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sobreposição das características formais de ambas transformou nossa sociedade na “apoteose da sedução” (LIPOVESTKY, 2009, p. 217). Anteriormente, as ferramentas publicitárias encontravam- se sujeitas ao Marketing, onde as características físicas dos produtos eram expostas através de uma racionalidade argumentativa, deixando o imaginário do produto em segundo plano. Hoje, a Publicidade aproveita sua liberdade, explorando a sedução nos campos do imaginário, criando hiperespetáculo, caracterizando-se “cada vez menos pela solicitude, pela atenção calorosa, pela gratificação, e cada vez mais pelo lúdico, pela teatralidade hollywoodiana” (LIPOVETSKY, 2009, p. 217).

Antes do começo da discussão, precisamos deixar claro qual significado de Publicidade adotamos. Proveniente do latim publicare, a ação de tornar público, a Publicidade passa a ter o sentido atual quando do aumento da ofertagem de produtos e serviços, exigindo a criação de uma ferramenta que fomentasse as vendas, a diferenciação entre os bens e o conhecimento do público. A Publicidade, agora, é entendida como um conjunto de métodos que, ao contrário da Propaganda, que é uma ação que objetiva a divulgação de ideias e serviços, ambiciona a venda de produtos e serviços, por meio da propagação de mensagens transmitidas por meios de comunicação, massivos ou não (GOMES, 2003).

De fato, as funções que a Publicidade exerce são diretamente ligadas à forma organizacional da produção de bens e serviços. A necessidade de divulgação de informações, quando havia uma produção artesanal de mercadorias e um contato direto entre produtor e comprador, era muito baixo, havendo uma publicidade boca-a-boca. Após a Revolução Industrial, com o aumento da oferta e organização das relações comerciais, houve a necessidade do advento de ferramentas que fomentassem a venda dos produtos e o aumento da demanda (GOMES, 2003).

A Publicidade é “uma das ferramentas mais comuns que as empresas usam para dirigir comunicações persuasivas aos compradores e públicos-alvos” (KOTLER, 1998, p. 554). Pode exercer diversas funções, de meramente venda dos produtos, como lançar novidades no mercado, estimular a memória do consumidor, neutralizar a concorrência ou cultivar preferência de marca (PIPHO, 1990, p. 18).

Segundo Gomes (2003, p. 13), “o processo publicitário se inicia com o estabelecimento dos objetivos de gestão do produto ou da marca”. Após, são fixados “os objetivos de marketing, mediante fatores (…) que são, na realidade, estratégias através das quais os objetivos comerciais podem ser alcançados”.

A autora também destaca que a Publicidade é uma ação mercadológica, ferramenta pela qual se atinge os objetivos estabelecidos, sejam comerciais ou institucionais. A Publicidade, dentro da Comunicação como um todo, encontra-se dentro do chamado Composto de Marketing, um

“conjunto de ferramentas que a empresa usa para atingir seus objetivos de Marketing15 no mercado- alvo” (KOTLER, 1998, p. 97). Deste composto, fazem parte os chamados quatro P's do Marketing: produto, preço, praça e promoção.

O produto “é a oferta tangível da empresa para o mercado, que inclui qualidade, design, características, marca e embalagem”. O preço é a quantidade de dinheiro que os consumidores pagam pelo produto”. A praça “inclui as várias atividades assumidas pelas empresas para tornar o produto acessível aos consumidores-alvos” e a promoção “inclui todas as atividades desempenhadas pela empresa para comunicar e promover seus produtos ao mercado-alvo” (KOTLER, 1998, p. 98), esta englobando a Publicidade16, a Promoção de Vendas17 e as Relações Públicas18.

A Publicidade, aqui encarada como sinônimo de Propaganda, objetiva tornar pública as características palpáveis e/ou imateriais dos produtos e serviços. Isso é realizado através do emprego de técnicas e ferramentas comunicacionais, organizando a mensagem na forma de campanhas publicitárias, cujos objetivos podem ser institucionais ou mercadológicos.

A comunicação ocorre através da “transmissão de signos ou sinais audíveis, visíveis ou tangíveis” (GOMES, 2003, p. 39), embora isso não seja garantia de que a comunicação aconteça. De fato, qualquer informação recebida provoca algum tipo de reação no indivíduo, mas são diversos os fatores que influenciam seu entendimento, como seu contexto social e educativo.

A mensagem pode ser dividida em duas categorias: a comunicação visual, realizada “mediante imagens ou textos visualizados, cujos componentes materiais servem de suporte a uma mensagem” (GOMES, 2003, p. 40); e a comunicação textual, na qual “as mensagens são constituídas por unidades isoláveis e idênticas de mensagem a mensagem, e segundo regras de combinação estável” (GOMES, 2003, p. 41), o idioma.

O uso adequado da imagem e do texto, juntos ou separados, auxiliam o bem anunciado a marcar presença na mente do consumidor, seja através de elementos informativos ou persuasivos, buscando despertar a empatia do consumidor.

Além dos esforços comunicativos, outro fator que auxilia o momento da compra é a Marca, “um nome, sinal, símbolo ou desenho, ou uma combinação dos mesmos, que pretende identificar os bens e serviços de um vendedor ou grupo de vendedores e diferencia-los daqueles dos concorrentes” (RIES, 2000, p. 93). É constituída, normalmente, por um nome, “aquela parte da 15 Segundo Philip Kotler, marketing “é um processo social e gerencial pelo qual indivíduos e grupos obtêm o que

necessitam e desejam através da criação, oferta e troca de produtos de valor com outros (1998, p. 27).

16 Ainda segundo Kotler, publicidade seria “qualquer forma paga de apresentação impessoal e de promoção de ideias ou serviços ou um patrocinador identificado” (1998, p. 555).

17 “Uma variedade de programas preparados para promover e/ou promover a imagem de uma empresa ou de seus produtos individuais” (KOTLER, 1999, p. 555).

18 “Incentivos a curto prazo para encorajar a experimentação ou compra de produtos ou serviços” (KOTLER, 1998, p. 556).

marca que pode ser pronunciada, ou pronunciável” e um logotipo, “uma combinação entre uma marca registrada, que é um símbolo visual da marca e o nome da marca com letras artísticas” (RIES, 2000, p. 94).

Além de comunicar as características físicas, o esforço publicitário deve “representar a síntese da experiência de valor vivida pelos consumidores” (SAMPAIO, 2002, p. 26). Deve vender uma sensação, uma experiência, elementos que os consumidores, especialmente os hiperconsumidores, procuram em todos os momentos de sua vida. Pesse momento, a Marca entra como um fator de extrema importância, já que acaba congregando em si todos os elementos do produto ou serviço, sejam físicos ou não palpáveis.

O objetivo da Publicidade é seduzir o consumidor, fazê-lo aceitar e acreditar naquilo informado nas peças comunicacionais e realizar a compra. Entretanto, é preciso deixar claro que, embora tenha à disposição diversas ferramentas, fórmulas prontas que potencializam seu poder de convencimento, persuasão e dominação do consumidor, a Publicidade não é “algo mecânico, mas tão humano quanto a comunicação” (PIEDRAS, 2007, p. 78). É algo tão presente em nosso cotidiano que talvez a ela tenha sido dada uma importância indevida, principalmente quando se esquece por completo o papel central do consumidor no processo.

Chamando a atenção para a sociedade imagética na qual o consumidor/comprador está inserido e acostumado a viver, bem como seu despertar diante de seu real poder decisório no momento da compra, o papel da Publicidade torna-se mais sutil, menos impositivo. Passa a fazer parte da paisagem, sendo uma “expressão deste imaginário contemporâneo” (PIEDRAS, 2007, p. 74), uma “forma de encaixe desse mosaico formado no cotidiano, agregando tribos e imagens num universo comum, para além da divulgação das mercadorias” (PIEDRAS, 2007, p. 85).

E assim começa a desmistificação da Publicidade. Segundo Lipovetsky (2009, p. 225), ela não trabalha com ameaças, pretende uma dominação limpa, “sugere sem pretensão à dominação doutrinal, funciona sem maniqueísmo nem culpabilização”. O autor considera este o “paradoxo do poder publicitário”: a Publicidade é extremamente importante para as empresas, pois é por meio dela que torna seus produtos e serviços conhecidos, mas esses estímulos, a nível individual, tem um poder de persuasão muito baixo.

Sendo um discurso muito utilizado pelos teóricos apocalípticos, apropriando-nos da expressão maffesoliana, a Publicidade não consegue uniformizar os desejos e os gostos, hegemonizar as personalidades individuais (LIPOVESTKY, 2009). O que a Publicidade de fato faz é contribuir para “desqualificar a ética da poupança em favor da do dispêndio e do gozo imediato” (LIPOVESTKY, 2009, p. 229), agitando os desejos já existentes dentro das pessoas. Seria

a publicidade engendra em grande escala o desejo moda (...) glorificando as novidades, desculpabilizando o ato de compra, a publicidade desculpabilizou o fenômeno do consumo (...) agora, o consumo todo se manifesta sob o signo da moda, tornou-se uma prática leve, tendo assimilado a legitimidade do efêmero e da renovação permanente (LIPOVESTKY, 2009, p. 230).

Concordando com os autores acima citados, acreditamos que a Publicidade não consegue manipular as escolhas dos indivíduos. A corrente acusatória e apocalíptica acredita que a Publicidade teria poderes coercitivos, acabaria agindo como um estímulo externo, dirigindo as ações dos consumidores (KIRKPATRICK, 1997).

Entretanto, apesar de contar com ferramentas pensadas especialmente para maquiar as características reais dos produtos e serviços, criar um imaginário identificativo para atingir o consumo, fazendo o consumidor baixar a guarda frente aos estímulos, ela por si só não é garantia de efetivação do consumo. Para Piedras (2007, p. 86), “para além do utilitário a comunicação remete ao simbólico”; assim, a comunicação cria um imaginário em torno do produto/marca, apresentando elementos com os quais o consumidor consiga se conectar.

Embora usada para seduzir o consumidor, a função básica da Publicidade é “tornar familiar o produto que está vendendo, ou seja, aumentar sua banalidade, e ao mesmo tempo valorizá-lo com uma certa dose de diferenciação, a fim de destacá-lo da vala comum” (CARVALHO, 1996, p. 12). É a manipulação de signos através de linguagem e imagens com o intuito de deixar o produto ou serviço do anunciante conhecido entre os consumidores.

A objetividade formal do começo da linguagem publicitária, onde a descrição do produto bastava como incentivo comunicacional, foi logo substituída por um modelo permeado pela sedução e persuasão. Esta virada pode ser atribuída ao fortalecimento do capitalismo ao longo do século XX, e consequente avalanche de produtos e serviços nas prateleiras. Mais do que mostrar suas características físicas, era preciso ir além, era preciso conectá-lo ao consumidor, emocionalmente, imaginariamente.

O que a Publicidade atual faz é muito mais que passar informações sobre o produto, mas oferecer gratificações ao consumidor. A peça publicitária apropria-se do imaginário, saindo da realidade e relacionando-se diretamente com o prazer, sendo o objeto vendido o mediador entre o consumidor e o símbolo a ser consumido.

Para Zygmunt Bauman, “há limites até onde se pode estender a soberania dos consumidores prometida pela sociedade dos consumidores” (2008, p. 30). Ele está sim liberto do poder das grandes instituições, mas ao perceber o peso das decisões que estão sob sua inteira responsabilidade, acaba recorrendo ao mercado para satisfazer suas angústias, seduzido pelas promessas de felicidade propagadas pela Publicidade.

Pa Modernidade Líquida, como já falado, as autoridades não mais ordenam, mas seduzem. O sistema capitalista possibilitou o aumento das capacidades produtivas, empurrando a cada dia milhares de novas ofertas de bens e serviços, todas disputando a atenção do consumidor. Pesse contexto, a infelicidade do consumidor “deriva do excesso e não da falta de escolhas” (BAUMAP, 2001, p. 40).