Hvordan går mediehusene frem for å løse disse utfordringene, og hva kjennetegner de vellykkede fremgangsmåtene?
5.1 Motivering og involvering
5.1.2 Motivering/oppmuntring
198 As relações próximas entre a Igreja e o Estado Novo, constituíram um dos mais importantes obstáculos à aceitação primeva da sacralidade da Ladeira. Outros foram, naturalmente, a tradicional desconfiança que a Igreja tem destes fenómenos, a relação difícil que a vidente estabelece (desde o início) com as autoridades eclesiásticas, a constituição de um grupo de seguidores que consubstancia e corporiza cultualmente ações e reações vistas como ilegais e pouco conformes às exigências canónicas e, ainda, a existência de Fátima como um grande santuário mariano, em período de afirmação interno e externo.
De salientar, igualmente, a compreensível rejeição eclesiástica dos exacerbados frenesis que, à boa maneira das taumaturgias populares, proliferaram aí, traduzidos em atitudes exaltadas, discursos inflamados, frenéticos êxtases e catalepsias, apelos emotivos e, quantas vezes, algo delirantes. Bem explícitos, aliás, na perspetiva do Padre Vitorino232, em inícios dos anos setenta:
“É a exibição de milagres em série, previstos e marcados antecipadamente, ou imprevistos conforme as conveniências da propaganda, a propósito e a despropósito de tudo e de nada, parecendo que Deus deu agora em brincar aos milagres” (Jornal O Almonda, 20 de Novembro de 1971).
Igreja que prefere, obviamente, a discrição e serenidade das, assim chamadas, “locuções interiores” interpretadas (por exemplo) por místicos como o Padre Gobbi233 ou,
232 Responsável pela paróquia torrejana de Santiago a que, nesse tempo, pertencia o lugar da
Ladeira do Pinheiro.
233 Padre Stefano Gobbi, fundador do Movimento Sacerdotal Mariano. Este movimento, surgiu,
199 ainda, como a Irmã Lúcia (Lopes, 2009b), que baseará grande parte dos dados e reflexões
constantes das respetivas “Memórias” em informações e revelações recebidas por
“inspiração interna”234.
Tudo isto se traduziu (ou pelo menos se catalisou) na rejeição e diabolização eclesiástica da vidente e na vulgarização de epítetos populares pejorativos, como bruxa da
Meia Via, como foi conhecida, durante vários anos; especialmente antes do 25 de Abril. Na verdade, Maria da Conceição, embora sacerdotisa oficiosa de um culto abrangente (que ultrapassa os operativos rituais oratórios ou mágicos, que juntamente com o dom ou condão235 permitem, tradicionalmente, intervir no tratamento de malefícios diversos) assume um poder visível, embora delegado, resultado de uma relação direta e continuada com o divino, que inclui, determinantemente, a vertente curativa236: tratando de males de espírito e de corpo, de pessoas e animais.
Constituindo uma personagem de forte carisma e liderança natural, desde cedo assume a condução dos rituais que se vão gerando e a direção do grupo de seguidores ou acompanhantes mais ou menos quotidianos: apóstolos, discípulos, sacerdotes (alguns deles a viver, aí, em comunidade) ou simples devotos e peregrinos, de presença regular e/ou frequente. A convivência com pessoas que buscam no misticismo um caminho de salvação e irão ser frequentadores assíduos deste lugar e destes fenómenos, ajudá-la-á a relacionar- se com outras figuras místicas; principalmente do país vizinho.
Aos místicos D. Félix Sesma e Conchita, de Barcelona, com quem estabelecerá amenas relações, visitá-los-á inclusive, algumas vezes, em espírito. Com Clemente Dominguez de Palmar de Troya, próximo de Sevilha, terá contudo uma mais conturbada relação que, de proximidade inicial, há-de evoluir para uma acesa conflitualidade. Conflitualidade a que o carácter dominante das respetivas personalidades não deve ter sido
Fátima, em 1972. Desde então, a Virgem Maria ter-lhe-á, alegadamente, transmitido diversas mensagens.
234 “A sua relação com Deus tornar-se-á recorrente, quase quotidiana, Para lá de ‘pessoalmente’,
fala ‘intimamente’ (entenda-se interiormente) com Nossa Senhora, em coloquiais conciliábulos (Lopes, 2009b:334).
235 Espécie de atributo arcano que a crença popular acredita ser possuído pelas curandeiras ou
benzedeiras tradicionais. Hereditário ou transmitido por uma outra curandeira na hora da morte.
236 Esclareça-se que a denominação de bruxa, utilizada como adjetivação negativa, era muitas vezes
utilizada, igualmente, como respeitante às benzedeiras populares. Existiam outras bruxas, claro, figuras mitológicas de ignota identificação e clarificação. Arquétipos negativos de obscura ação e maleficência.
200 alheio, na disputa de um foco cultual, por definição excecional e, de um espaço de influência, sempre limitado.
Surgida em 1968, a seita de Palmar de Troya, resulta (como vimos atrás) do modelo visionário predominante principalmente até meados do século XX (Lopes 2009b): aparição mariana, crianças humildes, rústicas e analfabetas (frequentemente raparigas), referencial geofísico, mensagens desagravatórias, prodígios celestes, etc.,.. Neste caso, essencialmente; aparição da Virgem Maria, sobre uma árvore, a quatro meninas.
Tal fenómeno, irá dar origem a uma recorrente e abundante panóplia de acontecimentos taumatúrgicos da mais variada natureza, de que serão objeto diversos místicos e videntes, sujeitos de numerosos estigmas visíveis, desfiles extáticos e copiosos sangramentos (normalmente associados à paixão de Jesus), receções do Menino Jesus nos braços, perfumes e comunhões místicas, locuções, revelações privadas e inumeráveis mensagens. Daí resultará um cisma que virá a criar a Igreja Palmariana. Já que, segundo esta,
“O Céu revelou que a Igreja de Roma está infiltrada pelos inimigos que foram identificados como marxistas e franco-maçons e, cujo objetivo, é substituir o verdadeiro culto católico pelo culto da Nova Ordem237”.
A relação da vidente da Ladeira com Palmar de Troya (e com Clemente Rodrigues, naturalmente) é bem exemplo das surdas lutas de poder que envolvem estes grupos místicos contemporâneos, competindo por uma popularidade devocional que é, afinal, o segredo de um êxito cultual que arrasta as massas, num tempo em que a comunicação os torna, igualmente, parte de uma emergente globalidade: logo universalidade.
Clemente, esteve na Ladeira em Agosto de 1974, numa altura em que o culto tinha, aí, acabado de ser reaberto. Mas as relações esfriarão rapidamente e, já em Novembro, a obsessão antimarxista do mesmo, manifestar-se-á fortemente, atacando a seita portuguesa, a pretexto de eventuais euforias pela libertação cultual, que Abril permitiu.
“Não reina [o Senhor] já aí, porque se meteram membros do Anticristo e se deram vivas aos emissários da Rússia238. Porque se uniu a forças que estão triunfando em Portugal.
237 http://br.ocsfajmj.com/igrpal/intro/paulo_VI.htm. Eles haviam (os inimigos, claro) subido até as
posições mais altas da Igreja e, após a morte de Paulo VI (mártir que, no Vaticano, esteve sobre o domínio das forças do mal mas, apesar de tudo, impedia uma vitória completa), acabaram por colocar um deles na Cátedra de Pedro. A profecia de Nossa Senhora em La Salette (Roma cairá e se converterá na “sede do anticristo”) estaria, assim, sendo cumprida.