3. R ESULTS
3.3 Simulated seismic images
3.3.1.2 Model 2
A formulação do Probiodiesel ocorreu dentro dos limites institucionais do Ministério da Ciência e Tecnologia, no âmbito da Secretaria de Política Tecnológica Empresarial, e contou com o envolvimento dos seguintes ministérios: Ministérios da Agricultura, Pecuária e Abastecimento; do Desenvolvimento Agrário; de Minas e Energia; do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; do Meio Ambiente; da Fazenda; do Planejamento; da Integração Nacional; e dos Transportes.
Todavia, como o tema ascende à agenda de governo com o propósito de agregar os conhecimentos tecnológicos e promover o desenvolvimento científico da produção do biodiesel, seus objetivos ficaram restritos à faceta técnica da política pública, não abarcando outros propósitos que justificassem o envolvimento mais ativo de outras Pastas Ministeriais. Ademais, esta política pública nunca foi prioridade de governo, não havendo, portanto, nenhum envolvimento do presidente FHC nos rumos por ela assumidos.
Isso se refletiu, portanto, no baixo envolvimento dos demais ministérios, que esteve restrito à escuta e ao acompanhamento das decisões tomadas pelo MCT. De fato, o Probiodiesel não teve a mesma prioridade e institucionalidade que o PNPB, criado por um Decreto presidencial que nomeou a participação de diferentes ministérios e cuja arena de decisão, quando no Executivo, esteve centralizada na Casa Civil.
Fonte: Discursos e Notas Taquigráficas da Câmara Federal: palestra de Ivonice Aires Campos, Coordenadora de Ações de Desenvolvimento Energético do Ministério da Ciência e Tecnologia, realizada em de Maio de , em audiência pública promovida na Câmara Federal, no âmbito da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática.
Como relata Ricardo Gomide, atual coordenador‐geral do Departamento de Combustíveis Renováveis do Ministério de Minas e Energia, que participou das discussões do Probiodiesel:
A participação era muito mais de ouvir o que estava acontecendo... não era de formulação, com responsabilidades específicas para cada Ministério (como foi no caso do PNPB) Ricardo Gomide, coordenador‐
geral do Departamento de Combustíveis Renováveis do Ministério de Minas e Energia .
Com base nesses objetivos técnicos, as discussões sobre a política pública foram focadas na especificação do produto, isto é, na definição técnica de como ele deveria ser produzido, e também na dimensão de testes de mistura do combustível . Não se avançou, portanto, em outros temas que envolvessem a cadeia produtiva do biodiesel como, por exemplo, forma de envolvimentos dos produtores, dinâmica de distribuição e de comercialização, entre outros. Recorrendo novamente ao relato de Gomide: O Probiodiesel tinha um foco de pesquisa, de médio e de longo prazo... as discussões focavam no tipo de biodiesel, por exemplo: a gente tem que ter um biodiesel que é um éster, então, seria a rota da transesterificação; ... ou a gente tem que fazer a adição de óleos vegetais em refinaria... não se tinha ainda noção do que era o biodiesel. ... Já havia países da Europa que usavam o biodiesel, então a discussão estava muito centrada no que seria o biodiesel brasileiro, o que seria o produto Ricardo Gomide, coordenador‐geral do Departamento de Combustíveis Renováveis do Ministério de Minas e Energia . José Nilton de Souza Vieira, Assessor e Diretor–Substituto do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que participou como representante do MAPA nas discussões do Probiodiesel, complementa: Entrevista gravada, realizada em Belo Horizonte, no dia de outubro de . O biodiesel pode ser produzido a partir de três rotas tecnológicas. Na rota da transesterificação etílica um reator mistura o óleo vegetal ou gordura animal com o etanol e produz uma reação química que remove a glicerina sub‐produto . A transesterificação metílica baseia‐se no mesmo princípio, porém o reator mistura o óleo vegetal ou gordura animal com o metanol. A terceira rota refere‐se ao craqueamento térmico, por meio do qual um reator trabalhando com temperatura elevada produz o biodiesel Fonte: Câmara dos Deputados, .
Tinha um fórum permanente de reuniões, com uma agenda de trabalho focando, por exemplo, o programa de testes testar o B , B , o B , níveis mais elevados de mistura... , o processo de transesterificação etílica e metílica, mais precisamente como se avançaria da metílica para a etílica, já que o Brasil tem uma grande disponibilidade de etanol e é importador de metanol... tudo isso estava sendo discutido, essa parte mais tecnológica José Nilton, Assessor e Diretor–Substituto do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento .
Portanto, como o Probiodiesel não avançou além de sua faceta tecnológica, a participação dos demais ministérios no seu processo de formulação foi bastante limitada, restrita apenas ao acompanhamento das decisões do MCT. Diferentemente do Proálcool e também do PNPB não se tratava de uma política interministerial. De fato, no governo de FHC o tema do biodiesel não foi além da agenda de governo, isto é, foi foco de atenção governamental setorial, porém não alcançou a esfera da escolha presidencial e do Legislativo conforme esperado em uma estrutura institucional democrática . A despeito do baixo envolvimento institucional dos demais ministérios, assistiu‐se, nesta política pública, a uma importante participação de institutos e centros de pesquisa, públicos e privados, relacionados ao desenvolvimento do mercado de biocombustíveis no Brasil tanto em sua formulação como implementação. Com efeito, conforme já mencionado, o tema ascende à agenda de governo justamente com o propósito de agregar os saberes e disseminar o conhecimento já acumulado e aquele viria a ser desenvolvido. E para a realização deste propósito, a participação dos atores que já estavam diretamente envolvidos nesta empreitada era essencial.
Assim sendo, na Portaria Ministerial que criou o Probiodiesel, determinou‐se que, para conduzir o propósito de fomentar o desenvolvimento tecnológico do combustível, o Ministério da Ciência e Tecnologia deveria coordenar uma rede de pesquisa e desenvolvimento tecnológico artigo º .
Convencionou‐se que, para se referir ao percentual de mistura do biodiesel ao diesel, indica‐se o número da porcentagem de mistura ao lado da letra B. Portanto, por exemplo, B refere‐se a % de mistura de biodiesel ao diesel.
Entrevista gravada, realizada em Belo Horizonte em de outubro de .
De fato, chegou‐se a formular um Projeto de Lei, em Março de autoria do Deputado Rubens Otoni para instituir o Probiodiesel, todavia ele foi arquivado.
O Ministério da Ciência e Tecnologia já vinha apoiando e se articulando com importantes entidades de pesquisa, antes mesmo da criação formal do Probiodiesel, o que favoreceu a ideia de se criar a rede e contribuiu para a sua formação. Três principais centros de pesquisa se destacam nesta articulação com o MCT: a TECPAR Instituto de Tecnologia do Paraná , o IPT Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo e o INT
Instituto Nacional de Tecnologia .
A TECPAR, através de seu Centro de Referência em Biocombustíveis CERBIO , criado por meio de um convênio entre o MCT e a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Estado do Paraná, foi responsável por conduzir, desde , estudos de tecnologia de produção de ésteres de óleo de soja, que consiste na mistura do óleo de soja ao diesel. A TECPAR envolveu‐se também, juntamente com a ANFAVEA Associação Nacional dos Fabricantes de veículos Automotores e o Sindipeças Sindicato Nacional da Indústria de Componentes de Veículos Automotores nos testes para a validação do uso da mistura do biodiesel em motores e veículos . O Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo IPT e o Instituto Nacional de Tecnologia INT também se envolveram ativamente nos testes operacionais, propondo diretrizes para o programa e soluções para os desafios identificados ABIPTI, , p. .
A partir do Probiodiesel houve um esforço institucional de se formar a Rede Brasileira de Biodiesel, composta por especialistas e organizações relacionadas ao desenvolvimento do mercado de biocombustíveis do Brasil e responsável por congregar as ações de especialistas e entidades responsáveis pelo seu desenvolvimento e industrialização, elaborar e homologar as especificações do combustível, e testar a sua viabilidade MCT, , p. . Formalmente, a rede foi instituída posteriormente em , denominada Rede Brasileira de Tecnologia de Biodiesel RBTB , já no âmbito do PNPB.
Assim, no que se refere às externalidades positivas geradas com Probiodiesel, o MCT destacou como principais benefícios a redução da importação do diesel, as melhorias
Os resultados dos testes, que continuaram com o lançamento do PNPB, resultaram na publicação do livro Testes e Ensaios para Validação do Uso da Mistura Biodiesel B5 em Motores e Veículos, publicado pelo MCT, no âmbito do PNPB, em .
ambientais e as potencialidades econômicas para a agroindústria e para o setor automotivo:
O desenvolvimento deste PROBIODIESEL permitirá desenvolver a competitividade técnica e econômica do biodiesel, potencializando ganhos ambientais e gerando novos negócios para agroindústria, montadoras e setores de autopeças MCT, , p. .
Note‐se que, para além dos ganhos ambientais e da economia de divisas, o MCT destaca o potencial de geração de novos negócios para os grandes setores econômicos, mais precisamente a agroindústria, as montadoras de automóveis e os setores de autopeças. Não se vislumbra, nesta política pública, a perspectiva de inclusão da agricultura familiar e a geração de externalidades positivas para os pequenos produtores de oleaginosas e para os trabalhadores rurais. A perspectiva social de uma política de agroenergia só é introduzida, efetivamente, a partir do PNPB . Outra importante característica do Probiodiesel refere‐se à preferência atribuída à soja como matéria‐prima para a produção do biodiesel. Essa intenção é reforçada no discurso de Francelino Grando, Secretário de Política de Informática e Tecnologia do Ministério da Ciência e Tecnologia, no âmbito da audiência pública realizada na Câmara Federal em novembro de , denominada O Biodiesel e a Inclusão Social :
O Ministério conduziu, desde a gestão passada, o Programa Nacional de Biodiesel. Foi muito importante o que foi feito, embora seja preciso manifestar, honestamente, neste momento, uma avaliação: houve uma condução pouco abrangente pelo Ministério de Ciência e Tecnologia. Mas por quê? Porque foi privilegiada uma única alternativa: a rota tecnológica de produção de biodiesel pela transesterificação etílica do
óleo de soja. É muito importante, é indispensável, o domínio dessa
tecnologia, mas ela não é única, e ninguém pode dizer sequer que seja a mais importante. Todas as diversas rotas tecnológicas são importantes. Mas, dada a diversidade continental do Brasil, certamente para cada região, nós teremos uma que seja mais vantajosa do que as demais. E é assim que o Ministério precisa cumprir a sua função de promover a investigação, de fomentar o desenvolvimento tecnológico, de fomentar a
É importante frisar que no caso do Proálcool a variável social foi introduzida apenas nas últimas etapas do seu processo de formulação e não recebeu apoio institucional para se concretizar. Ou seja, a intenção esteve presente apenas no discurso.
inovação no setor produtivo e de consolidar tecnologias GRANDO, F., , p. ; grifos nossos .
Institucionalmente, a ABIOVE Associação Brasileira dos Produtores de Óleos Vegetais teve uma participação relevante no Programa. No cronograma de atividades para a implementação do Probiodiesel consta que seria testado, até o final de , o biodiesel obtido a partir do éster etílico e do éster metílico da soja. Os responsáveis pela produção desse biodiesel seriam a ABIOVE e a ECOMAT, empresa produtora de biodiesel de Cuiabá MCT, , p. .