6. Metodisk tilnærming
6.1 Metodetriangulering
Com respeito aos antigos diretores escolares, agora, denominados gestores, as conversas com três gestoras apontaram os impasses e os cuidados redobrados exigidos atualmente, em se tratando do tema assédio moral.
Patrícia e Queila, respectivamente, diretora e vice-diretora da escola em que Dora e Virgínia trabalharam, afirmam que o “assédio moral virou moda” e toda e qualquer cobrança profissional é hoje interpretada como uma questão pessoal e vista como um assédio moral.
Eu acho que a questão do assédio hoje é mal interpretada, porque às vezes você tenta chamar a responsabilidade de algum profissional e ele leva para o lado pessoal e não profissional. E às vezes alguns levam por esse lado, acham que é assédio moral, mas eu não vejo dessa forma. Eu acho que a
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Neste item conversei com gestoras e um gestor das Coordenações Regionais do Paranoá, Planaltina e Plano Piloto/Cruzeiro.
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gente, enquanto gestor público, tem que cobrar responsabilidade. E as pessoas não estão tão compromissadas, vamos dizer assim, com a educação e esquecem que elas precisam ter responsabilidade. (Fala de Patrícia.)
Patrícia ressalta que, na posição de gestora pública, seu olhar recai para a boa administração da escola pública, e isso implica gerir os recursos humanos da melhor maneira possível, atentando para a cobrança dos deveres e para o respeito dos direitos do servidor em meio ao que denomina de uma “filosofia humanista” vigente na escola, pautada no respeito tanto aos professores quanto aos alunos. Concorda com Ulisses sobre a afirmação de que os professores e as professoras querem receber os direitos, mas não querem ser cobrados em seus deveres. Quando isso acontece, alguns(mas) confundem, “levam para o lado pessoal” e sentem-se assediados.
Mariana, outra gestora, ressalta que há de se ter muito cuidado ao discutir com os professores e as professoras sobre as questões relacionadas aos seus procedimentos na posição de servidores(as), desde os atrasos até os procedimentos didático-pedagógicos, para essas questões não serem mal interpretadas como uma possível ação de assédio moral. Afirma a gestora não discutir nada sozinha nem a portas fechadas para não haver mal-entendidos. Em parte, o cuidado a que se refere resulta dos anos de “autoritarismo” na SEE-DF, de uma “cultura de autoritarismo”, e de uma imagem das direções como extremamente autoritárias, executora de ações de assédio moral. Na posição de “gestora nova”, Mariana trabalha cotidianamente em direção a práticas mais democráticas, mas sabe que carrega “um peso nas suas costas” dos diretores autoritários que, segundo ela, “estão mancomunados com a SEE- DF e que impõem”. Em uma perspectiva autoritária, o “estar mancomunado com a SEE-DF” significa ser um(a) diretor ou diretora aliado(a) da antiga Diretoria Regional de Ensino, seguindo à risca a sua política e gerindo arbitrariamente, impondo regras/deveres a serem seguidos e direitos que seriam cumpridos de acordo com a participação ou não do professor no grupo dos donos da escola ou da oligarquia escolar. Essa era uma forma de gerir que perdurou durante muitos anos na SEE-DF e que favorecia ainda mais as práticas de assédio moral, inclusive a forma de gestão, as quais ela se refere com tanto cuidado.
Por exemplo, eu faço reunião de Conselho Escolar, eu coloco tudo, e a coisa está caminhando, eu tenho o maior cuidado. Não é assédio moral, mas eu preciso discutir o procedimento de trabalho, eu preciso discutir por que você chega atrasado, certo? Eu tenho que ter o cuidado de chamar a atenção
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sempre, eu falo sempre, “olha vem cá, está acontecendo isso”. São muitos os cuidados hoje para não caracterizar assédio moral, entendeu? (Fala de Mariana.)
As preocupações das gestoras são mais do que fundamentadas, uma vez que, além de uma diversidade de professores e professoras, elas devem também administrar os demais servidores da limpeza, da alimentação, da manutenção e da segurança, os conflitos e assuntos referentes aos alunos e alunas, além das questões administrativas e financeiras da escola. No entanto, a questão a ser apresentada é a quem, como, em quais circunstâncias são feitas essas cobranças e se estas já estão inseridas em meio a ações de assédio moral, configurando mais algumas das ações de perseguição sistemática, e não apenas ações que configuram conflitos pontuais; se são ações de cobranças a qualquer servidor que chega atrasado, que não entrega os diários, que não atua conforme a orientação pedagógica da escola.
Trata-se de uma cobrança da gestora atenta e não licenciosa. Mas, se tratar de uma cobrança exclusiva a(o) servidor(a) que não faz parte do grupo dos donos da escola e é
certinho demais, como Sebastião, que teve os seus diários rigidamente fiscalizados; que é caxias e encrenqueiro demais, como Nuno, que passou a ser sistematicamente fiscalizado em
suas aulas; que é autônoma demais, como Verena, que passou a ser diariamente boicotada em suas ações pedagógicas e questionada pela direção por seus insucessos, essas são ações de assédio moral. Os exemplos etnográficos demonstraram que exímios servidores também são cobrados por seus superiores com ações de assédio moral.
Um servidor sistematicamente perseguido sabe identificar quando mais essa “cobrança” do gestor faz parte de um rol de ações de assédio moral que compõem o conjunto das ações sistemáticas pelas quais vem passando. Nesse caso, provavelmente, não se trata somente de uma “cobrança” pontual para o bom andamento da escola, mas sim de uma ação do terror psicológico cotidiano para desestabilizá-lo psicologicamente. Lembrando que em meio à hierarquia dos grupos da SEE-DF, diferentes “cobranças” são feitas aos diferentes grupos, assim como concessões também.
É importante atentar que os gestores e as gestoras também estão sujeitos às ações de assédio moral. Em nossa conversa, Mariana afirmou que ela, na posição de gestora, já havia se sentido assediada moralmente em sua escola. E explicou que entende por assédio moral as situações de exposição em público. Relatou então o momento em que uma professora expôs um procedimento errado dela perante todo o grupo de professores, mas afirma que ela, como
154 gestora, “tem que segurar mais a onda”. Atribui isso ao que denomina de assédio moral
inconsciente, no qual o gestor é sempre acusado de errado, e o professor não sabe lidar com o
problema de outra maneira mais “madura”. Embora seja um fato isolado, o que segundo a literatura especializada (HIRIGOYEN, 2006, 2009; SOBOLL, 2009) por si só não configuraria um episódio de assédio moral, esse conflito a afetou profundamente. Em segundos, ela viu a sua dignidade como profissional ser atingida e sentiu-se insultada moralmente pela forma como a professora contou que a diretora negligente deixou a turma sem lanche. E pior, ela não pôde explicar perante o grupo de professores o que realmente havia acontecido.
“Assédio moral é moda”, “assédio moral é exposição em público”, “assédio moral é um terreno muito arenoso”, “assédio moral é uma novidade” essas foram algumas das caracterizações do assédio moral com as quais me deparei em campo. Mas, permeando todas elas e todos os discursos, havia uma palavra: autoritarismo. Foi essa a palavra com a qual o atual gestor Luís começou a nossa conversa ao narrar os episódios de assédio moral a que fora submetido.
Gestor há muitos anos, Luís já vivenciou muitas situações de autoritarismo nas escolas por parte das antigas diretorias regionais de ensino. Segundo ele, os diretores das regionais achavam que podiam “fazer isso e aquilo” e ameaçavam e trocavam os coordenadores pedagógicos e os diretores das escolas, o que caracterizava explicitamente o assédio moral.
Luís: Por exemplo, quando a pessoa não era aliada politicamente da pessoa que estava no cargo, ela fazia de tudo para tirar a pessoa que estava na direção da escola, mesmo a gente estando com o respaldo da comunidade. “Se não fizer assim vocês vão acabar saindo. Nós temos que trabalhar para político tal e tal”. Isso é um assédio moral grave inclusive, é agressão mesmo. Isso aí aconteceu em várias gestões da Regional de Ensino, várias gestões.
Thaisa: Entendi.
Luís: Inclusive nessa escola, os gestores estavam acuados sob a direção destas pessoas que estavam na Regional de Ensino.
Thaisa: Ou vocês trabalhavam junto para quem eles queriam ou vocês? Luís: Ou era perseguido. É, era perseguido. Chegou ao ponto de agredir fisicamente e psicologicamente uma professora. (Fala de Luís.)
155 Luís traz à tona os arranjos políticos que influenciam diretamente a vida escolar: a política partidária local e a exigência da atuação do diretor em consonância com as afinidades políticas da Diretoria Regional de Ensino. A censura na prova de Nuno já havia sido um exemplo de como outrora essa consonância partidária com a Diretoria Regional de Ensino se fazia sentir com mais força. Nenhuma voz de censura ou crítica poderia ser levantada contra o partido político governista em sala de aula, na coordenação pedagógica, quanto mais registrada em um prova bimestral. Embora em menor grau, alguns professores afirmam sentir que ainda existe um pouco esse sentimento da censura na SEE-DF; as críticas à “situação” política, mesmo as bem fundamentadas, não são bem vistas e os professores e as professoras são taxado(as) de reclamões e descontentes pelos corredores das escolas. Lembrando que a maior ou menor aceitação das críticas sempre dependerão da posição ocupada pelo professor ou professora em meio aos grupos na escola. Ou seja, um outsider tem maior probabilidade de ser taxado de reclamão e chato, ao passo que um professor que faz parte do grupo dos donos
da escola será sempre exaltado e lembrado pelo brilhantismo das mesmas considerações
críticas.
2.7 A RESSALVA DOS COORDENADORES DAS CRES: DIRETORES AUTORITÁRIOS