4. Survey findings
4.2. Time spent on reviewing
4.2.1. Number of reviews carried out annually
Para Sabourin (2009 p. 24, 51), a reprodução das unidades familiares e da sociedade tem por base uma série de práticas, sujeitas a regras coletivas marcadas pela reciprocidade tais como o uso de recursos comunitários, a transmissão intergeracional de bens e de saberes pela família e pelas redes sociais. O autor entende a reciprocidade como parte da dinâmica de reprodução de prestações geradoras de vínculos sociais.
O tema da reciprocidade foi estudado por Marcel Mauss (2013) que, a partir de pesquisas realizadas entre os habitantes das Ilhas Trobriand da costa do Pacífico no Noroeste da América do Norte e outros estudos etnográficos, mostrou que a sociedade se funda na tripla obrigação de dar, receber e retribuir. Seu trabalho será de grande contribuição para compreender as relações de reciprocidade presentes nas comunidades
130
pomeranas. O autor demonstra a multiplicidade de aspectos, sejam eles políticos, sociais, econômicos e religiosos que estão intimamente ligados aos sistemas de dádivas. Além disso, destaca a tensão entre a obrigatoriedade e a espontaneidade no universo das
o que nos leva a refletir sobre o que motiva as relações de reciprocidade, e até que ponto as dádivas são realizadas esperando-se uma contraprestação, ou mesmo por se ter determinado interesse em tal dádiva (MAUSS, 2013, p. 10, 27).
De acordo com o autor, o estudo da obrigação de dar auxilia na compreensão de como os homens passaram a trocar as coisas. Nesse sentido, recusar dar, deixar de convidar, ou recusar a receber, seria equivalente a recusar aliança e comunhão ou até
Sobre a obrigatoriedade da devolução da dádiva, Sabourin (2008, p. 135) aborda que esta pode ser explicada pela força presente da coisa dada, pelo laço espiritual que Mauss dá o nome de mana diante da falta de um termo equivalente nos países ocidentais. Nesse sentido, a reciprocidade supõe uma preocupação pelo outro sendo inaceitável não se importar com as condições de existência dos semelhantes. Esta preocupação se transforma em hospitalidade, dádiva de alimentos e víveres, proteção, ou seja, motivos ou obrigações para produzir.
Mauss (2013, p. 13-14, 38) afirma que não são os indivíduos e sim as coletividades que mantêm obrigações de prestações recíprocas. Nessas prestações -se as almas nas coisas, misturam-se as coisas nas almas. Misturam-se as vidas, e assim as
Ainda em suas teorizações, Mauss (2013, p.
trocas não é a mesma do comércio e das trocas mais desenvolvidas. A finalidade é antes de tudo moral, seu objeto é produzir um sentimento de amizade entre as duas pessoas
Sobre a finalidade da reciprocidade, Godbout (1998, p. 2) escreve que é inegável a existência de interesse nas relações de troca e que este desempenha um papel importante nas relações sociais, uma vez que os agentes sociais não agem somente em função de seus interesses pessoais, mas também de acordo com as normas e valores da sociedade em que estão inseridos. Para o autor, o que leva as pessoas a dar é o desejo de
131
ligar-se, fazer circular as coisas em um sistema vivo, conectar-se com a vida, romper com a solidão, sentir que não se está só e que se pertence à humanidade.
Estes são sentimentos que fundam grande parte das famílias, comunidades e sociedades. Sabourin (2009, p. 51) escreve que as comunidades camponesas existem em função de um sentimento de pertencimento a um grupo, resultando em uma identidade coletiva e no compartilhamento de saberes, práticas e, sobretudo, de valores que a constituem. Para o autor, quando a origem destas comunidades está ligada à religião, esta constitui muitas vezes um dos principais valores simbólicos de referência comum.
Nestas comunidades em que os princípios de reciprocidade e ajuda mútua são valores importantes, as competências comunitárias se estendem até as práticas de redistribuição e troca de trabalho ou solidariedade entre as famílias. Esta solidariedade se manifesta nas doações de alimentos e sementes, bem como nas ajudas de trabalho sem retorno sistemático, no caso de uma colheita ruim, doença ou acidente em uma das famílias (SABOURIN, 2009, p. 52).
Estas manifestações de solidariedade e de trabalho conjunto se dão por meio dos mutirões, cuja palavra segundo Sabourin (2009, p.
prática envolve dois tipos de cooperação, sendo o primeiro a respeito dos bens comuns e coletivos e a outra aos convites para trabalhar em benefício de uma família, em geral para trabalhos penosos, sendo que o indivíduo que se recusa a colaborar perde prestígio e honra nas comunidades.
Sabourin (2011, p.30) menciona que a reciprocidade pode assumir uma forma positiva, quando se refere a oferendas, partilhas e prestações totais, ou pode assumir uma forma negativa, como no caso da vingança. A lógica da vingança está ligada a uma relação dialética em torno da honra. Já a dádiva está ligada a uma relação dialética em torno do prestígio, que motiva o crescimento da dádiva ligado a um processo de
mesma forma que estes termos se diferenciam, há também divergências entre os termos troca e reciprocidade em que a troca se refere mais a uma permutação de objetos, enquanto a reciprocidade constitui uma relação reversível entre os envolvidos.
Apesar de a troca muitas vezes ser considerada recíproca por satisfazer o interesse de ambos os parceiros, esta é considerada uma relação que procura em primeiro lugar a satisfação dos interesses próprios de cada indivíduo envolvido, o que supõe uma reciprocidade mínima. A reciprocidade por sua vez implica na preocupação
132
pelo outro para estabelecer o mana30, para produzir valores afetivos ou éticos como a paz, a confiança, a amizade e a compreensão mútua (SABOURIN, 2008, p. 135).
Em outro texto o autor complementa que a palavra troca significa o ato de ceder um bem mediante contrapartida, ou seja, designa qualquer circulação de matéria, energia, informação ou qualquer tipo de interação. A troca não cria nenhum valor em si, enquanto a reciprocidade cria um valor ético que se torna um valor econômico de uma economia de reciprocidade (SABOURIN, 2009, p. 64-65).
Nesse sentido, as estruturas de reciprocidade geram valores materiais ou imateriais, tais como os saberes, as informações e os conhecimentos, mas também produzem valores afetivos, como a amizade e proximidade entre as famílias e valores éticos como responsabilidade, justiça, confiança e equidade (SABOURIN, 2011, p. 34).
Na dinâmica cultural, Temple (2003)31 citado por Sabourin (2011, p.32), destaca que esses valores passaram por um processo de individualismo que levou à
e
importância da reciprocidade na manutenção dos laços sociais comunitários e familiares,
modelo de sociedade que ignora o princípio da reciprocidade estaria se privando da compreensão da relaç
Diante das consequências das mudanças ocorridas em todas as sociedades em relação à reciprocidade, torna-se importante estudar as formas de reciprocidade e convívio social de sociedades que conseguem preservar essas características, mesmo diante da dinâmica cultural. Em muitas sociedades a ajuda mútua, o trabalho em mutirão e a reciprocidade atuam como importantes fatores para a manutenção dos vínculos sociais e continuidade das comunidades. Isso acontece por que estas relações de ajuda mútua contribuem para que haja um sentimento de pertencimento a um grupo, bem como a construção de uma identidade coletiva.