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A permanência e historicidade de conceitos, ideias e narrativas sobre campo e cidade, rural e urbano, suas dinâmicas e inter-relações, estão ligadas a dois processos distintos, porém diretamente relacionados: a história e realidade concreta de campo e cidade e as ideias/imagens construídas a partir das experiências, memórias, identidades e estruturas de

sentimento. As formas de campo e cidade, a agricultura, a indústria, seus desenvolvimentos, inter-relações, o avanço técnico e material, estradas, infraestrutura, comunicações, são resultados do modo capitalista de produção, seus ciclos e transformações permanentes. Em diferentes momentos históricos, conforme a realidade estudada, a consolidação da hegemonia burguesa torna a cidade o centro econômico, político e financeiro, o principal espaço das influências, decisões e organização das relações entre campo e cidade, inclusive do ponto de vista das classificações institucionais e acadêmicas. Inevitavelmente, esse processo de incorporação econômica e política do campo pela cidade ocasiona choques entre as fronteiras políticas e culturais, violência material e simbólica. Na análise de Martins, esse antagonismo no encontro das populações em fronteira inclui o “desencontro dos tempos históricos” (MARTINS, 1996, p. 40). Indígenas, camponeses, jagunços, empresários, agricultores, grandes grupos econômicos, possuem temporalidades histórias distintas, bem como modos de vida, visões de mundo e projetos de destino. Conforme as mediações políticas e projetos em disputa, temos distintas lutas, disputas e conflitos com dimensões econômicas, culturais e políticas. A luta pela terra envolvendo povos e culturas, indígenas, quilombolas, camponeses, é a alternativa que resta frente à transformação das terras dessas populações, terra de moradia e trabalho, em terra-mercadoria, e desses povos em miseráveis e explorados.

Há intenso debate acadêmico e político sobre as relações entre campo e cidade, sobretudo na área da geografia, que possui prolífico e constante diálogo com as ciências sociais. Entre os autores pesquisados, há muitos esforços para compreender a dinâmica e mudança dessas relações, muitos buscando identificar esses processos a partir de localidades específicas. Em comum, percebe-se a constatação de que, cada vez mais, aumentam e se movimentam as conexões em redes entre campo e cidade. Redes físicas e materiais, movimentadas principalmente por meio de transações econômicas, da reprodução social dos trabalhadores e do capital; e também redes de informação e comunicação que aproximam simbolicamente os espaços de campo e cidade, o que torna cada vez mais difícil as classificações e a delimitação de fronteiras. O urbano está presente no campo e o rural está presente na cidade. “O rural e o urbano expressam o modo de vida e os valores, enquanto o campo e a cidade correspondem à materialização desses modos de vida” (MONDARDO, 2008, p. 27). Claro que não existe equidade nessa relação, esse é um dos principais elementos do debate entre os autores que se debruçam sobre o tema: as especificidades do rural e as perspectivas de desenvolvimento a partir dessas especificidades e modos de vida. Os conceitos de urbanidades e ruralidades buscam iluminar essa questão. Outro aspecto comum nas análises é a crítica ao método do

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Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para definição de campo e cidade, no qual campo é tudo aquilo que não é cidade. Ou seja, classificação pela ausência e não pela presença de características próprias.

Em situação urbana, consideraram-se as áreas, urbanizadas ou não, internas ao perímetro urbano das cidades (sedes municipais) ou vilas (sedes distritais) ou as áreas urbanas isoladas, conforme definido por Lei Municipal vigente em 31 de julho de 2010. Para a cidade ou vila em que não existia legislação que regulamentava essas áreas, foi estabelecido um perímetro urbano para fins de coleta censitária, cujos limites foram aprovados pelo prefeito local. A situação rural abrangeu todas as áreas situadas fora desses limites (IBGE, 2010).

O economista José Eli da Veiga, baseado em critério da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), propõe o uso combinado de três critérios para classificação de campo e cidade: a população do município, densidade demográfica e população (MARQUES, 2002, p. 99). Com a densidade demográfica, compreende-se o grau de artificialização dos ecossistemas, portanto o grau de urbanização. Com essa classificação, o Brasil seria muito menos urbano do que se indica.

Assim, com base na combinação da densidade demográfica e do tamanho populacional o autor considera de pequeno porte os municípios que apresentam simultaneamente menos de 50 mil habitantes e menos de 80 hab/km² e conclui que 90% do território brasileiro, 80% de seus municípios e 30% de sua população são essencialmente rurais. Os 13% restantes da população caberiam numa categoria intermediária, que pode ser denominada como “rurbana” (ibidem, pp. 99-100).

Alentejano (s/d) e Rua (2002) criticam a proposta de Veiga. Alentejano por entender que na proposta de Veiga, que transpõe os critérios da OCDE, desconsidera-se as especificidades brasileiras; e que a crítica de Veiga ao “superdimensionamento estatístico” desconsidera que muitas das áreas consideradas como urbanas são assim definidas para que se cobre impostos dos seus habitantes. E Rua (2006, p. 92) critica Veiga, estendendo a crítica a Abramovay, por acreditar que enfatizam a dimensão político-administrativa em detrimento das dimensões simbólica, cultural e natural, fundamentais para análises integradoras do território.

Para respaldar historicamente e cientificamente a discussão sobre a relação campo-cidade na geografia brasileira, vamos inserir revisão bibliográfica desenvolvida por Flamarion Dutra Alves (2012), que pesquisou o tema em artigos publicados em dez periódicos científicos em geografia, abrangendo o período entre 1939 e 2009.

Segundo a pesquisa de Dutra Alves, o tema da relação campo-cidade acompanhou o desenvolvimento do pensamento geográfico. A relação entre os espaços urbanos e rurais é analisada epistemologicamente pelas correntes clássica, teorética, crítica e cultural (DUTRA ALVES, 2012, p. 8). É a partir de 1990 que as pesquisas ganham perspectiva crítica e caráter socioespacial (ibidem).

Na perspectiva da geografia clássica, com influência da geografia francesa, em pesquisas realizadas entre 1930 e 1960, evidencia-se a distinção e a pouca integração entre os espaços urbanos e rurais. Os estudos sobre campo e cidade focam os gêneros de vida urbanos e rurais, os sistemas agrícolas, o habitat, a economia urbana e a construção das cidades (ibidem, p. 10). Dutra Alves destaca os estudos de Deffontaines e Monbeig, que mostram o campo ditando o ritmo do crescimento urbano a partir da produção cafeeira e o crescimento do sistema de escoamento, juntamente com a rede ferroviária e o surgimento dos primeiros núcleos urbanos, vilas e cidades em torno dessas redes de transportes. Outro tema destacado na geografia clássica é a dependência que a cidade possui da produção agrícola, a questão do abastecimento (ibidem, p. 11).

A geografia teorética, com elementos teorético-quantitativos, modelos matemáticos, espaciais e filosofia neopositivista, conferiu especificidade, “aplicabilidade e cientificidade à geografia frente às outras ciências humanas – sociais” (DUTRA ALVES, 2012, p. 12). O processo histórico e científico de conquista epistemológica possui bastante similaridade com a formação do campo da comunicação, que no seu início também se baseou em preceitos positivistas, na psicologia comportamental, o behaviorismo, para se afirmar como campo científico. A ênfase da geografia teorética recai na organização e distribuição do espaço, características e funções de campo e cidade. A visão é funcional e cartográfica, sobrepujando o caráter político, social e a desigualdade socioespacial (ibidem, p. 13). Contudo, campo e cidade são estudados de forma mais integrada com “a questão do abastecimento, espaços periurbanos, suburbanos e franjas urbano-rurais” (ibidem). Essas pesquisas concentram-se no período entre 1960 e 1980.

A geografia crítica, também chamada de nova geografia ou geografia social, desenvolve- se ao final da década de 1970, a partir da aproximação com as ciências sociais, com bases marxistas. A chamada “Revolução Verde”, com a intensa modernização da agricultura na década de 1970, passou a integrar campo e cidade, transformando as relações produtivas.

37 Até então, faziam-se poucas críticas sobre as relações de trabalho, concentração de terras e o desenvolvimento desigual no campo, e quando aconteciam as críticas, essas não eram baseadas num referencial histórico- dialético, ou seja, a grande mudança na crítica sobre as desigualdades agrárias foi na inserção do método (ibidem, p. 14).

A tradição histórica das pesquisas sobre campo e cidade, nas ciências sociais e na geografia, caracteriza-se pela visão dicotômica sobre esses espaços. Pesquisas mais recentes, com o desenvolvimento de conceitos como ruralidades e urbanidades, tratam de um

continuum dos espaços rurais e urbanos. Marques entende que as pesquisas que apresentam a

ideia de continuum entre os espaços rural e urbano também se apoiam em “concepção dual”, pois consideram rural e urbano como “pólos de um contínuo”, “pontos extremos numa escala de gradação , o que pressupõe diferença qualitativa entre eles (MARQUES, 2002, p. 105).

O geógrafo João Rua (2006) desenvolve o conceito “urbanidades no rural”, baseado em Lefebvre, embora não concorde com o pressuposto da urbanização como processo histórico inevitável do teórico francês. O objetivo do autor é analisar, compreender e definir as novas territorialidades constituídas a partir das relações campo-cidade, suas características econômicas e identitárias, tomando como base empírica a região serrana fluminense sem, contudo, fazer imersão nesta localidade. Além do valor como terra-mercadoria, o campo também é apropriado e consumido pela cidade por meio da natureza, as paisagens e lazeres, mediados pelo capital e sua concretização na indústria do lazer. Nesse aspecto, Rua se baseia em Lefebvre. Ao analisar os “espaços de lazeres” na França, Lefebvre (1977, p. 247) percebe como estes espaços entram na divisão do trabalho social, reproduzem as relações de produção, contribuindo para a sua manutenção e consolidação. “Nesta perspectiva, os lazeres constituíram a etapa, o intermediário, a conexão entre a organização capitalista da produção e a conquista de todo o espaço” (ibidem). Rua avalia que o modo capitalista de produção recria o campo através da expansão física e ideológica, consubstanciada, por exemplo, em “pluriatividades”, atividades não-agrícolas no campo, prestação de serviços, trabalho industrial no campo, comércio etc. Graziano da Silva é o autor que defende a perspectiva de um “novo rural brasileiro”, a partir das transformações que ocorrem no campo nas últimas décadas do século XX, com o crescimento das ocupações rurais não-agrícolas (ORNAs) e das famílias pluriativas. Graziano da Silva é bastante criticado por mostrar esse processo como inexorável e não como possível estratégia de reprodução das famílias camponesas para manutenção da sua centralidade, como aponta Wanderley (RUA, 2006, p. 87). O principal problema das formulações de Graziano, para diversos autores entre os quais nos incluímos, é

o abandono da perspectiva de reformas radicais no campo, de sua reestruturação para construção de outro modelo agrário.

Para desenvolver o conceito de “urbanidades no rural”, Rua dialoga com autores de vertente analítica que valoriza a perspectiva da manutenção de especificidades do rural na sua relação com o urbano. Conquanto tenham particularidades nas suas abordagens, esses autores se concentram na ideia de “novas ruralidades”. Rua (2006, p. 91) se baseia em Maria José Carneiro, Roberto José Moreira, José Eli da Veiga, Ricardo Abramovay e Sérgio Schneider. A principal crítica de Rua a esses autores é que essa vertente analítica não considera o urbano realmente dominante, fundamental na construção de territorialidades. Rua (ibidem, p. 94) e Alentejano (s/d, p. 8) divergem quanto à ênfase e dinamismo próprios atribuídos ao espaço rural. Para Rua, a ênfase ao rural não pode ser exagerada devido ao predomínio do urbano nessa relação. Segundo o autor, as urbanidades decorrentes das interações entre urbano e rural não são novas ruralidades, mas um espaço híbrido que desafia os pesquisadores tanto da OCDE como do Brasil. Não é nem um urbano ruralizado e nem o rural urbanizado, é “o urbano presente no campo, sem que cada espacialidade perca suas marcas” (RUA, 2006, p. 95).

Marques mostra a partir de Abramovay que, pela literatura internacional, o significado de ruralidade nas sociedades contemporâneas é construído a partir de “três aspectos básicos: a importância das áreas não densamente povoadas, a relação com a natureza e a dependência do sistema urbano” (MARQUES, 2002, p. 103). Para Alentejano (s/d, p. 11), o que caracteriza o rural são as especificidades e, principalmente, a dependência da relação dos atores sociais com a terra, nas dimensões econômica, social e espacial. Em suma, a intensidade da territorialidade. Na periferia, espaço mediador entre campo e cidade, também se verifica essa relação mais próxima com o local, com o território, com ênfase no aspecto sociocultural. Desse modo, compreendemos que a relação entre local, nacional e global depende bastante da localidade que se toma como referência na análise. Como já foi demonstrado em estudos anteriores sobre o Movimento Hip Hop (BASTOS, 2012b, 2008), na relação com o global há muitas vezes maior valorização do local, do bairro, da vizinhança. A defesa e valorização do território no campo e na cidade, como moradia e/ou espaço de trabalho, ocorre em lugares com maior vulnerabilidade às especulações, avanços e violências da modernidade capitalista.

Marques (2002, p. 124) atesta que o debate sobre a construção de um novo espaço rural liga-se dialeticamente com repensar o urbano. O debate sobre a reconstrução do rural é

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condição para a reconstrução do urbano. Essa relação se explica à medida que o significado que Marques propõe à ruralidade comporta necessariamente “uma crítica à sociedade que transformou o homem e a terra em mercadorias e, portanto, ao processo de alienação que lhe é subjacente. É por acreditar nisso que temos estado atentos às novas formas de organização social no campo” (ibidem). Acompanhamos este pensamento e a proposta política subjacente. Raymond Williams (2011, p. 471) defende que os contrastes entre campo e cidade constituem formas de adquirimos consciência de parte central da nossa experiência e das crises da sociedade. E que as imagens que temos da cidade e do campo são formas de nos colocarmos diante do desenvolvimento social (WILLIAMS, 2011, p. 483). Ao analisar a persistência de imagens e associação à cidade e ao campo, com foco na Inglaterra, Williams (2011, p. 474) identificou que os momentos históricos em que a estrutura de sentimento presente na literatura expressa a evocação a um passado feliz, sob a forma de lamentos campestres, são as épocas de maiores mudanças na economia rural: o final do século XVI e início do século XVII; o final do século XVIII e início do XIX; o final do século XIX e início do XX. Ou seja, na objetivação da narrativa de evocação a um passado ideal, na linguagem que persegue o destino de liberdade e harmonia com a natureza, subjetiva-se e agarra-se à ideia de um passado que se confronta às alterações das relações de produção, entre o homem e a natureza, o homem e o trabalho, provocadas pela modernização capitalista. Os três períodos históricos apontados por Williams correspondem respectivamente aos cercamentos e aos dois principais momentos de mudanças tecnológicas da revolução industrial, primeiramente com a máquina a vapor e depois com o advento do motor elétrico e da rede elétrica. Podemos traçar um paralelo entre o sentido dos cercamentos para os trabalhadores rurais ingleses no século XVII com a Lei de Terras de 1850, no Brasil. Guardadas as especificidades de cada realidade e momento histórico, tanto no caso inglês como no brasileiro, modos de vida e a economia prioritariamente de subsistência dos trabalhadores rurais foram destruídos pelo projeto do Estado de modernização capitalista do campo, a transformação da terra em mercadoria, a imposição da propriedade capitalista sobre as relações históricas e culturais entre os homens e os meios de produção agrícola. Também nos dois casos, quem não pudesse comprovar a prova legal dos direitos sobre a propriedade agrícola, perdia sua terra sem qualquer compensação. Nas palavras de Thompson (1987b, p. 45), “os cercamentos representaram claramente um caso de roubo de classe, cometido de acordo com as regulamentações sobre a propriedade baixadas por um parlamento de proprietários e advogados”. Martins (1996, p. 43) explica que, antes da Lei de Terras, a concepção de propriedade que prevalecia era própria do

regime sesmarial, na qual a ocupação da terra com trabalho precede o reconhecimento de direito, o domínio era separado da posse. Com a Lei de Terras é estabelecido um único direito, o de propriedade. É o que Martins denomina como “cativeiro da terra” porque “liberta o camponês da grande propriedade, ao mesmo tempo que o subjuga a ela” (MARTINS, 1990, p. 42). Não à toa, a Lei de Terras é estabelecida no mesmo ano do fim do tráfico negreiro da África para o Brasil. Para ser um pequeno proprietário, o camponês precisaria de trabalho árduo para acumular e poder acessar a terra. Surge um novo campesinato, diferente do velho campesinato de posseiros e agregados, um “campesinato moderno cada vez mais dependente do mercado” (ibidem, p. 43). Entre as reações a essas mudanças, está o misticismo e o milenarismo, presentes na cultura e nas lutas camponesas.

Martins (ibidem, p. 30) explica que o localismo e o misticismo do campesinato não podem ser vistos como limitações de classe e sim como condições de classe. Thompson (1987c, p. 50) também não considera o misticismo como limitação de classe. O historiador inglês afirma que não entende a imagística – no que inclui exemplos como Babilônia, exílio do Egito, Cidade Celestial e luta contra Satanás - como limitação de classe e sim como recurso utilizado durante séculos por grupos minoritários para “articular sua experiência e projetar suas aspirações”. Thompson afirma ainda que a imagística é uma evidência de “fortes motivações subjetivas, tão “reais” e eficazes quanto as objetivas” (ibidem, p. 51).

Certamente, a imagística não é algo relacionado apenas aos camponeses, mas à dificuldade de sujeitos coletivos elaborarem e organizarem objetivamente as reações contra violentas mudanças em seus modos e meios de vida. José de Souza Martins relata, a partir de sua própria experiência pessoal, o que o autor encara como “elaboração “a posteriori” de

uma situação de observação participante” (MARTINS, 1994, p. 2, grifo do autor). O autor testemunhou o episódio da aparição de um demônio, visto por algumas operárias durante uma semana, na fábrica Cerâmica São Caetano, onde ele trabalhava ainda adolescente, aos 17 anos, em 1956. As visões só terminaram quando a direção da empresa chamou “o sacerdote da paróquia vizinha para celebrar uma missa e benzer as novas instalações da fábrica” (ibidem, p. 1). Martins (ibidem, p. 6) analisa que, sociologicamente, a aparição do demônio foi a maneira das operárias (eram mulheres que trabalhavam na seção de queima dos ladrilhos) lidarem com as inovações tecnológicas da fábrica, que tiveram impactos nas relações de trabalho e na cultura do trabalho, com a sujeição das operárias ao ritmo das máquinas e do novo forno de queima dos ladrilhos (ibidem, pp. 10-11).

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Martins também relata exemplo significativo do meio rural. O sociólogo conta que encontrou diversos grupos de camponeses em um raio de oitocentos quilômetros ao longo do rio Araguaia, que “chegaram à região inspirados pelas profecias do Padre Cícero sobre a existência de um lugar mítico depois da travessia do grande rio”, que é reconhecido como lugar das “Bandeiras Verdes”, com terras livres e águas abundantes, contrapondo-se ao árido e latifundista nordeste (MARTINS, 1996, p. 53). O sociólogo identifica a clara presença do milenarismo medieval europeu no milenarismo brasileiro, sobretudo, em regiões de fronteira (ibidem, p. 54).

Estudando a presença do campo na literatura inglesa, Williams percebe que a retrospecção que busca imagens do Jardim do Éden, da Idade de Ouro, onde a natureza viceja e tudo fornece, é aspiração a uma ideia de comunidade primitiva, de comunismo primitivo. Essa aspiração à Idade de Ouro aparece também nas palavras da Great Society, “uma das mais notáveis organizações de camponeses pobres”, do século XIV, “tudo que há sob o sol devia ser comum” (WILLIAMS, 2011, p. 77). Como repara Williams, a frase poderia ter sido dita pelos diggers, movimento de camponeses sem-terra do século XVII, e pelos “trabalhadores radicais de nossa época” (ibidem). Podemos encontrar semelhantes palavras, ideias e estrutura de sentimento em inúmeras construções simbólicas do MST, principalmente nas músicas, expressão artística esteticamente em movimento, ritmo, harmonia, cujas letras traduzem bem a subjetividade dos Sem Terra porque partem das experiências, da luta, da mística, do imaginário comuns. São construções coletivas, mesmo geralmente partindo de indivíduos. Dizemos geralmente porque, em muitas ocasiões, os Sem Terra constroem músicas coletivamente. As duas primeiras e a última estrofe da canção “Defendendo a diversidade”, do Grupo Saci Arte, do MST/PR, mostra essa aspiração à liberdade contra a modernização da agricultura. A letra, como muitas outras, reflete também as linhas políticas do MST.

Com a viola no peito, através do meu cantar Defendo a natureza e as belezas do luar As sementes e a água, a terra e a cultura Defendo a diversidade dentro da agricultura.

É uma barbaridade o que vem acontecendo Aonde a gente morava só cana que estamos vendo

A soja e o eucalipto invadiram o sertão Tirando a felicidade e a beleza da nação. (...)

Aos amigos violeiros eu peço um grande favor Que cante sem preconceito ao pequeno agricultor

Que produz um alimento sem veneno e sem mistura