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Naturbaserte løsninger sin rolle framover

7 Diskusjon

7.4 Naturbaserte løsninger sin rolle framover

O anjo de Sophia ressoa, como iremos detalhar, importante fonte intertextual: a poesia de Rainer Maria Rilke.

Arnaldo Saraiva, em seu livro Para a história da leitura de Rilke em Portugal e no

Brasil, traz-nos importantes informações a respeito da presença rilkiana no país de Camões.

Com efeito, conforme apontamentos de Saraiva, as primeiras traduções portuguesas do autor das Elegias de Duíno deram-se pela exímia intervenção de Paulo Quintela. Esse tradutor divulgou amplamente a obra de Rilke, tornando-a imensamente conhecida não somente entre os escritores portugueses, como também entre os leitores em geral.

Entretanto, antes de tais traduções saírem em livro, inúmeros escritores lusos já apreciavam a poesia de Rilke pelas suas versões em francês. Dessa forma, muitos poetas portugueses conheceram a obra do autor de Sonetos a Orfeu pela mediação da França e,

dentre esses escritores, encontrava-se Sophia de Mello Breyner Andresen, uma das primeiras leitoras de Rilke em Portugal.

Afirma-nos Arnaldo Saraiva que em 1938, data da publicação das primeiras traduções de Quintela, “Rilke [...] já não seria um desconhecido para vários poetas lusos e brasileiros, que, se só em casos raros o teriam lido em alemão, era provável que o tivessem lido em francês” (1984, p. 8). Eis o que Saraiva nos alega:

Sophia Andresen [...] adquiriu um exemplar [de uma tradução de Rilke em

francês12] que tem manuscrita a data de julho de 1938 e cuja leitura deixou logo marcas nítidas nalguns dos primeiros poemas que ela escreveu (a partir desse mesmo ano) e que publicaria nos livros Poesia [...] e Dia do Mar, que, apesar de publicados respectivamente em 1944 e em 1947, só contêm poemas escritos entre 1938 e 1942. (SARAIVA, 1984, p.9)

O poema “O anjo”, portanto, foi publicado em Dia do mar e espelha toda a amplitude das leituras de Sophia. Por esse texto, podemos perceber a sintonia da autora com a obra de Rilke, a acuidade perfeita entre ambos, a exata compreensão, por parte de Sophia, do fecundo significado da obra rilkiana.

É importante, para uma maior compreensão do poema, debruçarmos sobre o significado do símbolo do anjo e as conotações por ele adquiridas na literatura.

Eduardo Lourenço, em arguto ensaio sobre o angelismo na literatura portuguesa, ressalta o quanto a imagem do anjo é usada, com freqüência, pelos poetas portugueses modernos. De acordo com esse autor, esse humano alado surge na poesia devido a uma espécie de deficiência da linguagem poética, típica da modernidade. Em um mundo cada vez mais reificado e desumano, terra onde o poeta perde o diálogo com seus semelhantes, a poesia nasce como discurso para o vazio, para ninguém. Daí irrompe a figura emblemática do anjo como interlocutor dos poetas. Entretanto, essa interlocução, longe de ser um diálogo fecundo, acaba se tornando um monólogo seco, pungente, em que o homem moderno se despe em um mundo sem deuses, sem a unidade primordial e edênica com a natureza:

[...] ao diálogo com a estrela, a árvore, o rosto próximo onde nos esquecemos, nós preferimos a delícia do monólogo “interior” onde não falamos a ninguém e ninguém nos fala. Foi sem dúvida porque a palavra poética contemporânea se concebeu como palavra sem interlocutor que o Anjo como presença interrogante, e a quem se interroga, surgiu no horizonte imagético de várias gerações separadas por gostos e idéias aparentemente inconciliáveis. Para terem um rosto, para se poderem

12 O fragmento entre os colchetes é de nossa autoria. Apenas inserimos essa informação para tornar viável e

imaginar existentes, um bom número de poetas inventou este circuito intercessor de uma ambigüidade flagrante. No fim de contas cada um só encontrou nesse expediente a sua própria aventura no meio das coisas ou na falta delas. Para uns, o Anjo é a sua própria palavra incapaz de se falar, tornada gloriosa. Para outros, a maneira de reconstruir um espaço em ruínas, de fugir, sabendo-o, ao inferno da subjetividade. (LOURENÇO, 1987, p. 130)

Por outro lado, voltar-se para esse anjo é, conforme Bollnow, dirigir-se ao vazio, ao eco de perguntas sem respostas. O anjo rilkiano, principalmente o anjo das elegias, é um ser impassível que não se abala frente às indagações humanas. “El hombre grita en el desamparo terrible y total de la existencia, entregado a su última y desesperada soledad, y nadie le oye” (1963, p. 154). Esse ser indiferente, distante em sua algidez, pode ser vislumbrado no poema de Sophia, na passagem em que o anjo rodeia o eu lírico não para acolhê-lo, mas para destilar sua frieza e indiferença. Portanto, frente ao anjo o homem “se encuentra en la soledad de la desesperacion más absoluta” (BOLLNOW, 1963, p. 154).

Entretanto, nem tudo é negatividade na configuração dos anjos pela literatura moderna. Lourenço, com efeito, também sublinha, ao lado desse ser caduco, representação do vazio de nossa era, um outro anjo, solar, de natureza sacra e transcendente. Assim, desdobram na literatura dois tipos de angelismo: um negativo, em que o anjo é essa ausência total, e outro positivo, configuração do sagrado na imagem do homem alado:

Em relação dialectica com esse angelismo [negativo13] aparece, naturalmente, o que se pode designar de angelismo positivo. A nossa realidade é vista e julgada, de algum modo, do lado do anjo. A aventura pessoal, tanto como a aventura histórica dos homens são subtraídas, de raiz, à sua aparência empírica, recebendo “luz” de realidades de ordem superior, cujo sistema constitui “a verdadeira realidade”, o autêntico espelho e modelo de todo o existir. O exemplo perfeito desse metaforismo angélico encontra-se na poesia de Rilke, em particular nas Elegias. (LOURENÇO, 1987, p. 131)

Dessa maneira, a figura do anjo é também emblemática de uma sede de sacralidade, de uma busca por uma dimensão maior, infinitamente mais ampla que a nossa contingência humana. A caducidade de nossa condição abre-se, amplia-se perante o símbolo do anjo. Por ele, nós nos conciliamos com a porção obscura de nosso ser, interligada às sombras do nascimento e da morte.

Tal busca por um patamar metafísico fica patente no poema “O anjo”, mais especificamente na última estrofe, quando o eu lírico entrega-se ao êxtase epifânico. Nesse momento, a voz poética trava contato com a dimensão transcendente, mística e sacral do anjo. Assim, a contingência humana efetua um salto de caráter ontológico, pelo qual a demasiada miséria de nossa condição é alçada à categoria de existir mágico, feérico. Essa experiência propicia um alargamento do tempo e do espaço profanos, instante pungente em que o sagrado, conforme apontamentos de Mircea Eliade, abre-se em plenitude ao ser humano.

Bollnow tende a sublinhar, para além de uma metafísica angélica, aspectos antropológicos na simbologia do anjo. Assim, para o filósofo alemão, há duas possibilidades de interpretação do angelismo rilkiano: “Uma interpretación metafísica y outra antropológica o existencial” (1963, p. 150). O autor de O homem e o espaço designa-nos dessa maneira essa dupla possibilidade de leitura:

En la interpretación metafísica se trata de una explicación de la totalidad del mundo, dentro de la cual el hombre ocupa también un lugar, pero que de hecho transciende más allá del hombre al pretender encerrar la totalidad del ser dentro de una imagen válida del universo. La transformación de la tierra en un ser invisible y la existencia del ángel caerían dentro de la consideración metafísica. En la interpretación antropológica se trata, por el contrario, de una explicación exclusivamente existencial y, por lo tanto, todas las declaraciones que arranquen de aquí han de ser tomadas en un sentido estrictamente antropológico, aun allí donde tales manifestaciones parezcan rebasar a primera vista el contenido antropológico. (BOLLNOW, 1963, p. 150)

Para além dessa dicotomia, acreditamos ser possível interpretar o anjo de Rilke pelas duas perspectivas. Há tanto um caráter antropológico e existencial nesse angelismo, como também a busca de algo além do humano, de uma natureza transcendente. O anjo de Sophia, portanto, carregará esse duplo significado: a reflexão da condição humana aliada a uma procura do místico, do sacro. Com efeito, a poeta irá sublinhar, por esse símbolo, nossa fragilidade, nossa pequenez, mas também nossa ligação com a fecundidade da vida, com uma religiosidade poética capaz de irrigar nossa alma com a luz de um mistério inescrutável. Assim, conforme Lourenço, na poesia de Sophia, o anjo é “frágil ou intocável horizonte, limite da condição humana, mar ou memória carregada de sinais supremos” (LOURENÇO, 1987, p. 134). O ser alado é marca de nossa extremada finitude, mas também abertura para um sinal supremo, indecifrável e, por isso, repleto de sugestões e de possibilidades de um existir mais pleno e amplo.

O anjo de Sophia, portanto, carrega os fortes traços do angelismo rilkiano. Conforme Benedito Nunes, os anjos das Elegias de Duíno “ganham posição [...] teológica”, são “noturnos no sentido elegíaco” (2009, 402-403). Também a emblemática personagem de Sophia carrega esse caráter noturno, repleto de mistério e sedução. Semelhante aos anjos duinenses, o de Sophia distingue-se “pela tonalidade do desconhecido, do estranho, do inóspito” (NUNES, 2009, p.403).

Em outra perspectiva, Augusto de Campos afirma que os anjos de Rilke presentificam “a idéia da transcendência e da morte” em um “processo de “interanimação de objeto e consciência” (2001, p.23). Assim, para Sophia, o anjo é a materialização do indizível, do inescrutável, de tudo o que ultrapassa o horizonte humano. Em todas as referências apontadas por José Paulo Paes, na citação a seguir, podemos captar vislumbres iluminados do anjo de Sophia:

Para Bowra, os anjos de Rilke “exprimem o absoluto da inspiração poética”; para Kassner, são os “filhos das núpcias do espaço absoluto com o tempo absoluto”; para Bollnow, seres hipotéticos que servem “para destacar com maior clareza a maneira de ser do homem”; e para o próprio Rilke, na carta que escreveu ao tradutor polonês das suas Elegias, criaturas em que “a transformação do visível em invisível [...] aparece já cumprida, donde serem terríveis “para nós, suspensos ainda no visível”. (PAES, 1993, p. 29)

Verdadeiro espelho no qual o homem dimensiona os limites de sua existência, o anjo é matéria humana alçada à grandeza universal e cósmica. Ao mesmo tempo que tal ser alado nos entreabre a dimensão do eterno, ele também acentua nossa fragilidade, nossa miserabilidade mais banal. Conforme Bollnow, “los ángeles son tan ‘existentes’ [...], que el hombre se disipa, se desvanece, queda destruido por su existencia mas fuerte14” (1963, p.157). Entidade a pairar no além do tempo, em um total exílio de toda condição histórica, tal símbolo nos insere, paradoxalmente, em nossa agônica existência temporal, em nossa morte voraz. Isso acentua a afirmação de Kuschel, para quem os anjos rilkianos “se prestam à auto- relativização e à auto-interpretação poético-imagética do próprio ser humano; são como espelhos da auto-cognição humana” (1999, p. 119).

14No poema “O anjo”, esse grau terrível da beleza do anjo, esplendor repleto de forte carga de destruição, foi

captado por Sophia de maneira exemplar: também seu anjo é agressivo, inóspito, terrível, ser capaz de reduzir o homem ao seu pó, à sua mais ínfima miséria.