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Na literatura sobre graffiti são invariavelmente mencionadas diversas manifestações que podem estar na origem desta prática expressiva urbana. A própria etimologia da palavra graffiti remete para um contexto preciso: nas paredes de Pompeia era comum aparecerem inscrições variadas, muitas num tom coloquial6.

Este elemento pode, por um lado, revelar-se surpreendente, mas pode sobretudo estimular comparações com o que hoje pode ser encontrado em tantas estruturas públicas urbanas. Era igualmente comum encontrar nas paredes de Pompeia o nome próprio de quem escreveu, prática que viria a ser referenciada mais tarde na região do Danúbio, em pleno Ancien Régime. Alguém de nome «J. Kyselak» deixou o seu nome por várias paredes e muros rochosos na região, com uma profusão tal que sugere que ao Kyselak original se tenham sucedido imitadores, reproduzindo esse mesmo nome do viajante (Stahl, 2009:30), uma outra prática interessante do ponto de vista da comunicação e do território7.

Há nesta prática de «deixar» o nome próprio na parede um sentido evidente de querer marcar uma presença que de outra forma poderia passar despercebida, mais do que com o simples acrescentar de mais uma pedra a um pequeno monte de pedras, prática corrente de montanhistas e caminheiros. Esta vontade de inscrever o nome, como que imortalizando a pessoa a que corresponde, é hiper concretizada nas diferentes Hall of Fame ou Walk of Fame, onde músicos, actores, artistas ou outros vêem o seu nome permanentemente visível numa parede ou chão dedicados à celebração dos seus feitos. Sintomaticamente, mais tarde, esta prática foi reapropriada pelo graffiti, em que os writers que se destacam são celebrados de maneira muito particular em Wall of Fame própria.

Ainda no registo do nome, há um outro episódio comummente referido nos enquadramentos históricos do graffiti, nomeadamente o que teve lugar na II Guerra Mundial. Aqui, era prática comum de soldados americanos, deslocados para cenários de guerra em diversos pontos geográficos, disseminarem as palavras ‘Kilroy was here’, juntamente com um desenho de uma personagem que se crê ter tido origem num cartoon inglês. Este grafito apareceu um pouco por toda a Europa em guerra, a par das movimentações dos soldados americanos (Adz, 2010:92).

A prática de escritos na parede é uma presença recorrente em contextos sociais convolutos, quer em momentos de guerra, como vimos, quer em momentos de tensão social. Nesse sentido, é de destacar os

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«O walls, you have held up so much tedious graffiti that I am amazed that you have not already collapsed in ruin» - inscrição encontrada na parede de uma Basílica (traduzida para inglês).

Veja-se a listagem disponível online dessas inscrições encontradas nas paredes de Pompeia, no seguinte site: http://www.pompeiana.org/resources/ancient/graffiti%20from%20pompeii.htm

7 Já que permite que o nome «viaje» por si só, pela inscrição em diferentes locais onde Kyselak, a pessoa que

eventos de Maio de 1968 em Paris como um momento marcante, em que escrever na parede atinge significados simultaneamente revolucionários e poéticos. A escrita nas pareces das cidades, com intuito entre o poético e o revolucionário, é uma prática que os Situacionistas já vinham a ensaiar desde a década anterior8, como parte do seu programa de criação de situações pelas ruas da cidade.

Centrais na proposta Situacionista foram a dérive e o détournement, em que as ruas da cidade eram o palco da criação de situações de subversão de significados, e a arte, promessa revolucionária, necessariamente temporária e vivida:

«Como embuste, a arte deve ser suprimida e, como promessa, deve ser realizada – será essa a chave da revolução. A arte deve ser superada e nós, que suprimimos a arte no nosso próprio espaço e tempo, podemos fazer com que isso aconteça. A nova beleza não pode senão ser a beleza de cada situação, o que quer dizer que será temporária e vivida…» (Marcus, 1999:209-210)

De teor e intuito marcadamente distinto é o fenómeno que na década de 60, nos Estados Unidos, mais precisamente em Filadélfia, é relatado. Jornais locais noticiam o aparecimento da palavra ‘Cornbread’, o nome por que era conhecido Darryl McCray, em diversas paredes da cidade – mas também no avião a jacto dos Jackson 5, num carro da polícia e num elefante – tendo estas duas últimas incursões sido reproduzidas por Banksy (Adz, 2012:92). Juntamente com um grupo de amigos, Cornbread foi espalhando o seu nome, no que de facto foi o primeiro exemplo da prática de tagging não só como agora a conhecemos, como dotada de significados de transgressão que agora lhe associamos. Pouco depois esta prática surge também em Nova Iorque, onde em 1968 alguém começa a assinar «Julio 204» (o seu nome próprio e a rua onde vivia) em paredes do seu bairro. Membro de um gang local, os

Savage Skulls, o seu tag aparece como forma de demarcação territorial urbana, dando o mote para outras práticas do género na cidade de Nova Iorque. É o caso, nomeadamente, de Taki 183, tag bastante mediatizado na altura 9. Estafeta, Taki – diminutivo de Demetraki – escreveu o seu tag pelos

percursos que quotidianamente fazia pela cidade de Nova Iorque, talvez não com o intuito de o demarcar territorialmente mas tão-somente assinalar a sua presença. Com a repercussão do artigo do New York Times sobre a prática de Taki 183, muitos jovens associaram esse tipo de acção à possibilidade de fama mediática. Este aspecto foi salientado por Ricardo Campos, que situa esta fama num plano marginal ao dos meios de comunicação convencionais:

«Reza a mitologia que esta é a fama dos pobres, a notoriedade dos desprovidos de recursos que, deste modo, inventam modos de comunicação à margem dos canais convencionais.» (Campos, 2010:113) Estava dado o mote para muitos outros seguidores que criaram tags pessoais e também iniciaram a sua disseminação pelas paredes - e por toda a espécie de estruturas, na realidade - da cidade (Adz, 2010:92). Com a profusão de jovens que decidem inscrever o seu tag nas paredes da cidade, estas

8 Por exemplo, «Ne Travaillez Jamais», inscrição deixada na Rue de Seine em Paris, 1952, no seguimento de

uma manifestação contra o general Ridgway (Marcus, 1999:209).

9Consulte-se o artigo ‘Taki 183 Spawns Penpals’ do New York Times, 21 de Julho de 1971, disponível online em http://www.ni9e.com/blog_images/taki_183.pdf

expressões tornam-se cada vez mais visíveis, denotando-se um certo aspecto de competição entre si, no acto algo reivindicativo de reclamar um pedaço do espaço público para si, inscrevendo nele o nome:

«Constitui-se, assim, uma rede de comunicabilidade que reúne centenas de jovens em redor das linhas metropolitanas, olhos postos nos comboios que circulam por todo o espaço urbano, reivindicando e afirmando visualmente uma identidade criada para a rua.» (Vieira, 2004: 44)

É entre a transgressão e a procura de visibilidade que estas práticas se vão estruturando e impondo, e estas duas promessas dão o mote para o que mais tarde sucede à prática de graffiti quando inserida na cultura hip hop.

Porém, antes de explorar essa vertente, analisarei as origens das intervenções nas ruas das cidades cuja intenção é especificamente artística.