Durante o período colonial no Brasil, ser negro e ser escravo significavam a mesma coisa. Assim, a mulher negra nascia para ser mucama, ama de leite, faxineira, cozinheira, lavadeira, arrumadeira, dentre outros; possuindo, para isso, dotes naturais.
Aparentemente, esse é um tempo historicamente superado, mas suas marcas permanecem na sociedade brasileira. O pensamento colonial produziu a imagem da raça negra diretamente ligada a trabalhos manuais, de força. Especificamente, na questão sobre o
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emprego doméstico, os estereótipos raciais, frutos das heranças do passado continuam vivos. Assim, relata Kofes (2001, p. 137):
A escravidão refletiu nas relações sociais brasileiras não somente no que se refere à questão racial, pois tal regime também repercutiu na forma como a sociedade brasileira aprecia o trabalho manual, em especial o realizado no âmbito doméstico por mulheres.
Fora isso, ainda há mais um complicador. Na medida em que ocorre a corrosão do sistema escravocrata simultaneamente chegam trabalhadores imigrantes, dentro de um período que há valorização da cultura europeia. Tal fato, é responsável por gerar uma ambiguidade na contratação de empregadas domésticas: apesar de ser um serviço ligado à raça negra, preferem-se as empregadas brancas (KOFES, 2001, p. 137-139).
Assim, a questão da escravidão construiu muitos dos estereótipos que dão significado até hoje ao emprego doméstico, assim como, o trabalho doméstico não remunerado transpõe para o emprego doméstico o problema da naturalização.
Durante o tempo em que vigorou o regime escravista, os negros eram percebidos como a mão de obra mais forte e preparada pelos colonizadores europeus, indispensáveis para a exploração no novo mundo. Contudo, essa ideologia mascarava o principal aspecto que justificava a escravidão: o alto lucro que ela proporcionava (EVANGELISTA, 2012, p. 113).
Evangelista (2012, p. 115) afirma que chega a ser intrigante perceber que o chamado “racismo científico” tenha dado seus primeiros passos justamente como reação aos movimentos abolicionistas, na segunda metade do século XIX. Segundo Santos (2002, p. 60), a ideia de raça foi criada por teóricos que necessitavam de ideologias que contribuíssem para a união nacional e com isso ganhassem força para escravizarem povos de raças distintas. Para ela, utilizou-se falsamente a ciência para justificar a dominação.
Ainda que o racismo possua características semelhantes com as concepções de etnocentrismo e da xenofobia, este não pode ser entendido como a mera intolerância. Dois são os motivos: primeiramente porque o conceito de raça só brotou no vocabulário filosófico no século XVIII; segundo, porque o racismo não partiu de uma suposição etnocêntrica espontânea. De fato, esta premissa da superioridade de uma raça sobre outra ganha força no século XIX, e buscou sistematizar essa ideologia através da ciência, principalmente a biologia (EVAGENLISTA, 2012, p. 115).
Esse processo que nega a igualdade dos seres humanos fundadas em diferenças biológicas, Guimarães chama de racismo moderno. Todavia, esse autor chama a atenção para a especificidade desse processo no Brasil. Assim, se adotado no campo de pesquisa “relações
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raciais” o modelo de racismo adotado nos Estados Unidos em comparação ao Brasil, se poderia chegar à falsa conclusão de que aqui vigora a democracia racial. Isso se deve, porque enquanto o modelo norte-americano refletia forte segregação racial, o modelo brasileiro demonstrava “uma afinada etiqueta de distanciamento social e uma diferenciação aguda de status e de possibilidades econômicas convivendo com equidade jurídica e indiferenciação formal etiqueta aguda” (GUIMARÃES, 2005, p. 41).
Três são os motivos apontados por Guimarães (2005, p. 41-42) para a ideia de democracia racial no Brasil. Primeiro, o programa político do anti-racismo ocidental enfatizava, à época, o estatuto legal e formal da cidadania, em vez de evidenciar o aspecto material. Segundo, os negros no Brasil não são definidos pela regra sanguínea, mas sim, pela cor da pele. Em terceiro lugar, o realismo ontológico das ciências sociais abordava os problemas sociais a partir de perspectivas de classe, negligenciando o racismo.
O fato é que no Brasil o racismo operou e continua existindo, responsável por uma ideologia que afeta profundamente a identidade dos negros, fazendo com que a crueldade, a violência e a opressão, sejam aceitas sem desconforto moral ou religioso. Assim, Neri (2011, p. 33) observa que estes indivíduos tiveram que repensar e reelaborar sua identidade frequentemente, de acordo com as variações sociais e políticas que ocorriam.
É certo que houve estudos que vieram desmistificar as teorias racistas. Neste sentido Rabenhorst (2001, p. 98), aponta que em 1950, a UNESCO patrocinou um debate com cientistas de diversas áreas, do qual adveio o consenso de que a divisão dos seres humanos em raça é apenas uma convenção, não tendo suporte científico.
Porém, se por um lado, houve a comprovação científica da inexistência de “raça” nos seres humanos, por outro, o racismo continua presente na cultura, na medida em que os negros prosseguem sendo discriminados. Frequentemente, as feridas das teorias racistas são expostas diretamente na sociedade. Como no caso em que, ao desembaraçarem no Brasil médicas, da cor negra, recrutadas de Cuba para exercer a profissão para um programa do Governo Federal, uma jornalista declarou pelas redes sociais que essas mulheres mais pareciam empregadas domésticas38.
Deste modo, tal declaração revela a ligação entre raça negra e emprego doméstico. Concordando que o emprego doméstico é permeado pelo preconceito racial, Freitas (2010, p. 155), afirma que é errônea a ideia de que tal preconceito tenderia a perder importância, quando comparado ao preconceito de classe, pois este seria mais fácil combater por ser uma
38 Disponível em: <http://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2013/08/jornalista-diz-que-medicas-
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clara falta de consciência, fruto de um atraso de mentalidade, o que, paulatinamente, desapareceria, à medida que a lógica de mercado passasse a vigorar de vez no cotidiano da ocupação, indicando, aos seus agentes, o verdadeiro problema ao qual deveriam se prender.
O que se vê são gerações de mulheres negras, uma atrás da outra, herdarem as mazelas da escravidão. Ser negro no Brasil ainda representa muitos desafios, principalmente quando se afirma que a escravidão é um tempo superado. Os negros com certeza sabem como essa realidade ainda vive no imaginário coletivo.