10 Oppsummering. Avslutning
10.2 Noen avsluttende kommentarer
Félix Guattari (1992) defende que essas evoluções técnico-tecnológicas, conjugadas às novas experimentações nas relações sociais, “nos obrigam a considerar, simultaneamente, uma tendência à homogeneização universalizante e reducionista da subjetividade e uma tendência heterogenética, [...] da singularização de seus componentes” (GUATTARI, 1992, p.15). Isso quer
13 “O sinóptico é, por natureza global, o ato de vigiar. Desprende os indivíduos de sua localidade, transporta-os, pelo menos, espiritualmente, ao ciberespaço, no qual não mais importa a distância, ainda que fisicamente permaneçam no lugar. […]. Onde quer que esteja e para onde quer que vá, eles podem ligar-se − e se ligam − na rede extraterritorial. […]. O panóptico forçava as pessoas a uma posição em que podiam ser vigiadas. O sinóptico não precisa de coerção − ele seduz as pessoas à vigilância” (BAUMAN, 2001, p. 60)
dizer que em nossa vida cotidiana, que se constrói e se apresenta imersa nessa complexidade mutável, a formação dos sujeitos contemporâneos transita, de um lado, assujeitada às instâncias sociais produtoras de subjetividades – família, escola –, que buscam instituir formas subjetividade (produção de subjetividade assujeitada), e de outro lado à criação de novos processos de agir e pensar, que viabilizam a produção de subjetividades singularizadas (MIRANDA, 2002; 2005). Para tanto, Foucault defende que devíamos nos livrar
[…] deste “duplo constrangimento” político, que é a simultânea individualização e totalização própria às estruturas de poder moderno. A conclusão seria que o problema político, ético, social e filosófico de nossos dias não consiste em tentar liberar o indivíduo do Estado nem das instituições do Estado, porém nos libertarmos tanto do Estado quanto do tipo de subjetividade que a ele se liga. Temos que promover novas
formas de subjetividade através da recusa deste tipo de individualidade [grifo
nosso] que nos foi imposto há vários séculos (FOUCAULT, 1995, p. 239).
Guattari (2010), cujas reflexões se fazem na esteira do pensamento foucaultiano, também defende a dissociação radical entre os conceitos de indivíduo e subjetividade. Para o estudioso, “os indivíduos são resultados de uma produção de massa. O indivíduo é serializado, registrado, modelado” (GUATTARI; ROLNIK, 2010, p. 40). E quem registra essa marca da individualidade na subjetividade é o desenvolvimento do capitalismo mundial integrado, que “tende a criar padrões universais, a serializar [totalizações], ao mesmo tempo em que individualiza tais padrões [individualização] com um enorme poder coercitivo” (MIRANDA, 2005, p. 38). Para Guattari,
a subjetividade não é passível de totalização ou de centralização no indivíduo. Uma coisa é a individuação do corpo. Outra é a multiplicidade dos agenciamentos da subjetivação: a subjetividade é essencialmente fabricada e modelada no registro do social (GUATTARI; ROLNIK, 2010, p. 40).
Nessa ótica, Guattari (1992, p. 35) propôs um “descentramento da questão do sujeito para a da subjetividade”. Em outras palavras, o filósofo preferiu não mais trabalhar com a noção de sujeito, por considerá-la impregnada de um psiquismo individualizante14, para operar com a
14Deleuze e Guattari, em sua obra Anti-Édipo (1972), traçam uma crítica à individualização da subjetividade promovida por práticas psicanalíticas que, grosso modo, reduziram fatos sociais a mecanismos puramente psicológicos. Os autores evocam a não redução das relações de alteridade ao núcleo familiar (seja ela consanguíneo ou por derivações simbólicas) e a compreensão de que o romance familiar depende dos investimentos sociais e não o contrário. Conforme Miranda (2005, p. 35), Deleuze e Guattari colocaram no “lugar do inconsciente psicanalítico centrado nas relações familiares triangulares ou em objetos codificados no interior de uma semiótica psicanalítica”,
ideia de subjetividade, compreendida sob o ângulo da sua produção por instâncias individuais, coletivas e institucionais.
Dessa maneira, a subjetividade se torna “polifônica” (termo de Mikhail Bakhtin), “heterogenética”, desconhecedora de “instância dominante de determinação que guie outras instâncias segundo uma causalidade unívoca” (GUATTARI, 1992, p. 11). A subjetividade é produzida, portanto, por agenciamentos coletivos de enunciação que, conforme Miranda,
compreendem tanto o sujeito da enunciação (sujeito que narra) como o do enunciado (sujeito que diz ou fala) que podem se confundir numa só voz, onde uma fala não é necessariamente produzida por um sujeito, mas pode lhe ser anterior e coletiva. Na voz de um sujeito, ecoam inúmeras vozes: sujeito produtor e produto de vetores de subjetivação (MIRANDA, 2002, p. 102).
A autora confirma, portanto, o caráter social da subjetividade, visto que a compreensão de um enunciado proferido por um sujeito deve ser relacionada ao seu contexto e não a uma prática individual, pois sua “fala representa um entrecruzamento de vozes, de diversos discursos que lhe são anteriores” (MIRANDA, 2002, p.102).
Todavia, ao definir subjetividade como o conjunto das condições que possibilitam instâncias individuais e/ou coletivas a emergirem como território existencial15 autorreferencial, em adjacência ou em relação de delimitação com outra alteridade subjetiva, Guattari alerta que, a depender do contexto sócio-semiológico, a subjetividade pode se individuar. Isso se dá quando, por exemplo, “uma pessoa, responsável por si mesma, se posiciona em meio a relações de alteridade regidas por usos familiares, costumes locais, leis jurídicas…” (GUATTARI, 1992, p. 19-20).
Porém, em outras condições, a subjetividade se faz coletiva, o que não significa que ela se torne exclusivamente social. Assim, o autor defende que o termo “coletivo” seja entendido no sentido de uma multiplicidade (coabitação de diversas forças) que emerge para além do indivíduo, aquém da pessoa, mas junto ao socius.
Quando Guattari (1992) define a subjetividade individual, como resultante de entrecruzamentos coletivos, defende também que não se deve assumir uma posição ambientalista. Em outras palavras, não se deve realizar uma leitura do indivíduo como resultante do meio
um inconsciente maquínico, aberto ao movimento da história, não centralizado no passado, mas voltado ao futuro, às relações sociais circundantes, às interações econômicas, a um “desejo mais produtivo que constitutivo”.
15 Em sentido amplo, território existencial se refere tanto a um espaço vivido quanto a um sistema percebido, no seio do qual, um sujeito se sente “em casa” (GUATTARI; ROLNIK, 2010, p. 388).
ambiente, pois este também deve ser problematizado. “Ambos sofrem constantes atravessamentos, ligando-se em rede. A relação não é hierarquizada, mas rizomática” (MIRANDA, 2002, p. 103).
Logo, a subjetividade é produzida pelas experiências que o sujeito estabelece consigo mesmo, a partir do entrecruzamento das instâncias (individuais, coletivas, sociais, culturais, econômicas, tecnológicas, familiares, institucionais, dentre outras), cujos contornos são instáveis e transitam pelas visões de mundo de uma dada sociedade, numa dada época.
Da mesma forma que subjetividade não se confunde com individualidade, também não deve ser confundida com identidade. Conforme Guattari (GUATTARI; ROLNIK, 2010, p. 22), a identidade está ligada a algum tipo de reconhecimento individual ou coletivo, ou seja, a um quadro de referência que “rotula” o indivíduo na busca de outro igual a si mesmo.
Para Miranda (2002; 2005), ao viver a existência de forma única, no entrecruzamento de vetores de subjetivação e para além de uma referência identitária, a subjetividade potencializa estranhamento e, assim, torna-se singular. O processo de singularização da subjetividade recusa “todos os modos de encodificação preestabelecidos […] para construir modos de sensibilidade, modos de relação com o outro, modos de produção, modos de criatividade que produzam uma subjetividade singular” (GUATTARI; ROLNIK, 2010, p. 22).
De uma maneira geral, os processos de subjetivação admitem que cada indivíduo e/ou grupo social veicule seu próprio “sistema de modelização da subjetividade”, isto é, sua cartografia feita de demarcações cognitivas e que, a partir das quais, posiciona-se em relação aos seus afetos e efeitos. Desta forma, o indivíduo, na ótica de Guattari, encontra-se na “encruzilhada de múltiplos componentes de subjetividade” (GUATTARI; ROLNIK, 2010, p. 43). Entre esses, alguns são inconscientes; outros, pertencem ao domínio do corpo; outros, ao domínio da produção de poder; e, na hipótese do autor, existe o mais amplo componente a ser considerado: a denominada subjetividade capitalística.
Todavia, no seio do assujeitamento da subjetividade capitalística, surgem processos heterogêneos, desvios, criações, condições de possibilidades para construção de novos modos de ser e estar na cultura para além do capital. “Nessa predisposição à heterogeneidade, à processualidade e à criação de novos modos de subjetivação, circunscreve uma dimensão ético- estético-política” (MIRANDA, 2005, p. 43). Nesse ínterim, a Ética consiste em reconhecer a alteridade no desafio da convivência, envolvendo o exercício do pensamento para avaliar
acontecimentos e realizar escolhas potencializadoras de vida. A Estética traz a dimensão da criação que, na ausência de conhecimentos universais, desafia o pensamento, a ação e a sensibilidade para a produção de novos processos de existência. E a Política afirma a responsabilização pelos efeitos produzidos nas práticas e os riscos com as tensões e posições assumidas (GUATTARI, 1992).
Ao concluir, destaco que, ao apropriar-me das ferramentas conceituais anteriormente apresentadas e subsidiar-me no paradigma acima, o centro temático neste estudo consistiu em problematizar os efeitos das práticas discursivas e não discursivas de uma ONG nos modos de ser de adolescentes pobres, residentes de uma periferia fortalezense.
Nessa direção, nos próximos capítulos objetivei cartografar a teia saber-poder, que envolve enunciação e visibilidade dos dispositivos disciplinares/controlatos em operação no interior da instituição estudada, não no intuito de representar as histórias individuais, mas de analisar como esses sujeitos adolescentes, individuais ou coletivamente, posicionam-se nas práticas que ali circulam.
3 OS (des)CAMINHOS INVESTIGATIVOS
A seguir, descrevo minha aproximação à complexa realidade em estudo, orientada por pistas cartográficas que me auxiliaram a ser uma mediadora no exercício das problematizações em torno das situações cotidianas do campo empírico.