4. Resultater del 1
4.14 NorSDSA - Prikkoverstryking – antall miss
Os ambientes escolhidos pelas dramistas para realizarem suas performances variam/variavam de região para região do Ceará. No Litoral Leste (BARROSO, no prelo) e Litoral Oeste (FREITAS, 2006) os dramas eram apresentados em pequenos circos que levavam alegria e humor aos interiores do Ceará. Freitas descreve os palcos de madeira que eram montados, desmontados e transportados pelas próprias dramistas. Segundo ela, eram restos de caixotes disponibilizados por comerciantes locais, transformados em tablados sobre os quais
as comédias de dramas eram apresentadas. No Litoral Leste, Barroso (no prelo), afirma que os palcos eram feitos de tábuas pregadas em uma base de forquilhas e varas fincadas ao chão. De modo geral, os palcos eram “arranjos feitos pelas dramistas com os recursos que elas tinham mais à mão”. Outro recurso usado pelas dramistas era juntar mesas resistentes, cujas pernas eram fincadas alguns centímetros no solo para suportar com segurança os solavancos produzidos pela dança.
Pontes (2011) explica que nas comunidades rurais de Tianguá as comédias de dramas aconteciam nas casas de famílias que possuíam ambientes espaçosos capazes de comportar tanto as brincantes quanto o público. Assim, os pontos escolhidos para a realização do espetáculo eram salas ou varandas com uma porta de quarto voltada para elas, “pois as dramistas necessitavam de um local extra por trás do palco para trocar [trocarem] suas indumentárias”. (PONTES, 2011, p. 76)
Como se observa, a existência do palco convencional não é condição imperativa para a encenação dos Dramas Populares. Eles são apresentados tanto em teatros quanto em outros ambientes como palanques públicos, auditórios, quadras de colégios e até mesmo em tablados apoiados em caixotes, quintais e terreiros. Contudo, no drama popular ou drama cantado não importa palco, cenário ou figurino, pois a dramista é o elemento imprescindível.
No tocante à iluminação, até o final da década de 50, a energia elétrica foi precária no Ceará. Em alguns municípios era produzida por geradores a diesel. À meia noite, os geradores eram desligados e as residências passavam a ser iluminadas por lamparinas a querosene. Nos primeiros anos da década de 60 o governador Virgílio Fernandes Távora trouxe para o Ceará a energia de Paulo Afonso. Contudo, a falta de energia elétrica nunca impediu a realização das noitadas de dramas. As famílias dotadas de maior poder aquisitivo e que apoiavam a iniciativa das dramistas acendiam lampiões em pontos estratégicos da área demarcada para a apresentação ou grandes fogueiras que iluminavam o ambiente e aqueciam brincantes e espectadores. Quando as apresentações aconteciam nas casas ou galpões destinados ao armazenamento do produto colhido no campo, candeeiros ou lamparinas a gás eram os responsáveis pela iluminação do ambiente.
Barroso testemunha acontecimentos dessa natureza nas noitadas de drama do Litoral Leste:
[...] nos dramas populares dos distritos e vilarejos, até os anos 60, quando lá não chegava lampião de gás, reinava a lamparina a querosene, quatro grandes, feitas com latas de Leite Ninho e pavio comprido, uma em cada ponta do retângulo, que formava o palco. Depois chegou o lampião de gás e a lâmpada petromax. (BARROSO, no prelo)
Pontes (2011) referindo-se à lamparina como luminária importante nas comunidades interioranas onde inexistia a energia elétrica comenta que:
As apresentações realizadas com esse tipo de iluminação remetem-nos a uma vivência muitas vezes inimaginável por nossa geração, já que hoje é tão comum encontrarmos energia elétrica praticamente em todas as comunidades que visitamos [quando de seu trabalho de campo]. De forma menos comum, a lamparina ainda faz parte da rotina diária de boa parte das pessoas que moram em zonas rurais isoladas. (PONTES, 2011, p. 71)
Depois do advento da energia de Paulo Afonso, alguns municípios passaram a dar mais condição ao trabalho das dramistas. Barroso (no prelo) afirma que “nos colégios do Aracati, os dramas eram apresentados nos auditórios, onde não faltava palco, com luz e cortina apropriadas”.
Em qualquer das situações de palco ou de iluminação nas várias localidades do Ceará onde os dramas foram/são praticados, a cortina ou empanada é um item indispensável; para o drama. Normalmente a empanada era, e em algumas situações continua sendo, construída a partir de lençóis ou toalhas de mesa emendadas umas nas outras por costura muitas vezes feita à mão. Isto acontecia porque tais utensílios, em muitas ocasiões, precisavam ser devolvidos às mães ou parentas das dramistas ou às proprietárias das casas onde os dramas foram realizados. Quando os dramas são apresentados nos palcos convencionais, a empanada sustenta-se como a cortina tradicional do teatro. Mas, quando se apresentam em ambientes improvisados aparece presa em estacas ou varas e, não raro, sustentada por duas pessoas posicionadas uma de cada lado do que seria o palco. Também aparecem como proteção de pequenos ambientes reservados à troca de indumentária das dramistas.
Em Lagoinha de Quixeré, situada da Região do Vale do Jaguaribe, o cinegrafista Marcos Cortez registrou um palco que parece querer simular, mesmo
que de forma improvisada, o modelo do palco italiano, que atualmente é utilizado pela maioria das comunidades onde os dramas ainda são apresentados. Trata-se de um tablado feito de pedaços de madeira formando um quadrilátero ou retângulo. Mede, aproximadamente, uns 12 metros quadrados. As duas paredes laterais e a do fundo do palco são construídas de um mesmo tecido, normalmente liso e de cor escura. Já a empanada ou cortina, varia bastante. Segundo as dramistas de Quixeré com quem o maestro Rômulo Santiago Félix conversou, algumas vezes é feita de tecido escuro. De outras, usa-se de cor branca com detalhes estampados de flores para dar maior destaque e alegria ao ambiente.
Fig. 2. Modelo de palco em Lagoinha do Quixeré – Ceará. Imagem de Marcos Cortez. Comédia de Dramas encenada na noite de 19/03/2014. Pela escassez de espaço, os tocadores posicionam-se abaixo do palco. O tecido verde-musgo delimita as duas laterais e o fundo do palco; o tecido branco com detalhe de flores coloridas é a empanada.
Atrás da empanada é lugar de preparação, troca de indumentária, caracterização de personagem, concentração, enfim, de movimentação frenética nos momentos que antecedem à entrada no palco. Pontes descreve este momento importante vivido no cotidiano das dramistas de Tianguá:
Atrás da empanada é aquele corre-corre: tira uma roupa, veste outra, lava o rosto, muda a maquiagem, isso tudo de forma rápida, enquanto outras dramistas estão se apresentando. Essa forma de se apresentar torna o processo muito criativo e dinâmico. Tudo tem que ser preparado com bastante antecedência, porque na hora da atuação não há tempo para reparar erros. A indumentária tem que estar pronta para aquele momento. (PONTES, 2011, p. 70)
Mas, quando a empanada se abre e as dramistas surgem diante do público, aquela lâmina de tecido transforma-se no limite que separa “a realidade vida e cena; divide e dá a ver o momento a partir do qual a realidade se subverte em teatro”. (PIRAGIBE, 2010)
Em Lagoinha do Quixeré a quarta parede do palco, a que fica ao fundo e é visível ao público, na realidade esconde a parede de uma casa à qual o palco/palanque fica encostado. A porta da casa fica disfarçada por uma toalha ou lençol. É por ela que as dramistas entram na casa para trocar a indumentária antes da apresentação de uma nova peça.
Fig. 3. Vista frontal do modelo de palco utilizado em Lagoinha do Quixeré. Observa-se no fundo do palco a porta de uma casa disfarçada com uma espécie de lençol. É, na realidade, um camarim improvisado onde as dramistas trocam as indumentárias. Imagem de Marcos Cortez.
Não se sabe ao certo a origem da palavra empanada usada no fazer dos dramas cantados. Piragibe (2010) afirma que está associada ao teatro de bonecos. Seria, portanto, a armação de madeira e pano [daí empanada] que tem por finalidade ocultar o manipulador dos mamulengos do público assistente determinado, também, a área de representação. Barroso refere-se à empanada como uma armação de tecido que cobre o circo de dramas ou o palco onde o drama vai ser encenado. Mas, denomina de cortina o tecido estendido na frente do palco que delimita o espaço entre a área de apresentação das dramistas e a plateia. Tal descrição leva-me a visualizar uma espécie de tenda, sob a qual fica a plateia. O palco com as encenadoras parece localizar-se em uma residência na frente da qual o circo estaria armado. A mestra dramista Neves Monteiro, uma das memorialistas
entrevistadas por Barroso, descreve o ambiente onde os dramas do Litoral Leste eram apresentados:
O circo do drama era onde ficava o pessoal que ia assistir, e a casa era o palco onde as dramistas iam trabalhar. O palco era coberto também. Como uma empanada, uma casa formada de tecido. Quando tinha possibilidade, faziam de palha, uma parte, mas era sempre coberta com aqueles tecidos, pra dar uma impressão melhor na casa, era colcha de cama, umas colcha bonita [colchas bonitas] de chenile, aí fazia [faziam] aquelas cortinas. (NEVES MONTEIRO apud BARROSO, no prelo).
Nos dramas estudados por Barroso, a palavra empanada aparece claramente associada à cobertura dos circos, a quem ele atribui a origem dos dramas cantados do Litoral Leste. Mas, em Guaramiranga, as dramistas foram unânimes em denominar de empanada somente o tecido que no teatro clássico ocidental é conhecido por cortina. Mas, nenhuma das entrevistadas soube esclarecer sua origem.
Atualmente, os grupos de dramas que resistiram e sobreviveram ao tempo e os que foram recriados mediante estimulo de pesquisadores ou da implantação de projetos socioculturais por parte da instituição públicas, apresentam-se em teatros, palanques ou auditórios. A empanada continua sendo a cortina tradicional ou a improvisação de lençóis, colchas de cama ou toalhas de mesa emendadas umas às outras, como ainda acontece em algumas apresentações tanto na capital quanto no interior cearense.
Com relação aos cenários, as dramistas dizem que na maioria das vezes eles são virtuais e sugeridos pela própria cena. Quando existem, pouco ou quase nada interferem nos dramas tornando-se, por este motivo, plenamente dispensáveis, o mesmo acontecendo com o pano de fundo. No palco, vez por outra aparecem discretos jarros de plantas ou flores; mobiliários como mesa, cadeira ou sofá; pequenos objetos como copo, garrafa, prato, colher, bule de café, balde, pincel, vassoura, espanador etc. Tudo isto de acordo com a temática do drama apresentado. Em alguns distritos são penduradas bandeirinhas feitas de papel colorido presas em um barbante para enfeitar a parte superior do palco. Às vezes, as bandeirinhas também são posicionadas sobre a plateia de modo parecido ao que se faz nas festas juninas nordestinas.