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Negotiating citizenship as participation

1. Introduction

6.2 Negotiating citizenship based on identity, belonging and participation

6.2.3 Negotiating citizenship as participation

publica

A «opinião pública», vista como processo democrático, pressupõe, desde logo, a aceitação de um determinado grau de participação dos cidadãos na formulação de respostas face a problemas de cariz público. Se a democracia é vista como sendo o «governo do povo sobre o povo», então o povo será em parte governante e em parte governando. Governante quando participa no processo democrático de eleição, governado quando se submete aos resultados eleitorais e às decisões do governo. Como, de resto, defende Giovanni Sartori, «as eleições são um meio cujo fim será o ‘governo de opinião’, uma acção de governo que em grande medida responde e corresponde à opinião pública».243

Efectivamente, e no que diz respeito à sua estreita relação com o processo democrático, um autor como Kimball Young formula da seguinte forma aqueles que considera ser os quatro aspectos essenciais da natureza da opinião pública enquanto processo ligado à democracia: i) a comunidade e o controlo político repousam num corpo composto por cidadãos adultos e responsáveis pertencentes à comunidade; ii) os cidadãos têm o direito e o dever de discutir acerca de problemas públicos sempre com os olhos postos no bem da comunidade; iii) dessa discussão pode resultar um certo grau de acordo; iv) o consenso será a base da acção pública.244 Com efeito, torna-se importante acrescentar que a discussão

pública sobre assuntos democráticos pressupõe um acordo em relação aos pressupostos da própria discussão. Se, em parte, o poder da democracia reside na delegação do poder nos líderes partidários, tal delegação implica, por outro lado, quer o direito de discutir as decisões tomadas, quer o direito de lhes retirar o poder sempre e assim que os pressupostos democráticos o permitirem.

Segundo Kimball Young, podemos descrever da seguinte forma as etapas correspondentes ao processo de formação da opinião pública: «algum tema ou problema começa por ser definido por certos indivíduos ou grupos interessados, como um problema que

243 Cf. Giovanni Sartori, Qué es la democracia?, Madrid, Taurus, 2007, p. 71. 244 Cf. Kimball Young et al, op.cit., p. 13.

exige solução». Nesta primeira etapa, assiste-se a uma tentativa de definir o problema e de possibilitar os desígnios que permitem desencadear a discussão pública. Posteriormente, surgem as chamadas «considerações preliminares e exploratórias». Ou seja, colocam-se questões acerca do tipo de problema, sua importância e forma de o encarar. Nesta fase, é possível que uma minoria de indivíduos tome parte activa no assunto procurando estimular o interesse geral pela discussão. A terceira parte diz respeito à apresentação e discussão de possíveis soluções. Neste ponto, é provável que se assista a um confronto entre logos e pathos, isto porque no processo de formação da opinião intervêm considerações racionais e emocionais. Finalmente, das conversações, discursos, debates, confrontação de posições na esfera pública, é possível que os indivíduos alcancem um determinado grau de consenso.245

Porém, a existência de consenso não significa um completo acordo entre todos. Representa, antes, uma manifestação do desejo da maioria, sendo que a minoria deverá estar de acordo em viver segundo as leis e as regulações impostas pela maioria. Daqui não resulta, todavia, que a minoria não possa alterar as disposições da maioria, mas apenas o poderá fazer por meios democráticos. Este é um princípio elementar do sistema.

Deste modo, a tese de que o governo actua em sintonia com a opinião pública é, precisamente, a teoria do «governo consentido», isto é, a existência de um governo baseado no consenso. Segundo a sua etimologia, «consenso» significa «sentir juntos», sentir em comum e, portanto, a palavra «consenso» significa mais «aceitar», «compartilhar», do que, propriamente, «aprovar». Mas aceitar o quê? Eis a explicação de Sartori:

No que se refere à democracia é necessário distinguir entre três níveis de consenso: a aceitação i) de valores últimos, ii) das regras do jogo, iii) de governos. O primeiro é o consenso com respeito à comunidade, consenso nas crenças de valor; o segundo é o consenso com respeito ao regime, sobre as regras de procedimento; o terceiro é o consenso com respeito ao governo, sobre políticas de governo.246

O primeiro, o consenso com respeito à comunidade, tem por objecto os valores de fundo da democracia, o sistema de crenças, o respeito pelo pluralismo, pela igualdade, pela liberdade. O consenso com respeito ao regime refere-se aos procedimentos da democracia, às regras do jogo democrático. Para que uma sociedade democrática possa sobreviver, é necessário que a regra quem decide sobre e como decidir esteja bem determinada. Como em democracia os conflitos devem ser resolvidos de forma pacífica, sem recurso à violência, o método de resolução de conflitos assenta no critério maioritário. «Democracia significa decidir por maioria e se este método de resolução dos conflitos não for aceite colectivamente, então a democracia não poderá existir».247 No que diz respeito ao consenso

com respeito ao governo, o discurso terá de ser necessariamente diferente. Se a essência de democracia está em «governar discutindo», é neste ponto que o consenso se converte em

245 Idem, p. 15.

246 Cf. Giovanni Sartori, op.cit., p. 74. 247 Idem, p. 75.

dissensão, dissensão acerca de quem governa e nunca dissensão sobre a forma de governo. Essa deve estar bem assente.

Ora, se as eleições são o procedimento por excelência da expressão da opinião pública, é importante não negligenciar a importância da acção dos partidos políticos, sobretudo porque relacionada com a realidade dos partidos políticos, encontra-se uma realidade menos evidente, a saber, a realidade dos chamados «grupos de pressão». «Enquanto os partidos políticos tratam de conquistar o poder e de o exercer, os grupos de pressão não pretendem exercer directamente o poder; tratam, antes, de influenciar aqueles que o detêm pressionando os homens públicos a favor dos seus interesses».248 Independentemente das suas

características, é possível identificar dois níveis fundamentais da actuação dos grupos de pressão: por um lado, pressionam directamente os organismos do poder e as pessoas que exercem esse poder; por outro, actuam indirectamente sobre o público para que este, por sua vez, pressione o governo com as suas opiniões.249 A democracia representativa vê-se, assim,

atrofiada e limitada pelo confronto entre interesses privados.

Neste sentido, surgiram, nas últimas décadas, algumas dúvidas em relação ao funcionamento do sistema democrático. Se é verdade que a democracia consiste no melhor regime de entre todos os regimes possíveis, também é verdade que a oligarquia dos partidos políticos conduziu a uma certa desconfiança sobre a actuação do sistema político. Como na base da democracia liberal está o sistema de mercado, um sistema que reduz o diálogo à discussão acerca de preferências institucionais e de negociação entre interesses privados, a participação do público sobre assuntos públicos vê-se atrofiada pelas preferências, muitas vezes individuais e/ou institucionais, dos dirigentes políticos.

Ora, é neste contexto que surge a democracia deliberativa, um modelo que não só não exclui os cidadãos do processo de tomada de decisão, como se baseia no intercâmbio de posições e argumentos entre todos os envolvidos no processo democrático. Assim, o diálogo e o debate argumentativo são elementos fundamentais de um processo democrático que resulta numa cidadania mais activa na tomada das decisões que dizem respeito ao bem comum. Como a deliberação conjunta se orienta para o benefício dos interesses gerais em detrimento dos interesses parciais, a democracia deliberativa é o sistema que melhor articula a representação política com o exercício de um espírito participativo que se funda na vontade dos cidadãos.

Com efeito, a busca de um consenso, plataforma essencial na tomada de decisões políticas democráticas, apenas se torna possível mediante a pública discussão que legitima a decisão sobre assuntos que dizem respeito à res pública. Neste sentido, as decisões políticas devem assentar num processo racional que resulta num consenso alcançado comunicativamente. Por conseguinte, o «entendimento», que Habermas define como «processo de obtenção de um acordo entre sujeitos, linguística e interactivamente