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A história, conforme parte dela apresentada no primeiro capítulo dessa dissertação, traz fatos que nos ajudam a compreender quem são os indígenas contemporâneos, em especial, os que vivem no Nordeste do Brasil. Esses podem ser categorizados como fruto de transformações biológicas e culturais impostas a eles de forma agressiva. Além disso, os indígenas do Nordeste, não tiveram uma parte significativa de suas histórias registradas por falta de interesse de pesquisadores de séculos passados (OLIVEIRA, 1995, p.32-33), e por outros fatores, que dificultam a identificação dos costumes praticados por seus ancestres antes e, também, no início do período colonial. Tais situações podem ter colaborado para a existência de descriminação ao se dizer que, membros dos grupos indígenas existentes na região nordestina, não têm “cara de índio” e, além disso, praticam costumes diferentes de outros grupos, como os que vivem em regiões mais isoladas, por exemplo, os indígenas do Amazonas ou Pará.

Maturana e Pörksen (2004, p.84-85), ao abordarem a organização e estrutura de sistemas, dizem que “la distición entre estructura y organización de sistema permite distinguir con mayor exactitud cómo cambia un sistema”. Eles trazem como exemplo uma mesa e diz que se uma mesa é serrada nas pontas, sua estrutura foi modificada, porém continua sendo mesa; se por acaso os pés desta forem cortados pela metade, esta recebeu uma nova modificação, porém, continua sendo mesa. Mas se a serramos no meio e tirarmos as quatro pernas e deixamos essas peças separadas, ela deixa de ser mesa, pois não está mais organizada como tal e não tem mais a utilidade de uma mesa como conhecemos.

A estratégia de modificar a estrutura e a forma de organização dos indígenas foi utilizada para fazer com que esses deixassem de ser reconhecidos como originários. Os grupos indígenas já vinham sofrendo modificação desde a

colonização, mas não deixavam de ser considerados como índios, segundo os olhos da sociedade, porque ainda mantinham sua organização, a qual foi sendo desfeita no decorrer dos séculos.

Diferente de uma mesa, que é um objeto aparentemente sem vida, estático, o indígena pode ter passado por transformações estruturais e até mesmo organizacional, sendo separado de sua aldeia, vivendo na cidade, ou até mesmo ter crescido sem saber suas origens. Porém, este nunca deixará de fazer parte dos povos originários do Brasil, pois seus laços de parentesco, ou seja, o sangue que corre por suas veias, confirma sua identidade étnica (CARVALHO, 2007, p. 6-7).

A estratégia de modificar a estrutura e modo de organização dos grupos indígenas, também foi adotada pelo SPILTN, e se deu da seguinte forma:

Conforme as instruções internas dos SPILTN/1910, nas povoações indígenas seriam reunidos os índios das mais distintas tribos, e nos centros agrícolas, assentados os trabalhadores nacionais – pequenos produtores rurais destituídos de terra. Seriam enviados também aos centros agrícolas os índios integrados à sociedade nacional. Em ambos os casos o SPILTN visava modificar as formas tradicionais de organização e valorização do espaço praticadas por estas populações por outras mais

racionais e modernas, cujo intento era torná-los construtores da evolução, sob a gerência do Estado, quando então integrariam os centros agrícolas. Este tipo de unidade administrativa corresponderia a um patamar superior na trilha da inserção programada dos índios à sociedade nacional (OLIVEIRA, 1995, p.46).

Ressalto que, as transformações sofridas pelos povos indígenas não foram apenas no âmbito organizacional, enquanto estrutura social, mas também em seu aspecto físico. Então, assim como hoje temos um país onde não se sabe qual é a “cara” do brasileiro, também não se sabe qual é a “cara” do índio. Fato que precisa ser de conhecimento da população nacional, a qual vive dentro de uma diversidade cultural e aparentemente não sabe.

A cultura representa os costumes e características de uma sociedade. Ela é condicionada ao indivíduo quando este é inserido no grupo social. Entretanto, não podemos definir se um indivíduo pertence ou não a um grupo social tendo como base apenas seus costumes culturais.

Quando um emigrante italiano, alemão ou de qualquer outro país do continente europeu, asiático ou da América Latina sai de seu território – onde vive seu grupo social – por qualquer que seja o motivo, ao habitar outro país, por

exemplo, o Brasil, ali irá constituir família e estabelecer moradia. Em alguns casos, parte da cultura será repassada aos seus filhos, netos e bisnetos, como ocorre nas colônias alemãs que há no Sul do Brasil. Em alguns dos países citados, supondo que, os filhos ou netos do imigrante queiram voltar ao país de origem – seja para estabelecer moradia ou apenas passar uma temporada – esses têm direito a requisitar a dupla nacionalidade que os tornarão indivíduos pertencentes a dois grupos sociais, por exemplo, serão cidadãos alemães e brasileiros. Sendo assim, o que define o pertencimento ou não de um indivíduo a um grupo social?

No decorrer da viagem, pela qual pude reencontrar outros parentes63,

conheci os Pataxó Hãhãhãe, que segundo informação por eles dadas, Hãhãhãe significa mistura de povos, pois esse grupo é composto por indígenas de diferentes etnias. Tal situação vem ao encontro com a colocação de Oliveira (1995, p31-32) quando cita o surgimento de novos grupos indígenas, os quais são resultados de viagens feitas por seus líderes que lutaram pelo o direito de serem reconhecidos como originários. Mas o surgimento de novos grupos também pode dar-se por meio de casamento entre etnias e a junção entre dois povos ou mais, por exemplo os Kariri-Xocó. Vemos presente no nome dessa etnia a junção de dois nomes, de dois povos, os quais se juntaram em um determinado período do século passado, conforme relato de um dos membros da comunidade, e que foi citado no primeiro capítulo desta pesquisa. Isso nos mostra que a aliança, seja por meio do casamento, ou a favor de uma causa, que acarreta a junção de diferentes culturas, é uma prática adotada por diversas sociedades desde tempos remotos, conforme nos apresenta o Gênesis. Logo, tais alianças tendem a continuar ocorrendo, pois tendem a resultar em transformações no modo de vida desses. Além disso, as interações entre sistemas vivos fechados provocam transformações nas características culturais de ambos. Tais transformações, com o passar do tempo, podem resultar em grandes mudanças, sejam no aspecto físico ou comportamental, a tal ponto que levam outros sistemas vivos a não reconhecer que esses sistemas fazem parte, ou antecedem, de seu reprodutor originário. Justificando que as características atuais do sistema (que foram transformadas por meio da interação com outros sistemas vivos e fechados) são bem diferentes das características desse sistema em tempos passados.

63 Nesse caso trata-se de uma forma amigável, carinhosa, amistosa pela qual um indígena de uma etnia chama o indígena de outra etnia.