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O extenso trabalho coordenado por Eduardo Viotti é o mais completo mapeamento da força de trabalho existente no país sobre profissionais com titulação de doutor. O estudo é um desdobramento de um outro, também realizado por Viotti, publicado em 2006, sobre a característica do emprego formal dos doutores 35.

Doutores 2010: Estudos da demografia da base técnico-científica brasileira foi publicado pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), com o objetivo de oferecer uma rica base de informações sobre a situação dos doutores em atividade no país, incluindo estrangeiros que tenham se titulado em outros países.

Ao longo de suas 508 páginas, o estudo está dividido em cinco capítulos abordando: i) estudos da demografia da base técnico-científica brasileira; ii) doutorados e doutores titulados no Brasil (1996-2008); iii) emprego dos doutores brasileiros; iv) população de mestres e doutores no Brasil; e, v) estrangeiros autorizados a trabalhar no Brasil.

Embora se possa considerar alguma diversidade na forma de abordagem e nos sub-temas tratados, o objetivo central é traçar um retrato da situação dos doutores em atividade no país, de modo a favorecer as políticas traçadas para

35 VIOTTI, E. B., BAESSA, A. R. Características do emprego formal no ano de 2004 das pessoas que obtiveram título de doutorado no Brasil no período 1996-2003. CGEE, Brasília, 2006.

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este grupo, sua expectativa quando ao processo de formação e, principalmente, sua inserção no mundo do trabalho.

É inegável a importância deste trabalho, considerando a amplitude de nossa base técnico-científica e o fato de que, até então, pouco se sabia sobre esta parcela da população brasileira. Viotti informa que o Brasil dispõe, no ano de 2008, de algo em torno de 132 mil doutores, o que corresponde ―a 0,14% da população brasileira na faixa etária entre 25 e 64 anos de idade‖ (VIOTTI, 2010, 17).

É uma proporção extremamente reduzida, considerando-se o fato de que a pós-graduação alcançou no Brasil níveis de qualidade comparáveis aos dos países desenvolvidos, tem crescido quantitativamente a taxas elevadas, mas ainda não consegue fazer frente às necessidades do país.

O gráfico 2 mostra o número de portadores de títulos de doutorado por mil habitantes, na faixa etária entre 25 e 64 anos de idade, em países selecionados. Conforme se pode observar, o Brasil ainda encontra-se distante dos países desenvolvidos, com uma taxa de 1,4, e mesmo de países com pouca tradição no campo da ciência, como é o caso de Portugal, com taxa de 2,1.

Pode-se supor que este é um índice enganoso. Enquanto a Suíça, país mais bem situado no ranking apresenta uma taxa de 23 doutores por mil habitantes na faixa etária considerada, países como Alemanha e Estados Unidos, notoriamente sabidos como os maiores produtores no campo da ciência e da tecnologia, apresentam taxas bem menos auspiciosas, 15,4 e 8,4, respectivamente.

O Brasil aparece bastante distante do grupo e precisaria promover um grande esforço para chegar próximo aos índices desejáveis. Considerando -se as projeções feitas para a pós-graduação brasileira e o perfil demográfico da população do país, o Brasil deve levar cerca de uma década para dobrar o número atual de doutores. Especialistas defendem mudanças nos modelos atualmente praticados, com vistas a dar conta da tarefa.

Segundo Schwartzman, em entrevista ao autor, não há como o país enfrentar o problema da demanda por doutores, sem que sejam feitas

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modificações no atual modelo de formação. Schwartzman defende uma maior flexibilidade que atinja, sobretudo, os cursos de mestrado com conseqüências positivas sobre os programas de doutorado. O modelo atualmente praticado, ainda é o que foi desenhado pelo Parecer Sucupira, em 1965. Para ele, o mestrado acadêmico brasileiro é uma ―anomalia‖ que tem a característica de mini-doutorados e são extemporâneos, já que formatados para universidades que não dispunham de cursos de doutoramento (2010: 2).

Gráfico 3, Número de portadores de títulos de doutorado por mil habitantes na faixa etária entre 25 e 64 anos de idade, países selecionados.

Reproduzido de VIOTTI, E. Doutores 2010: Estudos da demografia da base técnico-científica brasileira. Brasília, CGEE, 2010, pág, 17.

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Jorge Guimarães, presidente da Capes, também em entrevista, afirma que o país necessitaria dispor, no momento presente, de um quadro de cerca de 600 mil doutores para fazer frente ao desafio de levar o país da condição de economia emergente à de país desenvolvido. O grande desafio seria não apenas titular este contingente, mas fazê-lo com níveis de qualidade compatíveis com os padrões internacionais alcançados pela pós-graduação brasileira.

O conjunto de alternativas possíveis para dar conta da tarefa, sinaliza a necessidade de um planejamento mais amplo para a pós-graduação36, de formar mais e com mais qualidade. Ainda há gargalos a serem atacados e, neste sentido o trabalho de Viotti sistematiza uma série de contextos e informações para que isto seja realizado.

Doutores 2010: Estudos da demografia da base técnico-científica brasileira, segue a linha dos trabalhos até aqui analisados, mas consegue ir um pouco além. Obviamente não tem a visão sistêmica proposta por Schwartzman, mas resgata a riqueza de dados e o apuro metodológico que pode ser encontrado em Fernandes e Velloso.

Se em A formação da Comunidade Científica no Brasil e A Construção da Ciência no Brasil e a SBPC, podemos observar o mercado de trabalho acadêmico em um processo ainda de formação, em A pós-graduação no Brasil: formação e trabalho dos mestres e doutores no país e Doutores 2010, podemos contemplá-lo já constituído e cabe, neste momento, questionar quais seriam as determinações que regeriam suas relações com outras esferas da sociedade brasileira.