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3. THEORETICAL FRAMEWORK

3.2. REVIEW OF ZINC AND BORON ISSUES IN NEPALESE SOILS

3.2.3. Natural agents affecting zinc and boron levels of the Nepalese soils

Podemos identificar na base desse Teatro Sagrado a crença na eficácia de uma linguagem simbólica. A palavra, neste contexto, readquire seu valor de símbolo. Gilbert Durand define a noção de símbolo como aquilo no qual o simbolizante identifica-se com o simbolizado e que engloba um sentido transcendente, uma estrutura aberta não abarcável pelo pensamento racional6. Há uma grande tradição positivista que tenta negar o simbólico, o inconsciente, defendendo a superioridade do logos, do pensamento racional, objetivo, que reduz a noção de símbolo à de signo, chegando ao conceito, no qual o significado está separado do significante. A imaginação é vista como algo inferior e não confiável.

Segundo a teoria de Carl Gustav Jung (1875-1961), a espécie humana possui um inconsciente coletivo comum, formado por estruturas que são os arquétipos, como que formas pictóricas, ou formas dinâmicas, que organizam as imagens. O motor do arquétipo é a energia psíquica da libido. A função simbólica é o lugar de passagem, de reunião de contrários, mantendo unidos também o sentido consciente e o que emana do inconsciente. Esse simbolismo, unificador de pares opostos, é constitutivo do processo de “individuação” do ser humano. O arquétipo do self, da integralidade, simboliza a meta de equilíbrio psíquico, é a nossa meta de vida, a integração das diferentes energias complementares.

Segundo Jung, a doença se instala não só quando o domínio do conteúdo inconsciente não se encontra com o consciente, não consegue tomar forma, mas também quando o consciente, o significante, não corresponde mais a um significado instaurador. Neste caso, o símbolo se apaga em signo convencional, em “casca vazia”. Perdemos, assim, o processo de mediação através do conhecimento concreto e experimental e a presença da transcendência característica do símbolo:

Um símbolo tem de ser distinguido de um signo, tendo este último um significado semiótico, isto é, um signo designa algo que é conhecido. Um símbolo, por outro lado, “é a melhor formulação possível de uma coisa relativamente desconhecida”. (PALMER, 2001, p. 167)

Mircea Eliade, cujas idéias podem situar-se na história das religiões, pelo mergulho que faz no estudo dos diversos símbolos e mitos da humanidade, define a função do símbolo:

[...] a função do símbolo é justamente revelar uma realidade total, inacessível aos outros meios de conhecimento: a coincidência dos opostos, por exemplo, tão abundantemente e simplesmente expressada pelos símbolos, não é visível em nenhum lugar do Cosmos e não é acessível à experiência imediata do homem, nem ao pensamento discursivo. (ELIADE, 1991, p.177)

No seu livro O sagrado e o profano (1999), Eliade desenvolve uma concepção sobre a maneira pela qual o homem religioso se percebe num universo sagrado, incluindo o homem primitivo para o qual toda a realidade possui essa sacralidade, esse poder, diferentemente do homem “não-religioso” das sociedades modernas, cujo universo está dessacralizado:

A dessacralização incessante do homem moderno alterou o conteúdo da sua vida espiritual; ela não rompeu com as matrizes da sua imaginação: todo um refugo mitológico sobrevive nas zonas mal controladas. Toda essa porção essencial e imprescritível do homem – que se chama imaginação – está imersa em pleno simbolismo e continua a viver dos mitos e das teologias arcaicas. (ELIADE, 1995, p. 14)

A linguagem caracteriza o homem como tal, “animal cultural por natureza”. A linguagem é que faz essa mediação do natural ao cultural através de um “trajeto antropológico”. A interpretação da linguagem se dá através do modelo do símbolo, da identificação entre imagem e sentido, entre visível e invisível. A linguagem configura um mundo no qual subjetividade e objetividade estão co-implicadas.

O mito está na origem da linguagem, é um relato de uma ação primeira, num tempo originário, illo tempore, narrativa que conta uma história sagrada, segundo Eliade, que revela ao homem o que verdadeiramente tem sentido. O mito é uma realidade viva, de conteúdo simbólico, que não faz parte apenas do passado e sim pode ser presentificada, fazendo parte da condição humana.

O Teatro Sagrado busca nos mitos esse material simbólico, e a palavra falada será uma das formas de presentificá-lo. A procura de Artaud pela encantação é a crença de uma eficácia também através da palavra. Pressupõe uma visão da realidade como intrinsecamente conectada. Gestos, sons e palavras podem provocar transformações reais pela invocação através do símbolo, pela relação entre as energias no aqui e agora. É o pensamento mágico-religioso, assim descrito

pelos antropólogos, de que estamos ligados todos por uma realidade simbólica e de que nossas ações repercutem umas nas outras. Assim o teatro, como ritual, agirá sobre o espectador.

Artaud quer recriar os mitos, fazer surgir, aqui e agora, as forças escondidas e regeneradoras:

Esses deuses ou heróis, esses monstros, essas forças naturais e cósmicas serão interpretadas segundo as imagens dos textos sagrados mais antigos e das velhas cosmogonias. [...] Além disso, [...] pediremos que a encenação e não o texto se encarregue de materializar e especialmente atualizar esses velhos conflitos. (ARTAUD, 1984, p. 155)

Segundo ele, os mitos possuem este poder dinâmico que possibilita que sua vertente seja encontrada numa recriação ou re-atualização. O mito representa aquilo sobre o qual a humanidade pode se apoiar. Exerce uma ação universal e liberadora. Através deles reencontramos em nós essas energias. Eles contêm um princípio metafísico e ativo ao mesmo tempo. Os mitos, temas universais, e não textos dramáticos, deverão ser o ponto de partida para as encenações. Serão personagens míticas, e poderão ser extraídas de textos dramáticos, mas abordadas fora de seu contexto. O ator terá a função exemplar do herói mítico.

Monique Borie, em seu livro Antonin Artaud: le théâtre et le retour aux sources (1989), faz um estudo aprofundado do Teatro de Crueldade de Artaud através do olhar da antropologiai. Tal aproximação se deve à constatação da importância dessa procura das raízes rituais que marca as experiências teatrais da década de 60, como as de Grotowski, Barba, Brook e do Living Theatre. Há uma aproximação em direção às culturas nas quais os mitos ainda estão vivos, como nas culturas orientais, que são foco da antropologia:

Como compreender este movimento de “retorno às fontes”, e captar seu conteúdo e suas estratégias, sem a ajuda da antropologia? Esta não toma precisamente por objeto de estudos estas culturas nas quais o pensamento mítico e a prática ritual constituem a base da vida individual e coletiva? (BORIE, 1989, p. 22)

Fica claro que a visão de Artaud pressupõe uma outra visão da realidade e do homem, definida pelo pensamento mágico-religioso, identificado pelos antropólogos nestas outras culturas. Estas servem de modelo para essa concepção da realidade e do teatro como ritual, que terá um poder criador, através dessa linguagem original.

E o teatro deve poder, segundo Artaud, elaborar sua linguagem a partir destes grandes princípios de formalização que, nas práticas simbólicas, organizam tanto o espaço, o tempo, a materialidade dos objetos, como os movimentos do corpo e o uso das palavras. (BORIE, 1989, p. 24)

A encantação será então a formalização da palavra nessa linguagem simbólica. Será abordada pelo seu conteúdo sonoro, musical, e carregada da energia da ação vocal do ator. Como se dará o processo criativo das ações físicas e vocais do ator e sua relação com o texto, fica, no entanto, uma incógnita. Sabe-se que os contrastes são defendidos por Artaud, no sentido de que o gesto, a voz e a palavra podem não convergir nos seus significados e criarem assim símbolos mais complexos, como os hieróglifos, expressando assim as inúmeras contradições inerentes ao espírito humano, mas nem por isso menos verdadeiras, das quais Artaud é um símbolo vivo, símbolo dessa luta do corpo com o espírito, e deste com as palavras. Tais conflitos parecem ser a sua fonte de energia, a qual ele quer reavivar no espectador, através do ritual organizado e do caos.