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Com o objectivo de realizar cerca de 20 entrevistas, foram contactados vários jovens que tinham abandonado a escola ao longo do período estudado (todos com mais de 16 anos, limite etário mínimo considerado desejável para o fim pretendido), pela autora do estudo e pela CPCJ, a seu pedido. Contudo, apenas um destes contactos foi frutífero, uma vez que ou as pessoas não respondiam ao contacto ou não aceitavam falar. Esta recusa insere-se no contexto em que ocorrem a maior parte dos casos de abandono escolar precoce (segundo as informações das entidades intervenientes): famílias não estruturadas e/ou com problemas socioeconómicos, adolescentes com problemas disciplinares ou com dificuldades de adaptação nas escolas ou ainda com comportamentos marginais – todos estes contextos dificultam o diálogo dessas pessoas com alguém exterior ao seu ambiente social e impedem- nos de apresentar um discurso coerente e que desejem expor publicamente (por isso mesmo, o jovem que apresentou o caso mais evidente de abandono escolar precoce por problemáticas sócio-económicas de entre os entrevistados foi o único que inicialmente afirmou não querer ser entrevistado, o que depois se concluiu estar relacionado com diversos problemas sociais e legais que envolviam a sua vida).

Considerou-se então passível de dar resultados positivos a possibilidade de contacto com jovens que estivessem a frequentar cursos de Educação Formação no CFP de Beja, o que foi autorizado pela Delegada Regional do IEFP. Foram aí entrevistados 23 jovens que frequentam cursos de Educação Formação que dão equivalência ao 9º ano de escolaridade (nem todos residem no concelho de Beja, 7 dos 23 entrevistados no CFP são de concelhos limítrofes). Pela descrição por eles efectuada (alguns não sabiam explicar muito bem como tinha decorrido a sua saída da escola), apenas dois ou três dos casos seriam explicitamente de abandono escolar precoce, uma vez que todos os outros eram casos nítidos de insucesso escolar que os tinha conduzido a estarem na escola só até completarem os 15 anos, no 7º ou 8º ano (apenas num caso a saída tinha ocorrido no 6º ano e outro no 9º). Apesar de se poder considerar que esta amostra saiu um pouco do âmbito da pesquisa de casos de abandono escolar são utilizadas informações transmitidas nestas entrevistas por vários factores: o contacto com os jovens revelou imensas informações sobre percursos escolares e profissionais (estes últimos são inseridos no capítulo seguinte sobre inserção profissional de jovens sem a escolaridade obrigatória); apesar de algum retraimento inicial, a maior parte dos jovens

demonstrou imensa vontade de contar “a sua história”. Por outro lado, estes só não são casos de abandono escolar precoce por uma questão legal (concretizados em saídas do sistema educativo que diferem apenas alguns meses de casos de abandono escolar efectivos) e todos os jovens ingressaram nos cursos antes de terem 18 anos. Este facto demonstra que os números do abandono escolar não são maiores apenas porque muitos alunos saem da escola logo que completam 15 anos de idade e estão fora da escolaridade obrigatória, por isso alguns são alvo de processo administrativo de abandono escolar, com Registo de Abandono Escolar por uma ou duas vezes, até chegarem a essa idade.

O discurso destes jovens revela um grande desinteresse pela escola, pelo que as razões enunciadas para terem saído do sistema educativo sem concluírem o 9º ano de escolaridade são quase sempre as mesmas:

1) Desmotivação

“Não me portava mal, ia às aulas, mas estava desmotivado, também era a opinião dos

professores, não tinha interesse [de concluir o 9º ano, após várias reprovações] aqui [no

CFP] já tenho outra motivação” (Ent. 4)

“Desmotivação” por causa de si próprio e da escola “não ajudavam” (Ent. 7) “Não gostava da escola, achava que não conseguia” (Ent. 11)

“Não gostava nada da escola (…) na escola é diferente, aqui é mais fácil” (Ent. 16) “Ficava farto” (Ent. 17)

“Estava-se lá, passeando” (Ent. 19) “Estava desmotivado” (Ent. 21)

2) Retenções repetidas

“Andava lá por andar, passeando, o meu pai disse para eu desistir porque andava lá

passeando” já tinha reprovado 3 vezes, não gostava da escola (Ent. 2)

“Passavam-se muitos anos sem passar de ano” (Ent. 3)

3) Falta de assiduidade

“Faltava às aulas porque não gostava da escola” (Ent. 18)

“Por causa das faltas e das notas (…) a maior parte das faltas era sempre de manhã, não

“Não ia às aulas (…) era influenciado (…), ia fazer desporto, ia jogar ping-pong na escola,

fechávamos a porta e ninguém sabia (…) a minha mãe era chamada à escola e guerreava comigo” (Ent. 22)

“Faltava com os amigos e coisas do género” (Ent. 23)

“Faltava muito, não estudava (…) ficava em casa dormindo, ia jogar com os amigos (…) às

vezes ia à escola e não ia às aulas” (Ent. 24)

Estes jovens estão muito desmotivados com a escola (o que também é confirmado pela Equipa Móvel do PETI nos diversos contactos que tem estabelecido com jovens), apenas um dos entrevistados afirmou pensar em optar pelo reingresso no ensino regular após terminar o curso que lhe irá dar equivalência ao 9º ano.

A falta de assiduidade precedia normalmente a saída da escola (primeiro faltava (…) para

estar com os amigos, depois faltei de vez” - Ent. 3) e revela também a falta de controlo dos

encarregados de educação. Apenas num dos casos, houve grande pressão dos pais para a continuidade na escola: “nunca faltei, andei na escola até vir para aqui [CFP] os meus pais

não me deixavam sair” (Ent. 4).

Em dois casos de abandono efectivo da escola, houve primeiro acompanhamento por parte da escola (Director de Turma) e depois pela CPCJ; num dos casos houve ainda a intervenção de um Tribunal, que obrigou o jovem a frequentar o CFP.

A maioria dos jovens quer concluir o 9º ano de escolaridade (apenas num caso esta não é a principal motivação para estar no CFP - queria tirar um curso profissional, mas já que vinha a calhar, também tira o 9º ano -Ent. 23) e alguns frequentam o curso porque “era o que havia”. A maior parte destes jovens parece não pensar no que irá ser a sua vida futura. A Equipa Móvel do PETI afirma que muitos daqueles com que contactou não exercem qualquer actividade, não têm interesse em completar a escolaridade obrigatória com a possibilidade que lhe oferecem de frequentar um PIEF e não demonstram ter quaisquer expectativas para o futuro, mesmo que estejam a terminar uma formação (como aconteceu com alguns dos entrevistados, que não sabem o que farão quando acabarem o curso). Outros querem continuar a estudar para tirar o 12º ano (6 casos), quase metade quer ir trabalhar, sobretudo na área do curso que estão a tirar ou em áreas onde trabalham familiares.