Durante a realização das entrevistas, foram recolhidas informações pessoais dos entrevistados para que fosse possível construir algumas referências de análise quanto à história de vida dos entrevistados. A princípio, não era este o interesse de pesquisa, contudo,
durante o processo de análise das entrevistas foi identificado que as trajetórias de vida geravam reflexo nas opiniões e contextos das falas dos representantes da classe profissional, principalmente no que se refere às representações sindicais.
A partir de tais evidências, considerou-se oportuno a construção desta seção, para apresentar elementos marcantes da história de vida profissional, caracterizada por Delgado
(2006, p. 22) “refere-se a depoimentos, acoplados a um projeto de pesquisa que, não tendo na
história oral sua fonte principal, visam complementar informações recolhidas em outras
fontes, enriquecer a pesquisa e obter informações não contempladas em outros documentos”.
Tal método contribui como fonte primorosa na reconstituição de ambientes, mentalidades de época, modos de vida e costumes de diferentes naturezas. Entretanto, observa-se que, pela abordagem utilizada na pesquisa, o termo mais adequado talvez seja o estudo de trajetórias de
vida, que é definido por Delgado (2006, p. 23) como “depoimentos de história de vida mais sucintos e menos detalhados”. Gonçalves e Lisboa (2007), após realizarem investigações
científicas sobre a profissão de Serviço Social, expressam favoravelmente ao método.
A construção deste modelo de análise se projeta como uma proposta investigativa que implica um processo de compreensão dos fatos, das relações sociais e pretende, à luz das trajetórias dos sujeitos, mobilizálos em direção à participação social, empoderamento e conquista dos direitos de cidadania (GONÇALVES e LISBOA, 2007).
A seguir, desenvolvem-se considerações sobre a história de vida dos entrevistados, no intuito de demonstrar a relação deles com a sua profissão. Os entrevistados identificados
como “analistas de TI” apresentam uma breve trajetória profissional muito bem sucedida.
Eram homens situados na faixa etária de 35 a 40 anos. Os representantes das instituições de ensino estudaram Ciência da Computação, e fizeram mestrado e doutorado em um curto período de tempo.
Sobre a profissão de bibliotecário, eram mulheres. As bibliotecárias revelam gratidão à profissão e demonstram grande influência do gênero feminino nas decisões profissionais. Uma das entrevistadas demonstrou como peculiaridade na trajetória profissional que foi a ausência do exercício profissional após sua formatura em 1988, chegando a exercer a profissão apenas em 1996.
Quando eu formei em 88 não me registrei. Registrei em 96. Eu não trabalhava, eu não exercia a profissão. Fiquei muitos anos sem exercer a profissão. Não tinha porque, não tinha interesse em exercer a profissão! Meu interesse surgiu depois (BIBLIOTECÁRIA, 2010).
Quando eu resolvi, rapidamente eu comecei a participar de todos os eventos da minha área, todos os seminários, congressos, nacionais, internacionais. Eu viajo!
Faço cinco ou seis viagens por ano, só em congressos e seminários, representando trabalhos. Eu fui fazer especialização, porque eu me senti completamente desatualizada do mercado de trabalho. Fui fazer especialização, depois fiz mestrado, pensando realmente em publicar e ler os trabalhos de todos os eventos. A parte de atualização é de cada um. (BIBLIOTECÁRIA, 2010).
Na história de outra bibliotecária, ela conta que se formou há vinte anos no curso de Biblioteconomia, e atuou como bibliotecária antes de desenvolver o mestrado e o doutorado em Ciência da Informação. Durante a entrevista, a identificação com os congressos profissionais foi bastante frequente, revelando a vontade da entrevistada de manter o vínculo profissional de bibliotecária.
Eu sou bibliotecária, mas eu já era. Trabalhei muito tempo como bibliotecária! Eu tinha registro em São Paulo. Quando eu vim para cá eu transferi para o Conselho Regional (BIBLIOTECÁRIA, 2010).
Outra bibliotecária demonstrou uma atuação profissional em empresas privadas e públicas, nacionais e internacionais. Sua fala transmite uma expressiva satisfação em exercer a profissão ressaltando a estabilidade profissional e, inclusive, a escolha dos postos de trabalho. A outra fala registra uma expressão de engajamento característico da década de 1970, e demonstra a frustração a respeito do comportamento atual dos profissionais em relação à participação das entidades pesquisadas.
A minha experiência profissional foi muito rica. Eu tive muita sorte com essa profissão! Tudo o que eu quis fazer na vida eu fiz com a minha profissão! Eu comprei os imóveis que eu quis, eu viajei para onde eu quis, eu trabalhei aonde eu quis. Eu troquei de emprego igual troquei de roupa! Nunca fui mandada embora. Eu aqui em Minas Gerais trabalhei, eu acho, nos melhores! Depois eu fui ser assessora do ministro em Brasília, morei fora do país dando curso para auxiliar de biblioteca e arquivistas e em biblioteca também. Então, eu tive uma experiência muito grande! Hoje, esse ano até que não... mas até o ano passado eu dei consultoria também na área (BIBLIOTECÁRIA, 2010).
Em 1974, dessa minha turma, nós somos quatro que formamos juntas! Quatro que foram presidentes da Associação! Então, foi um período que as pessoas se interessavam muito pela Associação. Hoje, já não há mais isso... (BIBLIOTECÁRIA, 2010).
Os empregadores da Prefeitura de Belo Horizonte responsáveis pelos bibliotecários nas áreas da Educação e Cultura apresentam formações diversas. Duas são formadas em Letras, sendo que uma realizou mestrado e o doutorado em Leitura Comparada. Há também uma socióloga, que atuou em editora e em outras frentes na área da cultura. Há ainda, uma bibliotecária que coordena outras, também formada em pedagogia.
Fiz pedagogia na UEMG, Universidade do Estado. Em 2008, eu formei em biblioteconomia, pela UFMG. Aí, foi quando saiu esse concurso, que hoje eu sou lotada, e não tinha formado ainda. O concurso, o edital, foi aberto em março daquele ano. Eu iria formar em dezembro, e passei em primeiro lugar. Eu fiquei morrendo de medo de me nomearem antes da formatura. Mas demorou muito para chamar,
porque hoje a política da prefeitura é de reposição de bibliotecário, pois não tem uma perspectiva, por enquanto, de abrir novas bibliotecas polo (BIBLIOTECÁRIA, 2010).
Os entrevistados da área contábil vinculados aos Sindicatos expressam uma trajetória de vida que se inicia com a primeira experiência profissional, resultante da formação no curso técnico em contabilidade. Entre os entrevistados, o gênero foi predominantemente masculino, com exceção da representante do sindicato dos profissionais e de uma instituição de ensino. Uma característica evidente nas entrevistas com contadores é a estabilidade do vínculo empregatício. Na maioria das entrevistas com contadores, pôde-se perceber o vínculo presente em escritórios de contabilidade, sendo considerada uma mobilidade ascendente, a migração da atuação em empresas para a atuação em escritório.
A trajetória de vida dos contadores remete a uma constante busca pela capacitação profissional. As falas demonstram um descompasso entre a vivência prática profissional e a capacitação para o exercício profissional ofertada pelas instituições formadoras. Outro aspecto interessante da fala retratada por um dos contadores entrevistados é a imediata adesão ao sindicato, revelando zelo e valorização de tal prática. Esta trajetória de vida perpassa o órgão coletivo e demonstra uma permanência na instituição sindical por mais de um mandato, sendo um motivo de reconhecimento positivo, observado pela entonação utilizada.
Outro representante sindical cursou Ciências Contábeis, foi líder do Sindicato dos Contabilistas e conselheiro do Conselho Regional de Contabilidade. Sua trajetória de vida apresenta uma identidade com representações políticas e termos vinculados à base política. O entrevistado já candidatou a vereador na cidade de Belo Horizonte. Sua inserção ao mercado de trabalho como contador é resultado de uma segunda escolha profissional não idealizada inicialmente. O projeto de vida inicial, para o entrevistado, era o futebol e a teologia.
Uma das entrevistas foi realizada com um profissional que começou sua atuação em um escritório de contabilidade como office boy e hoje é sócio sucessor de um escritório tradicional em Belo Horizonte, após 31 anos de exercício. Sua fala demonstra uma ideologia quanto à profissão, que foi considerada como um legado, pelo sócio do escritório, já falecido. Além disso, o entrevistado demonstra um expressivo reconhecimento e satisfação pelo fato de o filho estar matriculado em uma faculdade de Ciências Contábeis, representando a possibilidade de continuidade da empresa, por meio de uma nova geração profissional. A trajetória de vida do entrevistado demonstra engajamento em órgãos coletivos, inclusive nos órgãos ligados à área jurídica devido à sua atuação como advogado. Mas observa-se que sua
breve passagem pelos órgãos colegiados da classe dos advogados o fez retornar para a classe contábil.
Para o entrevistado, sua trajetória de vida é a adequada para a inserção do mercado de trabalho, como funcionário de um escritório de Contabilidade. Sua fala transmite a complexidade experimentada pela formação profissional e expressa que, ao buscar uma formação em nível superior optou pelo curso de Direito, por entender que as escolas de formação em Ciências Contábeis não trariam contribuições para o exercício profissional. Contudo, por exigências legais e de mercado, o entrevistado buscou fazer o curso de Ciências Contábeis na mesma faculdade em que fez o curso de Direito. Sua fala demonstra uma frustração quanto à qualidade de ensino da instituição.
Eu sinceramente fiquei um pouco decepcionado com a faculdade nesses quatro semestres que passei lá, você entendeu? Qualidade no ensino deles... eu fiquei meio decepcionado! [...] Eu fiquei um pouco decepcionado com a qualidade do ensino! Às vezes tem que ensinar o professor. Tinha uma professora lá que ela me colocava para dar aula para ela (CONTADOR, 2010).
A formação técnica em contabilidade também foi o início da trajetória profissional representante do Conselho de Contabilidade, conjugada com o exercício profissional em escritório de contabilidade. Posteriormente, o profissional cursou o ensino superior em Ciências Contábeis e iniciou sua atuação como professor universitário. A expressão utilizada para justificar sua adesão ao Conselho transmite uma ideia de contribuição para a classe
contábil. Outra circunstância abordada na entrevista é o uso do termo “convite” para a adesão
ao trabalho do Conselho profissional, demonstrando uma ação dos profissionais que atuavam em agregar pessoas para a representação profissional.
Assim como o representante do Conselho profissional, o representante da instituição formadora privada apresenta dois vínculos empregatícios, um como contador e outro como professor universitário. O entrevistado considera tal cenário amplamente válido para a transmissão de conhecimentos profissionais aos alunos. Neste caso, contudo, o profissional exerce duas atividades de 40 horas, o que revela uma incapacidade física e emocional para dimensionar as duas ocupações integralmente.
O professor representante do curso da instituição pública realizou o curso técnico de Auxiliar de Administração antes de cursar o curso de Ciências Contábeis na própria instituição. Apesar de o professor não ter feito o curso técnico em contabilidade, foi atuante no desenvolvimento de políticas públicas para a reformulação do currículo do curso técnico de contabilidade do estado de Minas Gerais.
Os relatos apresentados nesta seção buscaram caracterizar a trajetória de vida dos entrevistados, expressando características capazes de contribuir como exemplo de trajetória profissional, demonstrando aspectos de estabilidade e carreira profissional, principalmente para as profissões regulamentadas há mais tempo.