em outras experiências.

Como em um enunciado há transversalidade, ela existe, igualmente, nas palavras brincadeira, brinquedo, lúdico e liberdade, e, ainda que estes termos não se repitam graficamente, eles vão estar presentes em outros processos, mesmo que transformados, repetidos, subentendidos ou reativados. Porém, em cada vez que aparecerem vão ser únicos, porque o enunciado é único em cada acontecimento (FOUCAULT, 1986).

A educação infantil faz parte e ajuda a construir identidade, marcada pelo prazer e sofrimento. O sofrimento de ter que mudar de localidade, de ter que atravessar de canoa e o prazer da presença da professora e dos amigos, como são os acontecimentos narrados pelo professor PJ. Em conformidade com a vida esta etapa narrada tem lugar numa tensão entre o dito e o que ela nos diz:

A vida humana tem lugar nesta tensão entre o dizer e o dito, entre o texto e sua interpretação. Cada novo nascimento abre um campo imenso de possibilidade a partir da causalidade, da contingência de haver nascido em um tempo e em um espaço concretos. Os seres humanos não somos somente o resultado de nossas ações premeditadas, mas também das causalidades, da contingência. (MÉLICH, 2001, p. 278).

Igualmente, quem não freqüentou uma escola na infância, como o professor Andarilho, tem histórias de educação, de aprendizado, inclusive de conteúdos formais ligados à escola, como ler, escrever e contar que o ajudaram a construir uma identidade sobre alunado e docência.

De maneira interdiscursiva marca os discursos de educadores sobre a infância a necessidade do brinquedo, da ludicidade e o que chamam de sensação de liberdade que consideram importante para a experiência infantil.

No discurso do professor Andarilho, a docência possui características como criatividade e imaginação que são aspectos comuns na discursividade produzida em torno dessa posição identitária.

Constitui, também, traço identitário docente nos discursos sobre infância as situações de contato com o ambiente ou pessoas ligadas à educação: pelo fato de minha mãe ser professora (...) o que mais me marcou foram as minhas professoras...(P. PJ) e, continuando: a minha mãe era ligada à educação, e meu pai também... (P. Andarilho).

Entram em cena outros lugares, outros tempos, o outro – o papel do pai e da mãe no desenvolvimento da criança – para nos mostrar a finitude na narração que se configura em uma não finitude, o não-dito.