Uma revista, uma editora, são importantes espaços de constituição de redes de sociabilidade e que acabam por contribuir para o fortalecimento de determinados grupos de intelectuais e para projetá-los no âmbito nacional e até mesmo internacional. Mas, muito além da questão da projeção de nomes e dos ganhos daí derivados tanto em termos de reconhecimento como financeiros, uma revista, uma editora são também formas de colocar-se no espaço público e de fazer frente a um determinado ideário vigente, rompendo a lógica do “mais do mesmo” e publicando estudos que lancem luz sobre debates que, de outra sorte, ficariam restritos ao meio acadêmico. Dermeval Saviani e outros professores vinculados à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC) e à Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), se propuseram a fundar uma editora que pudesse publicar o que estava sendo pesquisado e produzido por educadores que se comprometeram em fazer pesquisa em um país onde os incentivos eram parcos, sobretudo, em se tratando de pesquisadores que se propunham a uma reflexão crítica, que estiveram ligados a movimentos de resistência à Ditadura Militar e se colocavam em defesa da escola pública, o que, portanto, fazia com que seus estudos não correspondessem à lógica do mercado editorial, em grande medida ainda sob a tutela do Estado ditatorial. O processo de constituição de uma editora entre pesquisadores com estas características, começou em 1975.
Em 1975, José Xavier Cortez e Orozimbo José de Moraes, que mantinham uma livraria na PUC-SP, constituíram a Editora Cortez & Moraes, iniciando suas atividades com a publicação do livro Metodologia do trabalho científico, de Antônio Joaquim Severino. No início dessa década, começaram a ser implantados os Programas de Pós-Graduação em Educação e, àquela altura, já surgiam as primeiras dissertações concluídas, entre as quais, em nossa avaliação, havia trabalhos relevantes que mereciam ser divulgados na forma de livro. Para realizar o trabalho de indicação de títulos novos, com vistas à sua publicação, foi constituído, em 1976, o Conselho Editorial da Editora Cortez & Moraes, que teve a seguinte composição: Antônio Joaquim Severino, Casemiro dos Reis Filho, Dermeval Saviani, Joel Martins, Maurício Tragtenberg e Walter Esteves Garcia. E os primeiros trabalhos começaram a ser publicados no âmbito de uma Coleção denominada “Educação Universitária” (SAVIANI, 2001a, p. 170).
No entanto, tal grupo passaria por uma desarticulação já em 1979 e, para compreender tal processo é válido recorrer às considerações de Sirinelli (2003), “[...] o meio intelectual constitui [...] um pequeno mundo estreito, onde os laços se atam, por exemplo, em torno da redação de uma revista ou do conselho editorial de uma editora” (p. 248). Este mesmo estudioso da história dos intelectuais aponta que os conselhos editoriais de uma revista e/ou editora são espaços de movimentação intelectual onde dois processos se fazem presente: as forças de adesão e as forças de repulsão, que vão aproximando e distanciando os
intelectuais, quer por razões de ordem ideológica, política, teórica, metodológica, quer pelas solidariedades de idade, de geração e de estudo. Este processo se deu dentro da Editora Cortez & Moraes e desembocou na Editora Autores Associados – Saviani e o professor Casemiro se mantiveram na mesma perspectiva e dentro da mesma rede de sociabilidade e adesão político- ideológica.
Saviani (2001a) aponta que, em 1979, se desfez a sociedade Cortez & Moraes, surgindo daí duas editoras distintas: a Cortez e a Moraes, mas até que se chegou a esse consenso houve um período de crise que atingiu o Conselho Editorial e levou os professores que pertenciam a este conselho a tomarem posição:
Diante dessa situação, o grupo de professores que integrava o Conselho decidiu repensar o projeto e, para não ficar à mercê das contingências dos editores, resolveu constituir uma editora. Assim, por não dispor de capital próprio, essa editora deveria, pelo menos inicialmente, operar à base de co-edições. A ideia era que, transformando-se o antigo Conselho em uma editora autônoma, caso se inviabilizasse, por alguma razão, as relações com determinado editor, seria possível recorrer a outros; e, mais do que isso, seria possível co-editar determinado título com uma editora e um outro título com uma outra editora, ampliando-se, portanto, o leque de possibilidades de modo a se assegurar que o projeto de publicações não viesse a sofrer solução de continuidade. A partir desse entendimento, foi constituída, na virada de 1979 para 1980, a Editora Autores Associados (SAVIANI, 2001a, p. 170-171).
Foi assim que nasceu a Editora Autores Associados, do compromisso de professores ligados à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e à Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), que pretendendo levar adiante o projeto de publicar pesquisas e trabalhos produzidos no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Educação das referidas instituições e/ou de outras, cujos trabalhos fossem aprovados pelo Conselho Editorial, não esmoreceram diante das intempéries do mercado ou do jogo de forças de adesão e repulsão existentes neste campo.
Saviani (2001a) explica a origem do nome Autores Associados e apresenta os nomes dos professores/fundadores desta editora, o que mostra a solidariedade de idade, de geração, e de estudo que havia entre esses estudiosos, que constituiu uma rede de sociabilidade que, não esteve livre de outras rupturas, mas, que naquele momento, fortaleceu um grupo cujo legado, na área da educação é inegável.
O nome deriva do fato de que seus criadores eram autores reais ou potenciais que estavam se associando para realizar esse projeto, o qual, por sua vez, se propunha a valorizar os jovens autores que, pela sua produção científica consistente, viessem a trazer relevante contribuição ao desenvolvimento da educação, em particular, e da cultura brasileira, de modo geral. O grupo instituidor foi composto por dez pessoas: Antônio Joaquim Severino, Casemiro dos Reis Filho, Dermeval Saviani, Gilberta Sampaio de Martino Jannuzzi, Joel Martins, Maurício Tragtenberg, Miguel de La
Puente, Milton de Miranda, Moacir Gadotti e Walter Esteves Garcia. Na segunda metade dos anos 80, se retiraram do grupo os professores Joel Martins, Maurício Tragtenberg e Miguel de La Puente, sobrevindo, também, o falecimento de Milton de Miranda (SAVIANI, 2001a, p. 171).
Ao longo da década de 1980, a Editora Autores Associados publicou em parceria com a Editora Cortez, e neste tempo foram lançadas duas coleções que até hoje são publicadas pela Autores Associados, trata-se da “Educação Contemporânea” (livro em formato padrão) e “Polêmicas do nosso Tempo” (livros em formato de bolso). No início dos anos 90, a parceria entre as editoras Autores Associados e Cortez, chegaria ao fim. Segundo Saviani (2001a), as negociações apontavam na direção do fim da Autores Associados, o que liberaria os sócios da mesma para continuarem a publicar pela Cortez ou que procurassem outras editoras. É nesse momento que se levanta a força e a convicção do professor Casemiro dos Reis Filho, representado, em razão das consequências do derrame que sofrera em 1980, por seus filhos Heloísa Baldy dos Reis e Flávio Baldy dos Reis, que em uma das reuniões onde se discutia os rumos da Autores Associados, levaram um recado de seu pai: “[...] quem quisesse sair, que saísse; ele ficaria com o espólio” (SAVIANI, 2001a, p. 172). Dermeval Saviani, Gilberta Jannuzzi e Walter Garcia, juntamente com os filhos do professor Casemiro, decidiram não deixar morrer a Editora Autores Associados. “Desse modo, graças à determinação do Prof. Casemiro, a Autores Associados continua, de forma cada vez mais consistente, a contribuir significativamente para a divulgação, na forma de livros, da produção científica na área de educação” (SAVIANI, 2001a, p. 172).
Atualmente, segundo informação veiculada pela plataforma69 da Editora Autores Associados, seu Conselho Editorial é composto pelos seguintes membros: Bernadete A. Gatti, Carlos Roberto Jamil Cury, Dermeval Saviani, Gilberta Jannuzzi, Maria Aparecida Motta, Walter Garcia e Flávio Baldy Reis (Diretor Executivo). Entre as coleções publicadas pela Editora Autores Associados, além das já citadas “Educação Contemporânea” e “Polêmicas do nosso Tempo”, estão as seguintes: Memórias da Educação, Formação de Professores, Linguagens e Sociedade, selo Armazém do Ipê (abarca diversas áreas culturais), Ensaios e Letras (destinada à área de teoria e crítica literária), Jovem Leitor (área: ficção, e pertencente ao selo Ciranda das Letras). Vê-se a expansão do grupo Autores Associados, o que se deve tanto ao empenho do professor Casemiro, que, mesmo com limitações impostas à sua saúde, não desistiu do projeto editorial que traçara, bem como de seus colaboradores que continuam levando adiante este projeto, tendo em Dermeval Saviani o principal nome dentro da editora,
tanto pela vasta publicação que possui quanto pelo seu empenho neste projeto, do qual ele fez parte desde o nascedouro.
4.4 Os legados de Dermeval Saviani ao Mestrado em Filosofia da Educação e ao