• No results found

Noen overordnede utfordringer

Del V Vurderinger og forslag

10 Utvalgets vurderinger og

10.2 Noen overordnede utfordringer

No campo que indica – local onde fez o curso primário – chama a atenção a diversidade e, em especial, o alto índice de candidatos, aproximadamente 90%, provenientes basicamente dos Grupos Escolares, ou seja, das escolas públicas. Nos dois anos cujos dados foram lançados em tabela (1957 e 1958), é notável a baixa procura dos alunos que completaram o ensino primário nas escolas particulares. Dentre as doze escolas com maior número de candidatos inscritos no processo de admissão do Colégio Estadual de 1956/57, apenas um, o Colégio Izabela Hendrix, era particular78.

78 Ver a listagem completa nos anexos 2.

78

Tabela 13: Tabela parcial. Candidatos ao Exame de Admissão ao 1º Ginasial dos anos de 1956 e 1958. Resposta à pergunta: Onde fez o Curso Primário? Fonte: Livro de Registro de Inscrição ao Exame de Admissão ao 1º ginasial de 1957 e 1957 (s/n). Acervo Colégio Estadual

Governador Milton Campos.

Candidatos ao Exame de Admissão para o ano letivo de

1956/57- Onde fez o primário Total

Não informado79 14% 72

Grupo Escolar Barão do Rio Branco 14% 71 Grupo Escolar Pandiá Calógeras 7% 34 Grupo Escolar Afonso Pena 4% 19 Grupo Escolar Bernardo Monteiro 4% 19 Grupo Escolar Barão de Macaúbas 4% 18 Grupo Escolar Lúcio dos Santos 3% 15 Colégio Izabela Hendrix 3% 14 Grupo Escolar Olegário Maciel 3% 13 Instituto de Educação 2% 12 Grupo Escolar Professor Caetano Azeredo 2% 11 Grupo Escolar Augusto de Lima 2% 10 Não identificado 2% 10 Grupo Escolar Dom Pedro II 2% 10

Esse dado se aproxima da pesquisa realizada por Angélica Minhoto (2008, p. 452) sobre a articulação entre primário e secundário na era Vargas. Das cinco escolas de ensino secundário investigadas em seu estudo, quatro instituições privadas (SP) ofereciam à época o curso primário e era alto o índice (76,6%) dos ingressantes com experiência no Ensino Primário. Além disso, os registros revelaram que esses alunos permaneciam, no curso secundário, na mesma instituição de ensino que haviam frequentado no primário. Essa constatação, segundo Minhoto, é significativa, pois evidencia a existência de unidade e progressividade entre os dois âmbitos de ensino, nas instituições em apreço, ou seja, nas particulares. Nessas, a ideia era de uma progressão. Mesmo quando os alunos não eram aprovados nos exames, no final da 4ª série primária, eles permaneciam na mesma instituição de ensino e faziam a 5ª série. Geralmente conseguiam o ingresso após o ano adicional (p.453).

Minhoto (2008) constatou, portanto, o papel contraditório do Estado no que se refere à articulação entre o Ensino Primário e Secundário à época (o que não mudou na década de 50 e 60), visto que, à medida que instituiu um exame com o objetivo explícito de

79 O alto índice do “não informado” se refere àqueles que anotaram a cidade de origem ou então o nome do curso preparatório, ao invés de responder à pergunta feita: onde fez o curso primário. Desconsideramos, dessa forma, essa informação. O total se refere aos 500 candidatos do ano 56/57. O arredondamento da casa decimal fez com que houvesse uma diferença nos números de candidatos em relação à porcentagem.

79 regular a progressão escolar do aluno em termos de mérito (ou seja, o exame de admissão), buscando qualificar o Ensino Secundário, acabou preservando, e mesmo fortalecendo, a dualidade presente na escola elementar” (p. 451).

No caso dos candidatos ao exame de admissão do Colégio Estadual, a procura era dos alunos oriundos dos grupos escolares já que não havia essa articulação no caso das escolas públicas. Estamos falando de inúmeros grupos escolares da cidade de Belo Horizonte e do interior do estado para uma única escola estadual e um colégio municipal. Segundo relatório apresentado por Jayme Abreu (1962) na Conferência de Santiago do Chile, aqueles que, em 1959, chegavam ao ginasial representavam apenas 11% do total da matrícula na escola primária80.

A maior concentração de candidatos a uma vaga no Colégio Estadual é proveniente dos grupos escolares instalados dentro do perímetro da Avenida do Contorno de Belo Horizonte81. Esse perímetro demarca também um pertencimento social, pois abrigava as camadas média e alta da sociedade belo-horizontina. Segundo Faria Filho (2000), os grupos escolares, nas primeiras décadas do século XX, e que tiveram pouca alteração até a década de 1950, ocuparam não apenas os “melhores prédios”, mas também aqueles mais centrais, o que denota,

além da importância atribuída aos grupos escolares na composição do desenho urbanístico da cidade, um esforço por demonstrar a centralidade que o lugar da educação escolar deveria representar no interior da cidade, como projeção política da ordem social que se queria impor ao conjunto da população, particularmente aos mais pobres (...) Também em Belo Horizonte, a cidade projetada e construída para dar visibilidade à “modernidade” republicana, tanto a localização quanto o processo de

80 A Conferência sobre Educação e Desenvolvimento Econômico e Social na América Latina, realizada

em Santiago do Chile de 5 a 19 de março de 1962, teve seus trabalhos distribuídos em três Comitês, cujos temas eram Educação, Planejamento e Cooperação Internacional. Segundo Abreu (1962, b): “De uma população escolar de 7 a 14 anos (dados de 1959), constante de cerca de 14 milhões e duzentos mil alunos, frequentariam escolas primárias pouco mais de 50%, ou seja, cerca de 7 milhões e 500 mil, o que significa um absenteísmo escolar total de população discente da casa dos 6 milhões e setecentos mil, só dos que nunca frequentaram escola. A isso, que é tanto, acresçam-se ainda os fatos de que a matrícula nas quarta e quinta séries do ensino elementar, somada à das duas primeiras séries do ensino médio, que abrange período de idade de 12 a 14 anos, não atinge a mais de 11% do total da matrícula na escola primária; de que essa matrícula na escola primária é computada à base do funcionamento de turnos escolares em boa parte triplicados e até mesmo quadruplicados; de que o Brasil é, como a Colômbia, exceção aos seis anos de escolarização primária vigente nos demais países latino-americanos, tendo, inclusive, a Argentina uma escola primária de sete anos de duração”.

81 A Avenida do Contorno, como o próprio nome diz, contorna a região central de Belo Horizonte. Seu desenho segue o traçado planejado anteriormente à construção da cidade. Originalmente, o projeto previa a urbanização apenas da área limitada pela avenida, mas com o intenso desenvolvimento no século XX a cidade ultrapassou os limites muito antes do esperado.

80

organização dos primeiros grupos escolares denotavam claramente os privilégios da população da região central da cidade em detrimento à população suburbana (p. 42).

O Grupo Escolar Barão do Rio Branco82, concentrava o maior número de candidatos ao

Exame de Admissão; praticamente o dobro do segundo, o Grupo Escolar Pandiá Calógeras. Levando-se em conta o alto número de candidatos agrupados no “não informado”, esse número pode ser ainda maior. O “Barão”, como é chamado pelos ex- alunos, foi o primeiro grupo escolar da capital, criado em 1906 como “1º grupo” e em 1912, nomeado Grupo Escolar Barão do Rio Branco. Segundo Faria Filho (2000), para as diretoras, “a escolha de determinados nomes para os grupos, como no caso do Barão do Rio Branco, em substituição à antiga identificação ordinal, era vista como uma distinção” (p. 50).

Frei Betto (2002), ex-aluno do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, lembra que por influência do nome,

o pessoal do Barão trazia o nariz empinado, considerando-se escola de elite, embora abrigasse também filhos da escassez. Já o do Afonso Pena exibia uniformes cobertos de

remendos e sapatos toscos impregnados de barro83 ( p. 88).

O Grupo Escolar Augusto de Lima, onde estudou Marta, ex-aluna do Estadual, tinha apenas 2% dos candidatos no ano de 1956/57. Ela comenta sobre os seus colegas de grupo.

Tinha eu, filha de empregada doméstica; tinha favelados, porque a partir da Praça da Catedral, o que hoje é Praça Milton Campos era Praça da Catedral e dali para cima era Favela do Pendura Saia. Crianças faveladas iam estudar no Grupo Escolar Augusto de Lima. E, juntamente, com a gente, os pobres e pretos nesta escola, havia crianças da alta classe média. Eu me lembro de ter sido colega de filha de deputado estadual (...)da filha do Zatz, da Fotos Zatz. Ou seja, havia meninos e meninas que moravam ali na Rua do Ouro, na Rua Professor Estevão Pinto. (...) Todo mundo misturado, eu tenho fotos da minha formatura do 4º ano primário, eu ali e menino preto, menina preta, sabe... Tudo misturado, gente “chiquerésima” com gente mais simples (Marta, ex-aluna).

Muitos dos alunos desses grupos escolares, por motivos diversos, em maior ou menor número, disputaram uma vaga no Colégio Estadual: alguns da “alta classe média”; os

82 Segundo Faria Filho (2000, p. 47), “esse grupo começou a funcionar em prédio inicialmente destinado à residência do secretário do Interior, na Av. Liberdade, muito próximo à Praça da Liberdade. (...) Em 1914, o grupo ganhou novo prédio, na Av. Paraúna (hoje Av. Getúlio Vargas), sendo para o seu lugar deslocado o segundo grupo (Afonso Pena)”.

83 O Grupo Escolar Afonso Pena, mencionado por Frei Betto, com apenas 2% dos candidatos, fica, ainda

81 “filhos da escassez”; aqueles de “sapatos toscos”; “os pobres”; e os “pretos”. Outros, a maioria, nem tentariam.

Dentro dessas condições explicitadas por Jayme Abreu e por aquilo que os dados indicam, chegar até o momento do exame de admissão significava ir longe demais. Por qual motivo se inscreviam mais alunos do Grupo Escolar Barão do Rio Branco no exame de admissão do Colégio Estadual? O que levava parte das famílias desse grupo escolar buscar esse caminho para o seu filho? Ao cruzarmos os dados Profissão dos Pais ou responsáveis com o Grupo Escolar de origem (tabela 14), teremos que o Grupo Escolar Barão do Rio Branco, apesar da heterogeneidade dos grupos escolares, era o que possuía o maior número de famílias oriundas das classes C e D, ou seja, aquelas favorecidas economicamente.

Os alunos provenientes do Grupo Social A e B, em termos de representatividade, estão em desvantagem em todos os doze grupos escolares que mais encaminhavam alunos para o exame de admissão do Colégio Estadual, ao contrário dos Grupos C e D que estão representados em todos eles.

82

Tabela 14: Tabela parcial dos Candidatos ao Exame de Admissão ao 1º Ginasial dos anos de 1956 e 1958 X Origem Social. Fonte: Livro de Registro de Inscrição ao Exame de Admissão ao

1º ginasial de 1957 e 1957 (s/n). Acervo Colégio Estadual Governador Milton Campos.

Ouvindo os ex-alunos com relação à antessala de entrada do Colégio Estadual, identificamos algumas exigências que significavam, para muitos, grandes obstáculos. Para entrar nessa disputa era necessário, além do mérito intelectual, um investimento também financeiro. No caso de Marta, filha de uma empregada doméstica, havia, inclusive, “uma aposta” de que ela não passaria. Lembra que uma das patroas de sua mãe dizia que estaria jogando dinheiro fora, ao que sua mãe respondeu: “se ela perder, eu vou lá e peço o dinheiro de volta”, porque tudo fazia falta pra nós (Marta, ex-aluna). Marta conseguiu a ajuda de uma das patroas e pôde se preparar em um cursinho e isso fez toda a diferença. Se assim não fosse, provavelmente, não teria conseguido.