Antes de iniciar a avaliação da dinâmica dos investimentos em nova capacidade produtiva nos países da região, é importante visualizar a evolução da qualidade do material produzido e exportado pelos países do Oriente Médio. A evolução do grau de enobrecimento dos produtos siderúrgicos da região pode ser aquilatada por intermédio da comparação com os produtos japoneses, reconhecidamente um dos mais nobres do mundo. Com esse propósito, foram obtidas as respectivas relações de dólar por tonelada dos diferentes produtos siderúrgicos para os países relevantes. Como era de se esperar, a relação dólar por tonelada dos produtos japoneses foram quase sempre superiores, à exceção dos EAU – onde houve quase uma correspondência de valores.
A avaliação do grau de enobrecimento dos produtos siderúrgicos está associada à noção de catching up. Entendida como o resultado de um conjunto de esforços que objetivam levar uma indústria à adesão ao paradigma organizacional e tecnológico
vigente. Em outros termos, representa a capacidade dos agentes de reduzir o hiato tecnológico da indústria local em relação a uma indústria de fronteira (no caso a japonesa). A redução do atraso de desenvolvimento do estado das artes local está associada, sobretudo, a processos de aprendizado. Na prática, a evolução do grau de enobrecimento dos produtos siderúrgicos pode ser um indicador da evolução do processo de catching up que se processa na economia do Oriente Médio. Assim, a taxa de enobrecimento será calculada relacionando os valores dos produtos exportados pelos países da região, com os valores daqueles comercializados internacionalmente pelo Japão - onde predomina o paradigma tecnológico de fronteira.
Em posse dos dados (obtidos na base de dados do ISSB) correlatos à relação dólar por tonelada dos produtos iranianos, dos produtos sauditas e dos produtos dos EAU, obteve-se a razão entre estes e os produtos japoneses. Esta razão é denominada neste trabalho de taxa de enobrecimento do aço. Adiante são apresentadas as referidas taxas, para os três países em debate. Antes de analisá-las, algumas considerações de ordem metodológica são necessárias. Primeiramente, é suposto que, a magnitude dos valores monetários envolvidos nas negociações dos produtos siderúrgicos, corresponde ao que denominamos de grau de enobrecimento dos produtos, ou seja, os preços pelos quais os produtos siderúrgicos são vendidos refletem o seu valor agregado. Esse pré- suposto é uma simplificação necessária, pois além de existirem diferenças regionais de preço, as transações ocorridas em datas diferentes podem envolver valores diferentes para um mesmo produto, especialmente em se tratando de um período em que os preços mudam de forma rápida, profunda e constantemente, como tem ocorrido no segundo semestre de 2008. Adicionalmente, essa análise é baseada nos preços do comércio internacional dos produtos siderúrgicos. Ela está apoiada nos preços correlatos às exportações. Estes, por sua vez, deverão variar não só ao longo do tempo, mas também por região de destino e pela produtividade do exportador. Trata-se de um preço médio que serve de proxy para o estudo do valor agregado do produto siderúrgico.
A avaliação do grau de enobrecimento está associada à identificação da qualidade do produto e, portanto, à agregação de valor ao mesmo, obtida no processo produtivo. Obviamente, a capacidade de agregar valor à produção envolve uma noção de cumulatividade. Esta por sua vez depende do processo de aprendizagem ocorrido no interior das usinas durante o processo produtivo. Neste teor, a teoria neoschumpeteriana
evolucionária pode ser invocada para dar conta das inovações de processo que podem redundar na melhoria da qualidade do produto final, na redução de custos ou no maior aproveitamento dos insumos (NELSON & WINTER, 1982). Assim, os parques industriais mais novos tendem a ter maior flexibilidade para se adequar às exigências do mercado e mais facilidade para continuar se modernizando, o que explicaria a possibilidade de uma indústria incipiente se aproximar do paradigma dominante. Na prática, o advento das mini-mills facilita o processo de aprendizagem e modernização da indústria siderúrgica.
A taxa de enobrecimento dos laminados longos subiu de 66% em 2003 para 80% em 2004, permanecendo flutuando suavemente em torno deste valor nos anos seguintes. Os aços longos também estiveram em valores próximos a 80%, aumentando para 96% em 2007. Já a taxa dos produtos semi-acabados foi mais volátil, partindo de 17% no ano de 2003 e atingindo o patamar de 97% em 2007, depois de sofrer oscilações ao longo do percurso dos anos. A taxa dos produtos tubos foi mais estável, não se afastando em demasia do nível de 25%. Por fim, a taxa do total dos produtos partiu de 69% em 2003 e atingiu 85% em 2007, influenciada pela trajetória dos semi-acabados. Significa que houve uma melhoria relevante no grau de enobrecimento do conjunto dos produtos.
O parque industrial da Arábia Saudita tem sido capaz de produzir produtos siderúrgicos de boa qualidade. Soma-se o fato de que a taxa de enobrecimento do conjunto dos produtos, representado pelo total de produtos do país, aumentou em 2007. Significa que os produtos do país têm qualidade, à exceção dos tubos, o que não quer dizer, necessariamente, que sejam competitivos, pois a noção de competitividade envolve a dimensão da estrutura de custos. No entanto, é possível depreender dos dados que existe certa compatibilidade da produção local com os paradigmas internacionais.
Gráfico 3.24:
Taxa de Enobrecimento do Aço da Arábia Saudita em Relação ao Aço Japonês, 2003-2007 (percentual) 0,00 0,20 0,40 0,60 0,80 1,00
Longos Planos Semis Tubos Total
p er ce n tu al 2003 2004 2005 2006 2007
Fonte: Elaboração própria a partir da base e dados do ISSB (2008)
No que concerne à realidade iraniana, o Gráfico 3.25 permite observar que a taxa de enobrecimento dos laminados longos aumentou continuamente ao longo dos anos. Em 2003 ela era de apenas 53%, enquanto em 2007 ela atingiu a surpreendente marca de 110%. Os produtos planos variaram dentro da faixa de 70% e 80%. Já os semi- acabados merecem um tratamento mais acurado. A taxa de enobrecimento em 2003 era de 20%, saltou para 84% no ano seguinte e depois seguiu uma tendência de queda contínua. Os produtos tubos estiveram nos primeiros anos nas cercanias de 40%, fechando 2007 no nível de 58%. No agregado, a taxa de enobrecimento não fugiu muito da média de 60%, embora tenha chegado a 71% no último ano. Significa que ocorreu uma sensível melhoria no grau de enobrecimento entre 2003 e 2007, sem, contudo, modificar substancialmente a taxa de enobrecimento dos produtos do Irã. Na prática, os produtos iranianos são os de pior qualidade dentre os países analisados. Provavelmente isso seja uma razão para o país ser um grande importador, pois é possível um país manter capacidade ociosa e importar. Plantas ultrapassadas podem produzir com qualidade e custos superiores, o que pode tornar os produtos menos competitivos
internacionalmente. No entanto, parte dos investimentos no país objetiva modernizar (substituir) algumas plantas antigas, o que minora esse problema.
Gráfico 3.25:
Taxa de Enobrecimento do Aço do Irã em Relação ao Aço Japonês, 2003-2007 (percentual) 0,00 0,20 0,40 0,60 0,80 1,00 1,20
Longos Planos Semis Tubos Total
p er ce n tu al 2003 2004 2005 2006 2007
Fonte: Elaboração própria a partir da base e dados do ISSB (2008)
Conforme o Gráfico 3.26, a taxa de enobrecimento para o total de produtos dos EAU é a maior entre os demais países, pois ela gravitou em torno da média de 80% ao longo dos cinco anos estudados. Importa salientar que os laminados longos experimentaram uma trajetória ascendente em sua taxa de enobrecimento. Enquanto a taxa de enobrecimento do semi-acabados sofreu uma mudança substancial em 2007. O que se pode depreender dos dados apresentados é que o país em tela tem, de modo geral, uma indústria siderúrgica capaz de produzir em níveis de qualidade semelhantes aos produzidos pelos países de referência tecnológica como o Japão. Em certa medida, parte da explicação para esse fenômeno está no fato de que o parque industrial do país é novo e, portanto, moderno. O advento das mini-mills permitiu que a difusão tecnológica da indústria siderúrgica ocorresse de modo mais rápido e a custos menores. Assim, é
possível afirmar que os EAU exportam produtos de qualidade elevada e, conseqüentemente, de maior valor agregado do que seus pares.
Gráfico 3.26:
Taxa de Enobrecimento do Aço dos Emirados Árabes em Relação ao Japonês, 2003-2007 (percentual) 0,00 0,20 0,40 0,60 0,80 1,00 1,20
Longos Planos Semis Tubos Total
p er ce n tu al 2003 2004 2005 2006 2007
Fonte: Elaboração própria a partir da base e dados do ISSB (2008)
Em síntese, o grau de enobrecimento dos produtos exportados pelos países do Oriente Médio não é baixo, o que abre a possibilidade da região realizar uma integração ao comércio siderúrgico internacional de maneira mais ativa em um futuro próximo. Em outras palavras, a qualidade dos produtos ofertados pelos países daquele local não é muito inferior ao padrão internacional. Assim, para que eles possam aumentar suas exportações de produtos siderúrgicos, seria preciso promover investimentos em ampliação da capacidade produtiva para que aqueles países pudessem aumentar suas ofertas domésticas, assim, ter condições de diversificar suas pautas exportadoras. A próxima seção trata da evolução dos investimentos em ampliação da capacidade produtiva siderúrgica.