6.2.1. Trajetórias migratórias
A Figura 28 ilustra as estadias dos 19,8% da amostra que residiram noutros países para além de Portugal e do RU, sendo que 80,2% dos restantes inquiridos não residiram em mais nenhum país para além desses dois, não tendo, por isso, outra experiência migratória. Sabendo que houve inquiridos que residiram em vários países, 75,5% dos inquiridos fizeram-no noutros países da UE, das quais 50,3% dessas estadias ocorreram em Espanha, França e na Holanda. Para além destes, destaca-se o Brasil com 8% das estadias dos inquiridos. Essa mesma distribuição é visível na Figura 29 com a representação das trajetórias dos inquiridos por fluxos e na qual se salienta a grande concentração de tais fluxos (com origem e destino) na Europa.
Figura 29 - Trajetórias migratórias dos inquiridos
6.2.2. Motivações migratórias
A principal motivação migratória dos jovens europeus, conforme sugerem Lulle et al. (2017), prende-se com a liberdade e flexibilidade da migração líquida. A análise das razões atribuídas à saída de Portugal permitiu concluir que são as questões económicas que mais levaram os inquiridos a deixar o país. Efetivamente, mais de metade dos inquiridos aponta razões de ordem económica (52%), seguidas das profissionais (27,9%), das afetivas (13,2%) e relacionadas com a formação académica (5,2%)8. Esta tendência vem confirmar o que Peixoto et al. (2016) referem acerca da predominância de razões de ordem económica e profissional mas que, no caso desta amostra, revela envolver uma maior complexidade de motivações migratórias. Registaram-se, em resposta aberta, comentários ao questionário relativos à pouca valorização das qualificações e oferta de emprego, remunerações insuficientes e pouca qualidade de vida em Portugal face ao RU e que sustentam os princípios neoclássicos que apontam para as diferenças geográficas da oferta e da procura de trabalho (diferenças económicas) enquanto fator determinante das migrações. Um inquirido, no espaço deixado para os respondentes inserirem os seus comentários, refere que “no meu grupo de amigos, qualificados e recém chegados, todos temos bons salários e uma qualidade de vida que não teríamos em Portugal”, outro sente que “aqui [no Reino Unido] valorizam as minhas qualificações, há um bom equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, em Portugal não”, referindo ainda que no RU há mais oferta de emprego, oferece-nos melhores condições profissionais, académicas e económicas, auferindo de bons salários, de maiores oportunidades de progressão na carreira e os sistemas nacionais de educação e saúde são excelentes. É necessário
8A questão relativa ao motivo principal atribuído à saída dos respondentes de Portugal emigratório foi aferida
por uma questão de escolha múltipla, na qual o inquirido tinha de optar entre 4 opções (razões afetivas, económicas, profissionais e de formação académica). Em seguida, de acordo com cada uma das opções de resposta escolhida os respondentes tinham hipótese de escolher várias respostas ou ainda responder outra, em resposta aberta.
relembrar que durante o período de crise económica em Portugal, a maior parte dos emigrantes saíram do país com motivações económicas e, com a posterior recuperação económica do país, a partir de 2013, assistiu-se a um abrandamento dos fluxos.
Dentro das razões económicas, o facto de Portugal não oferecer estabilidade económica é o que mais afasta os portugueses de Portugal (65,4%), a insatisfação com o estatuto socioeconómico (17,5%) e os salários baixos (33,3%) foram fatores determinantes da saída dos inquiridos de Portugal. Para além destes, os respondentes referem-se aos efeitos da austeridade no país, em resultado da crise económica, ao desemprego, bem como ao facto de, em Portugal, a partir de certa idade, não ser fácil arranjar trabalho9. Tais resultados confirmam os obtidos por Peixoto et al. (2016) que apontam para a ausência de perspetivas futuras (42,8%), o bloqueio na progressão na carreira (39%), o desemprego e os baixos salários (22,1%) como as principais razões atribuídas à saída. Acrescenta-se, neste contexto, o fator da idade dos trabalhadores. Na opinião de muitos inquiridos, Portugal não dá emprego a pessoas a partir de uma certa idade e “com 40 anos ainda se é novo para trabalhar no RU”. A justificar a saída, apontando razões profissionais, de 27,9% dos inquiridos de Portugal está a inadequação da remuneração (62,2%), a falta de trabalho na área de especialização (51,2%) e a pouca valorização profissional em Portugal (48,8%). Juntamente, alguns inquiridos justificam a saída do país com o surgimento de uma oportunidade profissional no RU, uma oportunidade de progressão na carreira e com a falta de estabilidade na carreira10. Sendo que as razões afetivas justificam a saída de Portugal de 13,2% da amostra, a emigração de amigos/familiares para o RU é a razão de ordem afetiva mais representativa (56%) e que engloba aqueles que, enquanto menores, emigraram para o RU com a família. Seguidamente, o desejo de emigrar para o RU para ter uma aventura e novas experiências representa 32,8% das razões afetivas11. Também Peixoto et al. (2016) encontraram um peso menor das razões de saída associadas à reunificação familiar ou acompanhamento da família (8,6%) e ao desejo de realização de novas experiências (33,3%), em comparação com as razões económicas e profissionais.Por fim, as razões relacionadas com a formação académica são menos expressivas e apenas justificam a emigração de 5,3% da amostra, contudo, é possível verificar que é o facto de haver pouca valorização da área de estudos dos inquiridos (38,5%), não terem
9 A questão relativa ao tipo de razões económicas atribuídas à saída dos respondentes de Portugal foi aferida
por uma questão de escolha múltipla, na qual o inquirido podia escolher mais do que uma opção, em 3 opções, ou ainda responder outra, em resposta aberta. As percentagens referem-se ao número de inquiridos que optaram por determinada resposta. Neste sentido, o somatório das percentagens é superior a 100%.
10A questão relativa ao tipo de razões profissionais atribuídas à saída dos respondentes de Portugal foi aferida
por uma questão de escolha múltipla, na qual o inquirido podia escolher mais do que uma opção, em 3 opções, ou ainda responder outra, em resposta aberta. As percentagens referem-se ao número de inquiridos que optaram por determinada resposta. Neste sentido, o somatório das percentagens é superior a 100%.
11 A questão relativa ao tipo de razões afetivas atribuídas à saída dos respondentes de Portugal foi aferida por
possibilidade de prosseguir os estudos (28,8%) e não se sentirem academicamente valorizados (26,9%) em Portugal que os fez emigrar para o RU, em primeiro lugar, para estudar12.
Tendo já sido apresentadas as razões de saída, é importante perceber o que justificou a atração do RU e que fez com que os inquiridos optassem por este e não por outro país. Estas razões apresentadas na Tabela 11 estão intrinsecamente relacionadas com as razões apresentadas anteriormente e, por isso, é previsível que os fatores de atração de ordem económica tenham mais peso na decisão de escolha do RU. Efetivamente, a maior disponibilidade de emprego (43,8%) e os melhores salários comparativamente a Portugal (43,3%) são as opções de resposta mais referidas, logo seguidas da opção relativa à família/amigos que já se encontram fixados no RU (39,1%), o domínio da língua inglesa/mais facilidade de a aprender (35,2%), a valorização das qualificações dos inquiridos (25,5%), a prosperidade económica (20,6%) e a diversidade cultural (13,7%). Com efeito, também Peixoto et al. (2016) apontaram, como maior fator de atratividade do RU, a procura existente no mercado de trabalho britânico e, consequentemente, a maior oferta de emprego (62,3%), porém, contrariamente, a amostra deste estudo revela uma maior importância dada à ação dos familiares e amigos já fixados no RU (39,1% face a 24,3% apontado por Peixoto et al. (2016), o que pode estar relacionado com o grau de qualificação mais elevado da amostra recolhida pelos autores, associado a uma menor dependência das redes migratórias, isto é, da ação de familiares e amigos.
Tabela 11 - Fatores de atração do Reino Unido (%)13
n=1012
12 A questão relativa ao tipo de razões de formação académica atribuídas à saída dos respondentes de Portugal
foi aferida por uma questão de escolha múltipla, na qual o inquirido podia escolher mais do que uma opção, em 3 opções, ou ainda responder outra, em resposta aberta. As percentagens referem-se ao número de inquiridos que optaram por determinada resposta. Neste sentido, o somatório das percentagens é superior a 100%.
13 A questão relativa aos fatores que levaram os respondentes a escolher o Reino Unido como destino
emigratório foi aferida por uma questão de escolha múltipla, na qual o inquirido podia escolher mais do que uma opção, em 10 opções, ou ainda responder outra, em resposta aberta. As percentagens referem-se ao número de inquiridos que optaram por determinada resposta. Neste sentido, o somatório das percentagens é superior a 100%.
Fatores de atração do Reino Unido % de respostas
A maior disponibilidade de emprego 43,8
Os melhores salários do que em Portugal 43,3
Tenho lá família e/ou amigos 39,1
O domínio da língua inglesa/mais facilidade de a aprender 35,2
A valorização das minhas qualificações 25,5
A prosperidade económica do Reino Unido 20,6
A diversidade cultural 13,7
A sociedade aberta e acolhedora 12,1
O estilo de vida alternativo e diferente de Portugal 11,0
Prosseguir com os meus estudos 8,9