• No results found

4.3 Analyse: En neorealistisk forklaring

4.3.1 NATOs betydning for Norge

O corpo marcado transforma-se num livro ilustrado que se desfolha desvendado as histórias por trás de cada marca ou MC, que sintetizam uma autobiografia.

96

Quando as marcas corporais deixaram de estar subjugadas a determinados grupos ou classes sociais e a significados pré estabelecidos e reconhecidos pela maioria, os significados que lhes são atribuídos, apesar do carácter relativamente permanente dos trabalhos no corpo, começam a variar com o “flow” da vida (Turtiainen & Oksanen, 2005). Hoje, as marcas são muitas vezes adoptadas como narrativas pessoais, “são vestígios que expõe o território da subjectividade, pregada na carne, numa ausência de subtileza” (Garcia, 2006, p. 19).

Numa época de liquidificação social e identitária (Ferreira, 2011) marcada pelo risco, incerteza, instabilidade, insegurança e precaridade (ou modernidade líquida segundo Bauman, 2001), os trabalhos autobiográficos “à flor da pele” que os sujeitos infligem e carregam no corpo, funcionam como diários permanentes que ninguém pode levar ou roubar. Estes mapas da história de vida funcionam como pontos de referência que proporcionam aos sujeitos um sentido de integridade pessoal como autores da sua própria crónica de vida, bem como um sentimento de segurança subjectiva perante o caos oferecido pela modernidade tardia (Turtiainen & Oksanen, 2005).

O valor emocional e biográfico atribuído a determinado momento identificado pelos sujeitos, é celebrado nas suas tatuagens (Ferreira, 2009), dadas as suas características invasivas e permanentes operam como um obstáculo ao esquecimento materializando-se como um sistema mnemónico muito pessoal, investido de um forte poder evocativo e muitas vezes de uma poderosa carga emocional referente a marcos biográficos ou pontos de viragem (Brettell, 2002). A associação entre a marca, a figura e o sentimento, a emoção que invocou, é um fenómeno estritamente pessoal e particular, logo o real significados das MC só é percebido na sua totalidade e profundidade pelos seus próprios portadores (Pires, 2005).

A leitura iconográfica do corpo ilustrado só é verdadeiramente possível e próxima da realidade se for guiada pelo seu detentor, caso contrário por mais tentativas e confabulações que partam do exterior, o significado das marcas é privado, é propriedade individual muitas das vezes sob a forma de segredo “aos olhos de todos”. A marca expressa muito mais do que confessa (Ferreira, 2006).

“Nenhum lugar do mundo é para mim tão significativo como o lugar do meu corpo, que por mais ninguém pode ser ocupado. O meu ponto de vista é, por isso mesmo, estritamente pessoal; ou seja, ninguém

97

pode ver ou viver o mundo como eu o vejo e vivo. Em rigor seria para isso necessário meter-se na minha pele” (Ribeiro, 2003, p. 21-22).

É através da corporalização das marcas que o interior é exteriorizado por meio de códigos semióticos, formas, símbolos e imagens que permitem a articulação da narrativa do “Eu”. Esta elaboração simbólica na superfície do corpo tem o duplo papel de exteriorização do interior e de interiorização do exterior (Samper, 2007) num dinâmico arquivo de si e dos outros.

Nesta dinâmica que envolve também os outros, as marcas corporais incorporam a criação de laços, a tinta na pele “metaforiza” laços de sangue, oferecendo sentimentos sinceros de pertença e ligação aos outros (Le Breton, 2002). Os projectos corporais construídos pelos mais jovens, muitas vezes celebram pequenas afiliações, lealdade grupal ou solidariedade territorial, académica, de amizade, de amor, ou de escolhas que desejam perpetuar (Ferreira, 2009).

Tal como as opções de moda não são feitas ocasionalmente, a escolha do corte de cabelo, da maquiagem e da roupa não são fenómenos deixados ao acaso, a prática de MC, especialmente nos formatos mais extremos ou menos comuns, reflecte escolhas conscientes de não seguir o que esta em voga, de não afiliação à sociedade comum mas, de aproximação a um grupo específico de pessoas. As marcas aproximam pessoas com interesses e crenças similares e afastam os que não se identificam (Myers, 1992).

Desde há muitos anos que o desejo de pertencer a um determinado grupo social ou em sinal de amor e amizade, são motivos apontados para a prática de MC. Nestes casos, as marcas funcionam como um sinal explícito de compromisso permanente e de afiliação (Pitts, 2003). Assim, muitos casais consideram a realização de um piercing,

branding ou tatuagem, como um símbolo duradouro de amor e um teste de confiança e

lealdade para com a sua pessoa significativa. Enquanto a irreversibilidade das MC é encarada como um factor negativo e assustador por uns, para outros é exactamente aí, no seu carácter invasivo e permanente que reside toda a sua atractividade (Myers, 1992).

Já nas sociedades tribais, tal como acontece hoje em dia no Movimento dos Primitivos Modernos, a MC ou decoração da pele serve para criar um vínculo exclusivo e permanente a outras pessoas. Algumas marcas são feitas como intuito de sinalizar a iniciação ou admissão num determinada irmandade como é o caso dos gangues e de certas fraternidades universitárias americanas, nas quais os sujeitos são geralmente

98

marcados na pele com uma das letras gregas que representam a sua fraternidade. Acaba por ser um meio de consolidação da identidade pessoal, na medida em que pelo menos visualmente se afastam dum grupo alargado de pessoas para se ligarem a um grupo específico com marcas corporais similares, criando-se na pele um vínculo para a vida (Hall, 2000).

A mesma perspectiva é partilhada por Shannon Bell (1999), que refere que os sujeitos tatuam e perfuram os seus corpos como meio de se distanciarem de um cultura de massas e para se identificarem como membro de uma determinada subcultura ou grupo. Como exemplo, na sua pesquisa “Tattoed: A participant observer’s exploration

of meaning” conclui que entre outros motivos, os indivíduos se tatuavam para exibir a

sua afiliação ao meio militar. O desejo de afiliação ao Exército, à Marina, aos Hell’s

Angels, a gangues juvenis ou a qualquer outro grupo específico é proclamado pelas

marcas corporais que carregam e proporcionam um sentimento de camaradagem intragrupal (Myers, 1992).

Simultaneamente as marcas corporais são representações tangíveis de momentos efémeros, são o formato mais pessoal para recordar e celebrar pessoas, eventos, momentos chave ou marcos de aprendizagem. Ao contrário dos habituais tipos de celebração ou homenagem que acabam por se desvanecer e desaparecer ou ser destruídos e perdidos, as marcas corporais devido ao seu carácter permanente possuem um nível de comprometimento muito maior por parte do sujeito, bem como um elevado grau de reconhecimento atribuído ao evento ou pessoa (Adams, 2007).

As tatuagens realizadas para honrar a família e outros significativos que faleceram, são designadas de (tatuagens) memoriais e possuem uma forte conotação afectiva e emocional, funcionando como uma tentativa de estabelecer uma ligação mais firme com aqueles que já partiram através da materialização de imagens e recordações que devem servir como âncora à memória e simultaneamente podem acompanhar os indivíduos em todos os momentos da sua vida para sempre (Turtiainen & Oksanen, 2005).

Na verdade, cada sujeito confere um sentido muito singular às suas experiências de MC, apenas passível de ser descodificado pela sua narrativa. Neste sentido, no trabalho desenvolvido por Souza (2009), alguns dos participantes mencionaram que as suas práticas de experimentação corporal estavam ligadas à procura de estabilidade

99

emocional. Há situações de vida que deixam marcas profundas na história dos sujeitos e que podem justificar a realização de uma marca corporal que as recorde, assinalando na pele o redireccionamento das experiências dolorosas do passado para as surpresas da vida futura, a aposta na mudança e um sinal de resistência a fragilidades (Ferreira, 2006).

Os processos de MC e respectivas marcas, formam como que um mapa biográfico, estruturante e organizador das experiências pessoais. Assim, estas podem ser investidas de significados que possibilitam um processo catártico aos sujeitos, reivindicando novas histórias que substituam as velhas memórias (Turtiainen & Oksanen, 2005). As experiências negativas são então resignificadas, ou seja, investidas de um novo sentido e integradas na biografia dos sujeitos, amenizando os efeitos danosos ou as memórias negativas que acarretavam anteriormente (Ferreira, 2011). As MC surgem como uma operação de catharsis (Rivière, 1992) na medida em que permitem a expressão de tensões e têm um efeito apaziguador e tranquilizante e, funcionam como prova simbólica de superação (Ferreira, 2006).