O ESC se volta a um tempo passado, e sua utopia diz respeito a olhar para o passado e transformar o presente, sem, no entanto, desenhar milimetricamente o futuro – como o fizeram os utopistas projetistas; essa utopia consiste precisamente em enxergar, ou melhor, reparar – perceber e também consertar, enfim, tem como finalidade a práxis. A força motriz da narrativa, assim, é a esperança, aquela que nasce do sonho diurno, mirando a mudança. Os sinais de sua passagem caracterizam um posicionamento pessimista que é um ativo “não” ao mundo em que vive. Em entrevista a Juan Arias (2003, p. 90), quando questionado se acredita que essa crença no socialismo como um “estado de espírito” não tem algo de religioso, ele responde:
– De religião, nada; de utópico, talvez. Falamos tanto de utopias, que talvez seja mais uma. Inatingível? Talvez o seja para umas tantas gerações, ou até, no pior dos casos, seja sempre inatingível. Mas isso não deve significar claudicação. Você tem de dizer não a toda essa hipocrisia. Estou convencido de que há de se continuar a dizer não, ainda que seja uma voz a pregar no deserto.
– Você acha que pregar no deserto pode tornar o deserto menos deserto? – Se no deserto não há ninguém a escutá-lo, você estará a falar sozinho.
Esse “não” que percorre sua obra, no ESC, apresenta-se na forma de uma narrativa que nega o mundo contemporâneo, mas não traça contornos definidos do projeto substituto. Lembra a base judaica da iconoclastia: “Deus, dizia o filósofo judeu do século XII Maimônides, não pode ser descrito positivamente, todo atributo positivo limita a divindade. Dele só se pode aproximar indiretamente – ‘por negação’.” (JACOBY, 2007, p. 68). A eutopia, assim, é constituída pela negação do parecer, do não-ser – necessariamente, defende o não-parecer, o ser.
Nessa perspectiva, em vez de desenhar utopias projetistas, o escritor aponta a necessidade de ressurgirmos de nós mesmos. Mesmo reconhecendo o “[...] humaníssimo
direito de esperar que o dia de amanhã não seja tão desgraçado como o está sendo o dia de hoje.” (SARAMAGO, 2009, p. 41), na voz da “mulher do médico” se deixa ver uma crítica ao presente, a negação dele, mas também uma determinação quase inabalável – “Aguentarei enquanto puder” (SARAMAGO, 1995, p. 293); ela se coloca à frente das ações não apenas por ser a única que enxerga, mas porque, estando meio mortos, porém meio vivos, nosso dever é ter forças para efetuar mudanças. Ela diria: “[...] chega de filosofias e taumaturgias, dêmo-nos as mãos e vamos à vida.” (SARAMAGO, 1995, p. 289) – em outras palavras, o que a personagem pede é que vão à práxis.
Em entrevista ao poeta Horácio Costa, em 1998, Saramago revela que
[...] a ficção para mim, hoje, não sendo uma carreira, é o recurso que eu tenho para expressar minhas perplexidades, minhas ilusões, minhas decepções. Não no sentido de uma literatura confessional. A preocupação que eu tenho é esta: Em que mundo estou vivendo? Que mundo é este? O que são as relações humanas? O que é essa história de sermos o que chamamos a humanidade? O que é isso de ser Humanidade? Ter encontrado para essa ficção uma forma pessoal de narrar, que é a minha, acho que esse meu privilégio – eu não sei como nem a quem pagá-lo – de haver podido chegar a ter uma voz própria para narrar o que tenho para narrar não tem preço. (COSTA, 1998, p. 24).
Que é a humanidade? Que é o ser humano? Ousando adentrar a pedra, a imanência, à procura de respostas a perguntas tão instigantes, mas amedrontadoras, o escritor encontrou sua maneira particular de ficcionalizar essa busca. A voz própria de Saramago, e as vozes de suas personagens, deixam claro o entrecruzamento de suas utopias pessoais e de suas ficções, alicerçadas no pacto entre ele e leitor: um propõe as ficções, deixando entrever suas desilusões, mas também o remédio para um mundo exaurido; o outro compactua, seguindo narrativas que, em quadros apocalípticos, constroem-se a partir de “estratégias de representação tradicional”, como propõe Aguiar (2012, p. 58) a respeito da ficção especulativa.
O tempo estava claro, parecia que as chuvas tinham acabado, e o sol, ainda que pálido, já começava a sentir-se na pele, Não sei como poderemos continuar a viver se o calor apertar, disse o médico, todo este lixo a apodrecer por aí, os animais mortos, talvez mesmo pessoas, deve haver pessoas mortas dentro das casas, o mal é não estarmos organizados, devia haver uma organização em cada prédio, em cada rua, em cada bairro, Um governo, disse a mulher, Uma organização, o corpo também é um sistema organizado, está vivo enquanto se mantém organizado, e a morte não é mais do que o efeito de uma desorganização, E como poder uma sociedade de cegos organizar-se para que viva, Organizando-se, organizar-se já é, de uma certa maneira, começar a ter olhos [...] (SARAMAGO, 1995, p. 281-82, grifos nossos).
Os elementos da utopia do ESC convergem, assim, para a organização, como um ainda-não visando quem vê a insustentabilidade do aglomerado de cegos no manicômio ou na
cidade. O manicômio é a primeira etapa no desenvolvimento do quadro de tentativas de organização; malogrado, a segunda etapa é a cidade, quando ainda se pensa (por parte da “mulher do médico” e de seu esposo) em procurar por quem fale de organização. Porém, o ambiente urbano não permite uma convivência saudável e que supra as necessidades do grupo de cegos; é essa situação que os força a cogitar morar no campo, que pode ser entendido como uma tentativa de regresso, de reencontro com a vida simples (e sustentável), distanciando-se da cidade, já desgastada antes mesmo da epidemia. Há, assim, uma disjunção espacial, com a negação do topos – a cidade. A personagem que torna possível esses deslocamentos, e que se mostra a única capaz de efetuar as transformações em cada etapa da busca por organização – obviamente, com a ajuda de outros –, é a “mulher do médico”, que, com seu esposo, procura, sem sucesso, pela ágora onde se fala de organização.
Ao estabelecermos uma analogia entre a forma matriarcal do gênero utópico e a narrativa utópica iconoclasta de ESC, é possível entender esta última como um processo no qual o pedido por organização atesta que as utopias, no mundo, não foram ainda colocadas em prática. Organizar-se, assim, constitui uma utopia na medida em que é a proposta da obra, em contraponto ao que se viveu no manicômio e fora dele, de onde provém a experiência necessária para a negação dos arranjos sócio-políticos (uma organização, não um governo). Os utopistas iconoclastas, nota Jacoby (2007, p. 17), em sua recusa a utopias de cores reluzentes, “[...] mantiveram seus ouvidos atentos a longínquos sons de paz e alegria”. Com o
ESC, Saramago nos apresenta sua utopia – pregada, como ele afirmava, no “deserto”, à espera
de que uns quantos o ouvissem. Ele manteve-se à escuta desses sons de paz e alegria e pediu que tentássemos escutá-los. Por isso nos convida a fechar os olhos.