NORMER OG RETNINGSLINJER FOR LUFTKVALITET
2 NORMER OG RETNINGSLINJER .1 Karbonmonoksyd, CO
A dimensão pedagógica do ecoturismo é um processo eminentemente discursivo. Ou seja, se a natureza em si é um elemento fundamental na experiência do ecoturismo (Blamey, 2001), ela é também apresentada discursivamente (Cox, 2010). Ora, o discurso ocorre no quadro de regras de interacção, logo, de dinâmicas específicas entre os intervenientes, seja o tipo de interacção estabelecida fruto de uma decisão consciente ou não. Tal como referido anteriormente, a interpretação pode assumir diferentes formas, mais formal ou informal, interactiva ou unidireccional, etc. O tipo de interpretação subentende, seja uma decisão consciente ou não, como referimos, uma forma de ver o seu interlocutor.
Para ilustrar este argumento, citemos Dominique Wolton (1999), que enquadra o processo comunicacional no contexto de uma estrutura transversal de valores: “Nunca existe comunicação por si, ela está sempre ligada a um modelo cultural, ou seja, a uma representação do outro, uma vez que comunicar consiste em difundir mas, também, em interagir com um indivíduo ou uma colectividade” (Wolton, 1999: 15). Segundo o autor, aquilo que caracteriza a comunicação, independentemente dos seus contornos e intencionalidades, é a interacção. No entanto, Wolton realça que interacção não é sinónimo de intercompreensão (Wolton, 1999: 16), um aspecto determinante, como veremos de seguida.
Tal como no caso do ecoturismo, para evitar uma visão redutora e procurar incluir a grande diversidade de realidades existentes, parece-nos que a nossa reflexão sobre as dinâmicas comunicativas na pedagogia deste sector turístico será melhor servida pelo recurso a um contínuo que nos permita qualificar a intencionalidade e correspondentes implicações dos fluxos de comunicação. Num extremo, consideremos a comunicação normativa e, no outro, a comunicação funcional (Wolton, 1999).
“Por comunicação normativa, devemos entender o ideal de comunicação” (Wolton, 1999: 17). Nesta dinâmica, as palavras-chave são o intercâmbio, a partilha, a compreensão mútua. Note-se que “quem diz compreensão mútua pressupõe a existência de regras, de códigos e de símbolos. Ninguém aborda 'naturalmente' ninguém” (Wolton, 1999: 17). Assim, mesmo a comunicação ideal, como qualquer outra, ocorre no quadro de regras. No outro extremo, temos a comunicação funcional. Por esta última, “é preciso entender as necessidades de comunicação das economias e das sociedades abertas, tanto para as trocas de bens e serviços como para fluxos económicos, financeiros e administrativos” (Wolton, 1999: 17). Tratando-se de intencionalidades-tipo, encontram-se ambas, em diferentes proporções, nas realidades do discurso pedagógico do ecoturismo. Trata-se sobretudo de perceber com que intenção é que as regras sociais do discurso são utilizadas: para nos compreendermos mutuamente ou, pelo contrário, para fazer valer ou mesmo impor determinados interesses. Este aspecto é particularmente importante no caso do ecoturismo devido às tensões existentes entre imperativos económicos e ecológicos, sobre as quais o próprio conceito se forjou, de certa forma, e sobre as quais já nos debruçámos no primeiro capítulo.
Podemos então considerar que, consoante o quadro ético assumido por determinado projecto ecoturístico, a operacionalização das regras do discurso pelo ecoturismo na sua dimensão pedagógica pode pender mais para o lado normativo ou para o lado funcional da comunicação, sendo assumida uma maior valorização de factores ecológicos ou económicos, respectivamente. Se nos debruçarmos sobre a definição que Kohl (2008) faz da interpretação, e que, como referimos, pende mais para o modelo minimalista de ecoturismo, podemos considerar, nesse contexto,
baseando-se no 'compromisso' com os 'interesses' das 'audiências', termos cuja utilização não é inocente no caso deste autor, que se trata de um discurso predominantemente funcional, onde os conceitos de 'conhecimento' e 'intercompreensão' não têm o seu lugar. Interessa, pois, agradar ao cliente antes de mais. Ora, como referimos anteriormente, a definição de interpretação de Kohl (2008) parece-nos ficar aquém das múltiplas realidades do ecoturismo, da mesma forma que não reconhece o potencial da interpretação para o aumento da satisfação do cliente, que referimos no capítulo anterior.
Uma perspectiva absolutamente distinta é a de Weaver (2005) que, por exemplo, criou um modelo compreensivo de ecoturismo que envolve uma dimensão pedagógica em que se procura proporcionar uma compreensão profunda e transformadora (do ponto de vista pessoal e interior) dos assuntos abordados (Weaver, 2005). No que diz respeito às dinâmicas comunicativas estabelecidas, a própria apelidação do modelo sugere, desde logo, uma tomada de posição muito firme.
Também no caso de Kimmel (1999), a interpretação é utilizada como ferramenta de intercompreensão e de estímulo intelectual, indo para além dos factos, e convidando todos os intervenientes, incluindo o intérprete ou guia, a participar no processo de reflexão. Nesse sentido, equiparamos tal uso da interpretação a uma comunicação predominantemente normativa.
Do seu lado, e à semelhança de Weaver, Orams (1995) caracteriza igualmente a função pedagógica do ecoturismo consoante a orientação global de um projecto de ecoturismo, que pode estar algures num contínuo polarizado entre um extremo “low human responsability pole” e outro extremo “high human responsability pole”. É aproximando-se deste último extremo que a interpretação tem a possibilidade de concretizar o seu potencial de incentivar uma consciência ecológica e promover a adopção de comportamentos mais sustentáveis. Apesar de não ser estabelecida explicitamente uma relação entre essa forma de interpretação e a intercompreensão, existe uma associação com a aprendizagem e o enriquecimento da experiência pessoal. Nesse sentido, parece-nos legítimo associar também a interpretação de um ecoturismo predominantemente “high human responsability” a uma comunicação predominantemente normativa.
Podemos, então, estabelecer um paralelo entre estas diversas formas de interpretação, associadas a realidades particulares de ecoturismo, e o contínuo polarizado pela comunicação normativa e funcional. Esta qualificação tem consequências ao nível do próprio potencial que a dimensão pedagógica do ecoturismo tem de incentivar uma consciência ecológica, sendo tanto maior quanto mais normativas forem as dinâmicas comunicacionais do seu discurso. Por exemplo, para Orams (1995), é na concretização deste potencial que reside o turismo referido como desejável. Assim, “tourism operations (...) which claim the positive connotations associated with the prefix 'eco' should strive to be more than just that” (Orams, 1995: 3). O desafio é “to assist in moving
ecotourists from a minimal 'passive' position to a more 'active' contribution to the sustainability of 'eco-attractions' (Orams, 1995: 5). Ora, esse é um objectivo que se pretende atingir através da interpretação, logo de uma situação de comunicação muito específica, predominantemente normativa, que apresenta um maior potencial para a concretização dos objectivos propostos.
Depois de nos termos debruçado sobre a caracterização da interpretação, a subjacente dinâmica comunicacional e o correspondente potencial para incentivar uma consciência ecológica, realcemos, então, que a opção de uma comunicação predominantemente normativa ou funcional que, como vimos, está enquadrada num conjunto de regras e valores, levanta a questão de saber como é representado “o outro”, para retomar a formulação de Wolton. É um mero receptor de mensagens ou um interlocutor?