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4. ANALYSIS: THE WAY WE TALK – DISCOURSE WITHIN THE UNSC, ACADEMIC ARTICLES

4.5. I NTERNATIONAL LEGAL FRAMEWORKS

“A HISTÓRIA do Sisal é uma Epopéia antes de ser uma Redenção. E é um milagre, antes de ser uma aurora.”

(José Leal. A civilização dourada)

O documento “A civilização dourada”, publicado em 1966 pode ser rapidamente caracterizado como o mais apaixonado escrito sobre a saga do agave na Paraíba, o texto não poupa metáforas na exaltação do agave, o apresenta como algo extraordinário e mítico, o mesmo material faz ainda uma espécie de homenagem aos trabalhadores “anônimos” dos ccampos e dos motores de agave. Não deixando de ser mais um discurso no sentido de positivação da cultura do agave, reforça a ideia de que aquela planta seria capaz de modificar os quadros sociais daquela região pobre. O livro apresenta-se com uma estrutura em forma de um relato, cria uma sequência narrativa que parte do nascimento da produção do agave e de

sua glorificação. Um relato que pretende narrar uma história em que “homens abúlicos64 e desiludidos foram contemplados com um sorriso dos deuses”.65

Fruto de uma reportagem e transformada em livro “A civilização dourada”, de autoria

de um jornalista, José Leal66, e de um fotógrafo, Rafael Mororó67, traz, segundo os autores, uma crônica “de pioneiros e céticos. De conservadores e de progressistas. É um retrato de

descobrimento, e ao mesmo tempo, de uma libertação” (p, 15). Um apêndice de três tópicos,

uma entrevista com Pedro Moreno Gondim68, acompanhada de correspondência entre ele e o Presidente Castelo Branco69, sobre a situação enconômica do agave na Paraíba.

64 A palavra abúlico, se remete a uma pessoa/sujeito que não tem vontade, ou ânimo para viver, permanecendo

imóveis diante dos acontecimentos.

65Introdução de José Leal ao livro “A civilização dourada”.

66 Segundo informações contidas no quadro de sócios efetivos do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano

(IHGP) <http://ihgp.net/socios.htm>, era natural de São João do Cariri, autodidata, considerado o decano da imprensa paraibana por sua atuação frente aos órgãos de comunicação mais representativos do Estado. Dedicou toda a sua vida à imprensa; entregava-se à leitura, procurando manter-se sempre atualizado e bem informado sobre a situação do Estado e do País.Em 1927, tornou-se correspondente, em Alagoa Nova, dos jornais A União, de veículo de comunicação do Governo do Estado, e A Noite, do Rio de Janeiro; em 1930, atuou nos jornais O Liberal e o Jornal do Norte, sob a direção de Café Filho; ainda em Alagoa Nova, fundou o semanário O Momento. Veio para a capital do Estado para integrar a equipe de A União como redator, e logo ascendeu ao posto de Secretário, substituindo, mais tarde, Samuel Duarte na direção do órgão, em 1932. Em 1934, passou a dirigir O Norte, jornal que não resistiu à chegada do Estado Novo. Em João Pessoa, além de escrever nos jornais A União e ONorte, ainda fundou o quinzenário Ilustração e Gazeta do Povo, este em parceria com o escritor Ascendino Leite, e a Revista Gong, todos com duração efêmera; colaborava em todos os jornais do Estado, ora como redator, articulista ou editorialista. São de sua autoria: A Imprensa na Paraíba, 1941; Este Pedaço do

Nordeste, 1943; O Primeiro Decênio da API: como surgiu e tem se desenvolvido essa entidade, 1943; Itinerário da História, da Colonização da Paraíba aos nossos dias, 1945; Reencontro da Vila, 1961; Itinerário da História: Imagem da Paraíba entre 1518 e 1965, 1965; Família Costa Ramos, 1968;Acidentes Geográficos da Paraíba, 1970; Assim eram as coisas..., 1970; Vale da Travessia, 1971; Dicionário Bibliográfico Paraibano, 1980. E ainda de deixou algumas escritos inéditos que foram publicadas

postumamente: Índice corográfico e administrativo da Paraíba; Ronda da Província; Noções de Corografia

e História; Imagens Desfeitas.Ingressou no Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, ocupando a cadeira

número 19, no dia 10 de março de 1946.

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Infelizmente não foi possível encontrar nenhuma informação relevante ao autor que divide, juntamente com José Leal, a autoria de “A Civilização Dourada”, sobre Rafale Mororó consta apenas uma pequena observação, na orelha do livro, elaborada pela editora na qual ser lê: “Um nome inteiramente desconhecido do grande público aparece ao lado de José Leal: é o de Rafael Mororó. Trata-se do autor das fotografias que ilustram este volume, do roteiro e das pesquisas que resultaram nessa reportagem. Mergulhado durante quase 50 anos na província – Mororó nunca saiu da Paraiba – jamais conseguiu fama, cartaz ou glória. Mas é, na opinião do próprio Leal, um dos melhores repórteres do Brasil, um profissional de primeira categoria”.

68

Governador da Paraíba por dois mandatos (1958-1960) e (1961-1966).

69 O General Castelo Branco assumiu após o Golpe de 1964, quando instalou-se a Ditaura Militar que durou 21

Imagem 8 - Capa do Livro “A civilização dourada”, de autoria de José Leal e Rafael Mororó, o livro foi

publicado em 1966, e circulou por toda a Paraíba , nele o agave é celebrado como construtor de uma sociedade marcada pela pujança econômica.

Fonte: Acervo pessoal do autor

O material traz também um artigo de Hilton Marinho, em que autor analisa e defende o processo de industrialização do agave, bem como a sua atuação no mercado nacional. Após idealizar e glorificar a trajetória do agave o livro apresenta “Instruções para o cultivo do

sisal”, texto do engenheiro agrônomo, Diniz Xavier de Andrade, em que há, claramente uma

pedagogia para o cultivo do agave. Os autores parecem querer educar, sensibilizar os agricultores para o cultivo daquele milagre tão esperado para o povo paraibano, aquela planta sensacional que resistia praticamente a tudo (p, 19).

A começar pelo título, percebe-se uma exaltação, e ao mesmo tempo uma espécie de reconhecimento pelo que o agave havia construído, fala-se em uma “civilização”, ou seja, uma organização social, cultural e política que surge em torno dessa cultura agrícola. O uso do termo ainda indica que, o agave é que deu vida e organização a uma região, que, segundo os autores, vivia tempos de desespero e quase morte. O texto em si não poupa adjetivos de exaltação e glorificação para o agave.

Quando se fala em civilização os autores indicam uma organização social, política e cultural em que o agave era o principal elemento. Vale ressaltar que, se trata de um conceito articulada com realidades sociais múltiplas, variado de sociedade para sociedade. Trata-se de

um conceito bastante completo e impossível de interpretações unilaterais. Para compreender esse conceito e tentar fazer uma ligação com as ideias propagadas por José Leal e Rafael Mororó, recorri aos estudos de Norbert Elias, em que o autor destaca a civilização não como algo imposto, mas como um processo;

O conceito de "civilização" refere-se a uma grande variedade de fatos: ao nivel da tecnologia, ao tipo de maneiras, ao desenvolvimento dos conhecimentos científicos, as ideias religiosas e aos costumes. Pode se referir ao tipo de habitações ou a maneira como homens e mulheres vivem juntos, a forma de puniçãodeterminada do sistema judiciário ou ao modo como são preparados os a1imentos. Rigorosamente falando, nada há que não possa ser feito de forma “civilizada” ou “incivilizada”. Dai ser sempre dificil sumariar em algumas palavras tudo a que se pode descrever como civilização (1994, p, 23).

Essa publicação faz parte do conjunto de discursos que voltaram com toda força, a partir da década de sessenta e tinham como objetivo, devolver ao povo, uma certa confiança na cultura do agave. Ela faz parte de um conjunto de discursos positivos sobre uma cultura que já tinha dado claros sinais de colapso, embora ainda fosse cultivado em muitos municípios. Cubati, por exemplo conhece nesse período, décadas de 1960 e 1970, o período auge da produção sisaleira. Esses discursos vão mostrar o agave mais como um milagre do que como uma possibilidade de salvação agrícola.

Ainda nos anos setenta, inagura-se um momento em que o agave é tido como responsável pela redenção econômica, pelo salvamento do Estado. Esse discurso parece ignorar o que havia acontecido, a crise no setor agroexportador e a seca. Referências a esse período são apagadas, nesta época é imposto um discurso salvífico, destinado a exaltar a saga

do agave em terras paraibadas. Nesse sentido, “A Civilização Dourada”, pode ser entendida,

como uma contribuição bastante significativa para a consolidação do discurso que positiva a produção do agave.

A segunda parte do livro de “A civilização dourada”, pode ser considerada como uma espécide de manual de plantio e manejo. Após promover uma consagração do agave, o

texto “ensina” a cultivar, e como criar um pedaço dessa civilização dourada nas terras dos

agricultores. Trata-se de uma pedagogia, de uma lição que deve ser aprendida e ensinada a outros. O livro traz ainda, em suas poucas páginas, oito fotografias relacionadas ao agave, entre elas, a foto de uma fibreira70 estendendo a fibra, a trabalhadora rural é apresentada com os trajes do trabalho e com um sorriso nos lábios.

A imagem dessa mulher talvez tenha inspirado os autores a produzir um dos trechos mais interessantes de seu texto. Neste trecho o agave é dotado de um sentido metafórico,

procuram dar um sentido positivo, e até mesmo bonito ao agave, eles dizem que, “o sisal tem

seus mistérios. É como mulher ou automóvel: exige certos cuidados”, e mais adiante

complementa, “Sisal, portanto, também necessita de carinho” (p, 36-37).

O material apresenta claramente um discurso destinado a exaltar a cultura do agave. Em nenhuma página há relatos de insucessos desse tipo de seu cultivo, ao contrário, nas 129 páginas só há espaço para a exaltação e para glorificação da presença do agave em terras paraibanas.

O texto é uma crônica em que se celebra o sucesso do sisal na Paraíba, tudo é perfeito, caracterizado como produtivo e de caráter divino. Percebe-se que, é uma história manipulada e idealizada que vai do nascimento à glorificação, ou seja, nada de insucessos, nada de crises ou problemas. Sendo um discurso que visava reestabelecer a economia agavieira, era necessário apagar aquela trágica história de crise e de pesadelos que a elite agrária de décadas anteriores viveu.

Imagem 9 - Fardo de fibras de agave, o amarelo intenso levou os autores a nomear sua reportagem de “Civilização dourada”

Fonte: Acervo pessoal

Os autores não economizam elogios e metáforas, para exaltar a trajetória do agave na Paraiba. Eles fazem uma dedicatória bastante significativa na contra-capa do livro, o que nos faz entender que mesmo propondo uma exaltação dos fazendeiros que arriscaram a cultura do agave, os autores também fazem uma homenagem aos trabalhadores, aos personagens que não ocuparam o cenário político ou econômico, mas que rasgaram suas vidas nas plantações

ÊSTE livro é uma homenagem aos trabalhadores anônimos do Sisal – homens e mulheres, meninos e môças, caboclos e caboclas que, silenciosamente, resignadamente, ganhando salários de fome, constróem as fortunas dos faraós da planta maravilhosa.

Esses autores não deixam de associar a divindade do agave com a terra seca e assolada pelo sol. Veinculavam a ideia de que a chegada do agave em terras paraibanas foi um último sopro de esperança para a uma terra doente e atormentada, uma terra que “tremia de febre”.

A primeira imagem é que o sisal foi um milagre, capaz de alterar a paisagem e a vida dos paraibanos, vejamos um pouco desse apaixonado relato:

A terra sêca da Paraiba tremia de febre e exalava um cheiro de fogo. Mas, de repente, seus homens abúlicos e desiludidos foram contemplados com um sorriso dos deuses. As linhas que seguem contêm a história dessa terra, desses homens e dêsse sorriso. É a narração de um passado dramático e de uma atualidade repleta de realidades apaixonantes, com tristezas e aleluias, e também com uma benção do céu, que transformou os solos mais estéreis do mundo em tapetes verdes, pródigos e ricos. Portanto, meu amigo, o que você vai ler é a Epópeia do Sisal, a fibra côr de ouro que brotou nos campos áridos, explodindo maravilhosamente, em desertos inanimados, comoum milagre. [...] a Civilização Dourada, esplêndido fruto de uma planta sensacional (p, 15-16) – (Grifos nossos).

É ainda interessante notarmos que o texto, sobre a civilização dourada é, também, traduzido para duas línguas, espanhol e inglês. Isso indica que o livro deve ter tido uma circulação maior do que somente a região da do estado da Paraíba. Se lê em uma das orelhas

do livro: “„A CIVILIZAÇÃO DOURADA‟” – creiam – é, finalmente, mais um êxito de José

Leal – êste jornalista de cinco continentes, de sete mares e de todos os céus do mundo”. Ao celebrar o sucesso que o agave obteve nos primeiros anos de sua implantação em terras paraibanas, José Leal forneceu a essa planta um aspecto divino, criou uma representação sagrada para aquela planta que, sob seu olhar, contribuiria de forma considerável para a salvação do Nordeste e de seu povo. O agave era para esse jornalista, que escreve em meados da década de sessenta é “um sorriso dos deuses” (p, 15), sorriso tão esperado pelos sertanejos, que viria transformar as áridas terras do Nordeste brasileiro, concedendo-lhes cor e vida, fazendo daqueles “desertos inanimados”, brotar vida como que em um milagre do céu;

a fibra côr de outro que brotou nos campos áridos, explodindo malmente, a maravilhosamente, em desertos inanimados, como um milagre. É igualmente, a historia da luta do homem contra a Natureza,

que conspirava para sua destruição. Assim, neste cenário de tantas amarguras que é o Nordeste, vamos encontrar agora uma nova civilização: a Civilização Dourada, esplêndido fruto de uma planta sensacional (LEAL; MORORÓ, 1966, 16).

“A civilização dourada”, é ainda, uma apologia àqueles que, de certa forma, haviam

“descoberto” esse tesouro, a reportagem busca nomear os pioneiros nesse empreendimento de

sucesso. Os autores apontam como os percussores do agave na Paraíba, Aristides Madeira e Adroaldo Guedes, que trouxeram as primeiras mudas, e de certa forma, iniciaram uma difusão daquela estranha planta. É importante ressaltar que, o agave é trazido para a Paraíba, e em um primeiro momento é visto como apenas uma planta ornamental. Isso certamente se deu por sua beleza e destaque em meio à vegetação nativa, seu verde exuberante deve ter chamado a atenção e olhares de muitos curiosos (LEAL; MORORÓ, 1966, p, 19).

Embora destaque a participação dos dois agricultores citados acima, os autores fazem referência ainda a outros personagens que participaram do processo de introdução dessa planta na Paríba. De acordo com Horácio de Almeida71, a Paraíba havia tomado conhecimento do agave por meio de Germano de Freitas, bem como, tem muita importância a figura de um sacerdote do interior do Estado. O vigário de uma cidade chamada de Cuité, o Padre Luiz Santiago, ou como ficou conhecido nas cidades e povoados por onde passou, o Padre Lula.

A chegada do agave transformou não só o cenário econômico, mas, criou outras paisagens, instituiu outras relações de poder, despertou novas e múltiplas sensibilidades e percepções de vida. A implantação dessa cultura veio modificar o próprio cotidiano e as relações sociais dos agricultores, como nos sugere Michel de Certeau (2012, p, 184), “O

espaço é um cruzamento de móveis. É de certo modo animado pelo conjunto dos movimentos

que aí se desdobram”.