Para Michel Marie Le Ven, Érica de Faria e Miriam Hermeto de Sá Motta (1996), a entrevista, “momento solene”,
...permite ao entrevistado uma reformulação de sua identidade, na medida em que [ele se] vê perante o outro. Ele se percebe “criador da história” a partir do momento em que se dá conta que, mesmo minimamente, transformou e transforma o mundo (talvez até sem ter a consciência disso), questionando elementos da vida social. [...] ele pára e reflete sobre sua vida – e este momento é acirrado pelas entrevistas, ocorrendo com freqüência – se vê como um ator social e “criador da história”. Essas pessoas, de objetos da pesquisa, se tornam sujeitos, pois percebem não só sua história de vida, mas
seu projeto de vida nesse processo de auto-análise. (LE VEN, FARIA e MOTTA, 1996, p. 63-64, grifo dos autores)38
Nesse mesmo sentido, apontam Maria de Lourdes Janotti e Zina de Paula Rosa (1992/1993):
...ao rememorar a sua trajetória, da forma mais completa possível, o depoente se esforça na construção de sua própria identidade, que é resultado de um processo de apropriação simbólica do real. Ao contar suas experiências e emitir suas opiniões, ao conferir sentido aos gestos, o ator se torna sujeito de seus próprios atos, percebendo seu papel singular na totalidade social em que está inserido. As histórias de vida não esclarecem necessariamente os fatos passados, mas são interpretações atuais deles. (JANOTTI e ROSA, 1992/1993, p. 13)
No início deste capítulo, afirmei o fio condutor comum que guiava as três entrevistadas na rememoração de suas trajetórias: era importante dizer – explicar – por que se tornaram artistas plásticas e professoras de arte. Essa atribuição de sentido às suas histórias individuais, longe de ser algo puramente teleológico, informa de possibilidades apresentadas e de escolhas operadas no decorrer de suas vidas, além de indicar a afirmação das identidades a partir das quais elas hoje se narram. É por essa afirmação – reformulação; construção – de identidades, essa percepção e avaliação de um passado individual inserido no social, e a possibilidade de apreender “julgamentos a posteriori”, como coloca Voldman (2006, p. 258), que considero válido aceitar o sentido atribuído pelas três entrevistadas às suas histórias. E esse sentido busca, na infância, localizar as origens do gosto pelo fazer artístico e, posteriormente, o seu desenvolvimento, levando à profissionalização na arte.
As diversas práticas narradas pelas entrevistadas, que tiveram lugar em sua infância, serão abordadas no próximo capítulo. Por ora, examino o que e como narram, bem como os suportes dos quais se valem para fazê-lo.
Portadoras de um reconhecimento que advém, posso dizer, tanto de sua condição de ex-alunas de Guignard, artista cuja significação para as artes plásticas e seu ensino em Minas Gerais, de maneira geral, e Belo Horizonte, especificamente, já foi apontada
38
O termo “criador de história”, segundo os autores, é utilizado por Eugène Enriquez em “Individu, création et histoire” (in: Connexions, Perspectives psychanalytiques sur les conduites sociales, n. 44, 1984, p. 141-159).
por diversos estudiosos,39 quanto de sua atuação como artistas e professoras, freqüentemente as entrevistadas se encontram na posição de falar de si, a estudiosos ou outros interessados. Possuem o que Bourdieu (2006, p. 189) chama de “representação mais ou menos consciente [...] da situação de investigação, em função [da] experiência direta ou mediata de situações equivalentes”, o que pode ser percebido em várias falas. Sara Ávila, por exemplo, narrando suas experiências na infância, pontuou: “as entrevistas que fui dando sobre minha infância, sobre minha vida, é que me fizeram lembrar desses episódios – naquele livro da C/Arte eu falo muito nisso”.40
Maria Helena, por sua vez, ao tomar ciência de meu interesse em abordar questões referentes à sua trajetória, desde a infância, logo no início da primeira sessão, informou de outros momentos em que havia feito esse relato por meio de entrevistas ou da escrita e, logo a seguir, acrescentou: “enfim, deixe-me contar do meu jeito agora, pode ser que saia diferente”.41
Solange menciona as conversas com alunas: “as minhas alunas também me perguntam muito. Querem saber muita coisa...” “Eu estava contando para as minhas alunas: ‘Tem uma pessoa da Universidade Federal que vem me entrevistar, estou me sentindo muito orgulhosa com isso’. Fico contando algumas coisas e elas também adoram ouvir”.42
Essa familiaridade, exemplificada pelos trechos acima, talvez faça com que essas mulheres tragam mais ou menos elaborada uma “apresentação oficial de si”, para utilizar a expressão de Bourdieu (2006), o que me leva a pensar se já não foi cristalizado um repertório daquilo que é importante ser dito, a partir das solicitações que lhes são feitas.43
39
VIEIRA (1988a), ÁVILA (1986 e 1997), KLABIN (1983) e WORCMAN (1983), entre outros.
40
Trecho da entrevista concedida à autora em 29 de agosto de 2007 (1ª sessão).
41
Trecho da entrevista concedida à autora em 20 de agosto de 2007 (1ª sessão). Por se tratar do trecho inicial da entrevista, uma pequena parte se perdeu, não sendo possível reproduzi-lo com precisão: “...da C/Arte, do Circuito Atelier, dei uma entrevista, escrevi sobre isso também, não sei se está nesse livrou ou no livro azul, mas, enfim, deixe-me contar do meu jeito agora, pode ser que saia diferente, não é?”
42
Trecho da entrevista concedida à autora em 18 de abril de 2007 (2ª sessão).
43
Para o autor, a carteira de identidade, o curriculum vitae, a biografia oficial, por exemplo, seriam modelos oficiais de apresentação de si. O relato de vida, na linha crítica que o autor estabelece com essa metodologia, tenderia a se aproximar desse modelo oficial, “bem como da filosofia da identidade que o sustenta” e a se afastar, ao mesmo tempo, “das trocas íntimas entre familiares e da lógica da confidência que prevalece nesses mercados protegidos”, à medida que nos aproximamos dos “interrogatórios oficiais das investigações oficiais – cujo limite é a investigação judiciária ou policial” (BOURDIEU, 2006, p. 188).
O título deste primeiro capítulo fornece algumas indicações dos possíveis lugares escolhidos por Sara, Maria Helena e Solange – e também por mim, na medida em que pergunto sobre esses lugares – para dizerem de suas vidas: mulheres, artistas e professoras, posições mais ou menos articuladas, umas mais enfatizadas que outras; a de mulher, buscada muito mais pela entrevistadora, porque subentendida ou não-dita – ao menos não da maneira que eu desejava ouvir, sendo preciso, por vezes, explicitar questões referentes às relações de gênero, de maneira a abordar seus lugares de mulheres-artistas na Belo Horizonte de meados do século XX e tudo que a elas se relacionasse: filhas, mães, esposas, “identidades femininas”. Eu poderia então pensar que aquele repertório cristalizado excluiria da narrativa, quase que automaticamente, determinadas questões, as quais necessitariam de uma abordagem mais incisiva.
Sem descartar essas possibilidades de interpretação, acrescento uma outra: Sara, Maria Helena e Solange falam, cada uma a seu modo, como “mulheres públicas”, para utilizar a expressão de Michelle Perrot (1998). Dessa forma, apesar de entender a importância de abordar, em suas trajetórias, as questões relativas ao privado – como Sara e Maria Helena, por exemplo, articularam a carreira artística ao casamento –, não posso deixar de reconhecer que elas escolhem falar mais como artistas e professoras, do que como “filhas, esposas e mães”.
Essa constatação me faz problematizar a ligação entre a memória feminina e o mundo privado. Para Perrot (2005b),
...os modos de registro das mulheres estão ligados à sua condição, ao seu lugar na família e na sociedade. O mesmo ocorre com seu modo de rememoração, da encenação propriamente dita do teatro da memória. Por
força das coisas, ao menos para as mulheres de outrora e para o que resta do passado nas mulheres de hoje (o que não é pouco), é uma memória do privado, voltada para a família e o íntimo, os quais elas estão de alguma forma relegadas por convenção e posição”. (PERROT, 2005b, p. 39, grifos
meus)
A tendência ao privado consistiria em uma marca da memória feminina explicável não por diferenças naturais ou biológicas, mas por práticas sociais e culturais específicas, inscritas nas – e marcadas pelas – relações estabelecidas entre homens e mulheres. Como coloca Isabelle Bertaux-Wiame, citada por Margareth Rago (2001, p. 19), “é muito mais o lugar social que é aqui determinante para a estrutura da memória sobre o social, e não uma diferença biológica que produziria, ‘por natureza’, formas da memória
específicas aos homens e às mulheres”.44 Por serem mulheres com uma atuação pública expressiva, é desse lugar que falam. E mesmo quando se referem às questões do privado, a relação com suas posições de artistas e professoras (e escritora, no caso de Maria Helena) é o que marca o tom da narrativa.
Próximas neste ponto específico – narrar suas trajetórias de artistas e professoras –, o modo escolhido para fazê-lo é, entretanto, diferente em cada uma das entrevistadas. Mesmo com todo um estoque de lembranças comuns – aquele que as fazem narrar, constantemente, suas experiências –, a maneira de contá-lo é diferente em cada uma delas, como não poderia deixar de ser.45
Maria Helena Andrés, artista plástica, escritora e professora. Possui dois livros em que sua vida e obra são dadas a conhecer: a primeira edição da coleção “Circuito Atelier”, da editora C/Arte – um livro-depoimento em que a artista reflete sobre sua trajetória artística, docente, intelectual e espiritual, e que traz também reproduções de obras, além de uma cronologia elaborada por Marília Andrés Ribeiro – e Maria Helena Andrés, obra suntuosa, bilíngüe, com um texto crítico de Amerinda da Silva Lopes (2004), além da reflexão da artista sobre “seu caminho”, cronologia, e as fases de sua trajetória artística, acompanhada de reproduções de obras.46
No momento de realização das entrevistas, a artista vinha se dedicando ao ordenamento de seu acervo pessoal, reunindo o material para o Instituto Maria Helena Andrés, organização não-governamental localizada na cidade de Entre Rios de Minas, o qual vem desenvolvendo várias atividades buscando “o desenvolvimento humano por meio da integração das artes”.47 Entre os objetivos do Instituto está a preservação e divulgação da obra e do pensamento da artista. Maria Helena encontrava-se, portanto, imersa no pensamento e na reflexão sobre sua vida e obra como artista plástica, escritora e professora. Por vezes, uma antiga crítica ou um texto encontrado em meio a esse material serviam de base para o que seria dito em nossas conversas registradas.
44
BERTAUX-WIAME, Isabelle. Memoire et récits de vie. Memoire de Femmes. Penélope, n. 21, p. 53, 1985.
45
PORTELLI (1997, p. 16), explicando porque prefere evitar o termo “memória coletiva”, afirma: “A memória é um processo individual, que ocorre em um meio social dinâmico, valendo-se de instrumentos socialmente criados e compartilhados. Em vista disso, as recordações podem ser semelhantes, contraditórias ou sobrepostas. Porém, em hipótese alguma, as lembranças de duas pessoas são – assim como as impressões digitais, ou, a bem da verdade, como as vozes – exatamente iguais”.
46
Cf. ANDRÉS (1998) e LOPES et al. (2004).
47
Maria Helena possuía, dessa forma, suportes consideráveis para ajudá-la na tarefa de lembrar – o que ela já havia dito ou escrito, o que haviam escrito sobre ela. E, nesse sentido, muito do que já estava registrado nos dois livros citados acima foi novamente colocado no momento das entrevistas – as brincadeiras e práticas diversas desenvolvidas em família, na infância, a formação com Guignard e o ambiente artístico belo-horizontino do período, as fases de sua trajetória como artista, algumas experiências docentes.
Nessa ordenação do passado, a narrativa de Maria Helena foi mais ou menos cronológica, e, quando algo se adiantava, fugindo à seqüência em que deveria ser contado, ela logo se pronunciava, corrigindo-se ou me fazendo uma advertência:
E me lembro que, criança, muito pequena, ainda em Belo Horizonte – estou voltando para Belo Horizonte porque, de repente, lembro-me de alguma coisa...
Estou pulando de uma coisa para outra, vamos tomar um chazinho?
Essa é a época da infância – estou misturando a infância com a adolescência, depois você separa, porque a gente se lembra de flashes.48
Muitos outros trechos poderiam ser aqui arrolados. Eles demonstram, talvez, o controle que a artista deseja ter de sua narrativa: ela deve ser clara, organizada sucessivamente. Nos momentos em que não fosse possível estabelecer esse controle, o melhor seria que fosse interrompida. Vale também destacar a preocupação com a repetição de determinados fatos já narrados. Ao iniciar a segunda entrevista, retomamos alguns pontos tratados na primeira, que havia ocorrido cerca de um mês e meio antes, para melhor abordá-los. À medida que eram narrados, Maria Helena pontuava:
Brincávamos de roda, esconde-esconde, de tudo quanto existia. Criávamos brinquedos com as nossas próprias mãos – meu irmão Paulo era muito criativo para a ciência, mais para essas coisas de invenção. Então, pegávamos vidrinhos coloridos na rua – já falei isso com você – e fazíamos caleidoscópio.
E fazíamos também... – não sei em que ponto parei... Isso tudo já foi contado. Você precisa falar onde parei...49
48
Trechos da entrevista concedida à autora em 20 de agosto de 2007 (1ª sessão).
49
Ao fim dessa mesma sessão, Maria Helena recomendou que, ao retomarmos a conversa, eu a lembrasse em que ponto havia parado – no caso, a década de 1960, já que havia começado a narrar sua trajetória artística, o que continuou sendo feito na sessão seguinte, a princípio por décadas e, posteriormente, apenas pelos títulos das séries.50 Para Maria Helena, portanto, houve a necessidade de tratar sua trajetória numa seqüência linear, seguindo de perto o roteiro proposto para as entrevistas e, dessa forma, os tópicos, de maneira geral, foram abordados.
Sara Ávila, artista plástica, professora. Possui, como Maria Helena, um livro em que sua trajetória é abordada – trata-se da edição de número 13 da já referida coleção da C/Arte, “Circuito Atelier”. Esse livro traz reflexões da artista sobre seu percurso artístico, docente, intelectual e espiritual, além de um texto introdutório de Walter Sebastião, uma cronologia elaborada por Rita Lages Rodrigues e reproduções de obras. Traz, ainda, uma entrevista concedida pela artista sobre o tema da criatividade. Assim como no caso de Maria Helena, alguns pontos como as brincadeiras e diversas práticas realizadas na infância, a formação com Guignard, sua atuação como professora, entre outros, registrados no livro, foram relatados nas entrevistas que realizamos.
A narrativa de Sara é mais livre, se assim posso dizer. Ela não segue uma cronologia, e muitos “fatos” narrados davam margem a inúmeras reflexões sobre arte e seu ensino. As advertências à entrevistadora, no seu caso, também ocorriam constantemente:
Eu falo, você vai ter um trabalho, minha filha! Quem me entrevista tem um trabalho danado!
Acho que estou falando demais, não?
Eu converso demais. Você vai ter que vir muito aqui depois e enxugar tudo que falo...
Estou falando demais com você, mas isso é vício de professora, meu Deus do céu! Converse comigo que vou longe, me dá corda – como diz a minha filha – que eu vou longe!51
50
Essas séries, que nomeiam as fases de sua carreira artística, são: figurativa, concretista, barcos, guerra, madonas, espacial, tapeçarias, cósmica, registros do oriente, vibração, releituras (cf. LOPES et al., 2004, p. 64-131).
51
O primeiro trecho foi retirado da entrevista realizada em 29 de agosto de 2007 (1ª sessão), o segundo, da ocorrida em 26 de setembro de 2007 (2ª sessão) e os dois últimos, da realizada em 22 de novembro de 2007 (3ª sessão).
Vez ou outra, ainda, a artista refletia sobre sua própria fala, definindo-se, a partir do que lhe havia dito a respeito o crítico e historiador da arte Walter Zanini, como “barroca”:
Estou voltando ao assunto, porque sou meio barroca, eu vou e volto... Eu sou dispersa, não? Tem um crítico de arte de São Paulo, [Walter] Zanini, que às vezes conversava comigo [...] e falava assim: ‘Você é como seus
quadros, barroca, vai e volta. Você está lá na frente e volta...’ [risos] Ele
achava engraçadíssimo, relacionava como sou, com meus quadros e com o barroco de Minas. É engraçado isso, não?
Uma entrevista que fiz para a Assembléia, não sei se você viu... Memória da Assembléia. Estão me devendo o vídeo, vou até cobrar, porque a Maria Helena [Andrés] conseguiu o dela. Eles estão fazendo a memória cultural: escritores, artistas, todos que têm uma certa contribuição para a sociedade. [...] Essa entrevista deve ir e vir também, porque é a minha característica. Mas como me fecham numa pergunta – esses jornalistas têm uma técnica para acabar uma entrevista, pegam um gancho, fazem a outra e vão levando. Quero ver se fiquei indo e vindo, naquele vai e volta, nessas curvas e contra- curvas. Você vê que avancei na minha época, depois voltei lá atrás, peguei um gancho, uma curva, voltei e fui outra vez. Depois que conversei com esse crítico de arte é que comecei a me observar. Estou dando entrevista e vendo minhas curvas e contra-curvas. [riso]52
Ao lado de suas “curvas e contra-curvas”, “idas e vindas”, alguns temas foram tratados em mais de uma sessão – finalizamos as sessões, por exemplo, tratando de seu percurso escolar. Entretanto, de maneira geral, os tópicos propostos foram todos abordados.
Solange Botelho, artista plástica, professora. Não possui, como Sara e Maria Helena, nenhuma obra que trate de sua trajetória de vida. Talvez por isso sua maneira de contá-la seja a mais detalhista. Ela tem muito a dizer, e cada episódio é narrado com uma riqueza de detalhes que impressiona. É como se fosse a primeira vez que voltava ao passado em busca da menina, da moça que foi, e que contribuiu para que se tornasse a mulher que é hoje. É como se não narrasse sua experiência apenas para a entrevistadora, mas para ela mesma e talvez para um ouvinte ou leitor futuro – nenhum aspecto poderia deixar de ser exposto, tudo deveria ser contado, ou melhor, tudo que ela achava que deveria ser contado deveria ser feito da maneira mais completa possível.
52
Entretanto, Solange, se já não possuía a experiência anterior do registro de sua vida, auxiliou o pai, Luiz Rousseau Botelho, na elaboração de suas memórias, logo após a morte de sua mãe, como relata:
Ele estava triste, [arrumando a sucata dele,] e eu falei: “Papai, você vai
comigo para Belo Horizonte, porque nunca mais vou te deixar”. Ele riu e
falou: “Por pouco tempo, é por pouco tempo...” – porque achou que ia morrer também. Não queria que ele morresse. Trouxe-o para Belo Horizonte, ele ficou comigo, mas eu morava com amigas; ele voltou para casa e falou:
“Vou ficar aqui”. “Então o senhor vai fazer uma coisa: escrever aquelas histórias que contava quando a gente era pequeno...” – porque eu não queria
que ele morresse – “Escreva, ponha no papel. O senhor só contava, agora
quero ler.” “Mas eu sou quase analfabeto!” “Não, o senhor me escreve cartas lindas...”
Era mamãe que escrevia para a gente, escrevia as cartas mais deliciosas desse mundo. Quando ela morreu, acho que ele notou que eu não ia mais receber cartas, e um dia me mandou uma que era a coisa mais espantosa desse mundo! Uma carta enorme, contando o dia-a-dia em casa, com a empregada, os cachorros, as galinhas, os patos, as voltas que ele dava pela ilha... Tão engraçada, tão espirituosa, que saí rindo pela rua. Quando voltei [em Além Paraíba,] falei: “O senhor vai escrever esses casos todos, porque o senhor
tem muito jeito”. Ele falou: “Não tenho não”. “Tem sim, a sua carta é deliciosa! O senhor tem senso de humor, além de tudo. Vai escrever sim.”
[...]
Foi aí que ele começou a escrever. E um dia estava aquele calhamaço todo cheio de coisas escritas, [encantadoras!!! Essa foi a maior emoção da minha
vida: conhecer e descobrir o meu pai, o autor da mais linda e verdadeira história que eu já li, a vida em todo o seu sabor.]
Peguei os livros de chamada do grupo, antigos, que estavam lá em casa, eles ainda tinham muitas folhas brancas, e ele escreveu neles, de vez em quando ele mesmo comprava caderno. Comecei a gostar, passei a limpo, ele gostou também. E ele começava a me escrever – preferia ficar lá, porque escrevia