Definition des Weltkoordinatensystems
4.4 Monoscopic Camera Calibration
Quando do nosso ingresso no curso de Arquitetura da UFPA, no ano de 1990, percebermos que o curso apresentava em sua grade curricular disciplinas cujas ementas tinham por base: o projeto de arquitetura; o planejamento urbano; o conforto ambiental e o desenho geométrico e artístico. Em síntese, era um curso lógico, racional e mecanicista, no qual sua relação com o campo das Ciências Sociais deu-se, apenas, com esporádicas disciplinas como Psicologia Aplicada a Arquitetura e Introdução a Educação.
Hoje percebemos que o então evidente “tecnicismo acadêmico” fez como que nos esquivássemos do mundo real; do entendimento acerca da identificação dos saberes e fazeres quer implícitos ou não, e dos elementos materiais ou imateriais que o compõem. Observamos que a reconstrução do conhecimento de si e do mundo em volta, mesmo sem fazer parte e sem dominar códigos culturais locais, adentra no campo antropológico a fim de descortinar a relação entre o nativo e sua paisagem de pertença, sendo esta última moldada em função da cultura local.
Nas relações entre dados pesquisados, em estruturas superpostas e intimamente interligadas, explicamos a prática da etnografia na arquitetura,
23Termo técnico cunhado pelas pesquisadoras Rocha e Eckert (2001, p. 8) “para definir
o OUTRO na interação de pesquisa de campo, (...), aportando uma consciência histórica a nominação”.
alicerçando o entendimento, a interpretação do objeto em estudo e sua relação com atores sociais, os quais ao interagirem têm suas ações descritas, interpretadas e compreendidas pelo pesquisador. Uma vez que na relação etnógrafo-nativo a familiarização deu-se após algumas interações no campo de investigação, não apenas coletando informações e sim “vivenciando” sua cultura e interiorizando-a para entendermos o significado de seus comportamentos.
Segundo Laplantine (2000, p. 150) quando se confrontaram ações do etnógrafo, do historiador e do sociólogo, inerentes a percepção de nuances que distinguem a aquisição de informações, percebemos que o historiador não concretizou o contato pessoal que o etnógrafo perpetrou, pois o historiador não se relacionou diretamente com membros da sociedade que estudou, mas sim selecionou e investigou testemunhos anteriormente obtidos. Acerca da sociologia, o sociólogo manteve uma distância do objeto em estudo, sendo sempre capaz de ter uma explicação e solução para qualquer problema apresentado. Essas dinâmicas de abordagem consideram a visão de mundo do Outro envolvido no estudo, porém não entram diretamente em contato com ele.
Na busca de dados, o etnógrafo não segue parâmetros rígidos de pesquisa, uma vez que todo achado, até imprevistos e erros, constituem-se em informações que o pesquisador leva em conta. O etnólogo atina exatamente a “detalhes” do cotidiano rejeitados pelo historiador e pelo sociólogo. A presente pesquisa deslocou ao centro de interesse das ciências sociais, explorando o que foi de mais habitual e mais fútil. No centro do método etnográfico adotado para a pesquisa, buscamos dados em grupos sociais menores e mais periféricos. De acordo com Laplantine (2000, p. 150):
A etnografia é antes a experiência de uma imersão total, consistindo em uma verdadeira aculturação invertida, na qual, longe de compreender uma sociedade apenas em suas manifestações “exteriores” (Durkeim), devo interiorizá-la nas significações que os próprios indivíduos atribuem a seus comportamentos.
Portanto, não existe nenhum território particular à etnografia, a qual estudou as formas de comportamento e a sociabilidade daquilo que não foi formalizado e institucionalizado. Esta abertura a novas áreas de investigação interdisciplinar tornou-se uma renovação de conceitos epistemológicos na prática científica.
Na dinâmica empregada durante a abordagem antropológica partimos do pressuposto de que no campo tudo deve ser considerado, mesmo sem possuir semelhanças com objeto em estudo. Dados e observações precisaram ser referenciados na sua multiplicidade, de modo que fossem relacionados com a sociedade na qual se inseriram.
A antropologia estuda, por intermédio de práticas simbólicas e cotidianas, o contexto no qual são difundidos os objetos e suas relações com o cenário social, a fim de que os atores, sob uma ótica mais abrangente, pudessem refletir acerca do valor que sua cultura, atual e passada, representa em relação aos contextos culturais. O nativo vive em seu lugar de pertença, cabe ao pesquisador desvendá-lo.
De acordo com Laplantine (2000), o método etnográfico objetiva o entendimento acerca de outras sociedades através do desprendimento de si mesmo a fim de poder confrontar e comparar diversos aspectos entre as sociedades estudadas. O pesquisador coleta dados e os critica minuciosamente para depois compará-los, não isoladamente, mas dentro de um sistema estruturado de relações entre si, onde o estudo de textos etnológicos produz informações tanto da sociedade do observador quanto do observado.
A sociedade é estruturada em condições históricas e culturais de uma determinada época, na qual a coleta etnográfica está diretamente ligada ao contexto social e temporal, ao qual pertence o pesquisador. A neutralidade do pesquisador não existe, uma vez que este é parte integrante do objeto em estudo. Logo, esse passa a fazer parte do estudo e sua presença em campo influenciou nas atitudes das pessoas estudadas e no entorno do ambiente. Ninguém permaneceu indiferente e a subjetividade, que fez parte da relação de troca, deve ser transposta na pesquisa.
Laplantine (2000) observou ainda que o fato do pesquisador ser colocado em contato com outra cultura o faz perceber seus saberes e fazeres, lançando um olhar “pra dentro de si mesmo”. O distanciamento em relação aos métodos usados pela outra cultura faz parte da pesquisa. Essa aproximação proporcionou um novo olhar, redirecionando-o a romper os limites da cultura da qual emergiu.
A prática da antropologia finalmente, baseada sobre uma extrema proximidade da realidade social estudada, supõe também, paradoxalmente, um grande distanciamento (em relação à sociedade que procuro compreender, em relação à sociedade à qual pertenço). (LAPLANTINE, 2000, p. 158).
Apresentamos a etnografia como ferramenta efetiva para coletar dados, não apenas de modo sistemático e "braçal", mas sobretudo de maneira intelectual, pois suas interpretações levaram a uma "descrição densa”, na qual conseguimos por meio da percepção e da interpretação de significados simbólicos, hierarquizar situações mediante uma real significância de um ato (GEERTZ, 1978. p. 15-20).
Na análise do etnógrafo, a explanação de dados apresentados foi uma busca pelo entendimento crítico de camadas da interação, sobrepostas e interligadas umas às outras, tornando a cultura um sistema simbólico passível de interpretações semióticas para o seu entendimento. De acordo com Max Weber (apud GEERTZ, 1978, p. 15) “(...) o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu”.
Geertz (1978) foi pioneiro em conceber a etnografia essencialmente como uma negociação política que marca o contato entre o pesquisador e o nativo durante a pesquisa de campo e a formalização textual da interpretação dos resultados da investigação.Rocha e Eckert (2001, p. 23), demonstraram que
a efemeridade de nossa passagem, entretanto, certamente nos impede de desvendar uma série de códigos locais, etiquetas, segredos, não ditos, gestos, olhares e ações que nos passam despercebidos, e que apenas uma continuidade da pesquisa de campo neste espaço pode elucidar.
Na descrição densa está o objeto da etnografia, sendo uma hierarquia estratificada de estruturas significantes em torno das quais os “gestos” foram produzidos, percebidos e interpretados, sem as quais eles não existiriam. Para Geertz,
Fazer etnografia é como tentar ler um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escritos não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios de comportamento moderno (GEERTZ, 1978, p. 20).
Tendo por base os estudos de Eckert e Rocha (2001), a prática das incursões realizadas na presente pesquisa ratificou as diferentes temporalidades e obstáculos implícitos no processo de uma etnografia em sociedades complexas, objetivando percebê-las a partir de símbolos e significados atribuídos por indivíduos que pertenceram aos lugares com a qualidade de modificar e de influenciar o tempo e o espaço, proporcionando uma cadência no cotidiano citadino, pois foi na cidade que percebemos como o homem retratou, através de símbolos, sua maneira de ver o mundo.
A etnografia de rua usada em estudos de Arquitetura foi uma estratégia de atingir a pluralidade humana por meio de atividades exercidas e materializadas pelo homem em suas construções. O meio urbano guarda entre suas ruas e edificações fundamentos emblemáticos de seus habitantes e suas maneiras de se viver em sociedade, as quais proporcionaram alterações na paisagem urbana. Coube ao etnógrafo “desvendar” o genius loci pesquisado.
Descrever a cidade, sob um tal ponto de vista, é conhecê-la como locus de interações sociais e trajetórias singulares de grupos e/ou indivíduos cujas rotinas estão referidas a uma tradição cultural que as transcende. Conhecer uma cidade é, assim, não só apropriar-se de parte de um conhecimento do mundo, ou seja, os saberes e fazeres dos habitantes e o que conheço desta experiência de pesquisa junto a eles, quanto desvendar o conhecimento na busca de situar meu próprio ser em relação ao ser do Outro na cidade. (ROCHA;ECKERT, 2001, p. 4).
Ao adentrarem em um cenário de pesquisa etnográfica, Eckert e Rocha (2001, p. 4) assinalaram que foi imprescindível o uso de instrumentos audiovisuais, auxiliando a assimilação “sobre a dinâmica das interações cotidianas e representações sociais “na” e “da” cidade”.